LEANDRO GOMES DE BARROS,
O PRECURSOR MAIOR DA LITERATURA POPULAR.
Autor: Medeiros Braga




O cordel foi conhecido
Como folheto de feira
Era cantado em mercado,
Nas ruas, praças, ribeira,
Pelos alpendres de casa
Pelos oitões, feito brasa,
Ou à sombra de mangueira.

Por estrofes narradoras
Dos mais diferentes temas,
Com versos de sete sílabas
Ou de dez em alguns lemas,
Eram sempre caprichados,
Rimados, metrificados
Dentro da regra suprema.

Essa audaz literatura
Já tinha a definição
De IMPRESSA, NARRATIVA
E POPULAR, na missão
De levar o saber certo
Ao letrado e analfabeto
Do povoado sertão.

Sendo essa a descrição
Verdadeira, tão fiel,
Desse folheto de feira
Que se diz, hoje, cordel
Afirmo por esse teste
Qu’ele nasceu no Nordeste
Da verve do menestrel.

Nasceu há mais de cem anos
Na Paraíba do Norte,
Leandro Gomes de Barros
Esse poeta de porte
Foi ele o seu criador
E também divulgador
Dessa arte, com tal sorte.

Não tem nada disso a ver
Com o folheto francês,
Nem mesmo com espanhol,
Ou luso-norueguês,
Lá se dava bem diverso
E até em prosa e verso
Sem nenhuma polidez.

Por vezes pequenos contos,
Ou informes de jornal
Eram descritos em prosa
Sem nenhum verso, EM GERAL,
Eram, pois, sem tais versetos
Vendidos como folhetos
De feira em todo arraial.

Não existia uma regra
Pra sua composição,
Eram por vezes compostos
Pela trova ou por quadrão,
Não havia essa beldade
Que há na sonoridade
Dos cordéis do meu sertão.

Por isso que muitos dizem
Que o nosso cordel veio
Da Espanha, Portugal,
Da França com seu enleio,
Que ele esteve na montanha
Da China, da Alemanha,
Descrito por esse meio.

Mas, o folheto de feira
Que nós temos por cordel
Nasceu ele no Nordeste
De um grande menestrel:
Leandro Gomes de Barros 
Que compondo, sem esbarros,
Cumpriu bem o seu papel.

Os de sete ou de dez sílabas,
De seis, de sete ou dez versos
Foi Leandro quem compôs
Com seus temas mais diversos...
O primeiro com estorvo
A escrever para o povo
Esses folhetos impressos.

É até admissível
De que ele se inspirou
Na famosa cantoria
Do Romano cantador
Com Inácio da Catingueira
Que de tão forte a poeira
Nesse embate levantou.

Outros poetas merecem
Nessa luta figurar,
Como o vate patoense
Silvino Pirauá,
Cujo embate do repente
Ele pôde ali presente
Nos seus versos registrar.

Até pra não ser injusto,
Silvino Pirauá
Já com seus quarenta anos
Começou a publicar
Os seus folhetos de feira
Hasteando essa bandeira
Da poesia popular.

Porém, Leandro foi o
Mais completo precursor
Desses folhetos de feira
Que levava a seu leitor,
Seus temas são tão humanos
Que após mais de cem anos
Agora é que tem valor.

Dizem que as cantorias
Até então, na verdade,
Elas se davam as vezes
Em outra modalidade,
Sem preconceito nenhum
Era a quadra mais comum
No geral em atividade.

Foi, portanto, essa peleja
Que sobre versos deságua,
De Inácio da Catingueira
Com Romano de Mãe D’água,
A primeira cantoria
Que em sextilha seria
Marcada por muita mágoa. 

Mas, quem foi esse poeta
Criativo e genial?...
Leandro Gomes de Barros
Com a verve sem igual,
Foi ele um paraibano
Talentoso, justo, humano,
Da cidade de Pombal.

Nasceu esse bom poeta
Na Fazenda Melancia,
No distrito de Paulista
Que se emanciparia,
Lá o Fórum é exaltado
Com seu nome destacado
Para a honra da poesia.

Leandro Gomes de Barros
Nasceu no ano de mil,
Oitocentos e sessenta
E cinco, num lar gentil,
Mas, ao crescer, sem escolta,
Deu uma reviravolta
Sua vida juvenil.

Perdeu o pai muito jovem
Vindo a ter o seu tutor
Que era o Padre Vicente
Xavier com seu rigor,
Além de padre era tio,
Mas de trato rude, frio
Que revoltas só causou.

Aos onze saiu de casa
Por conta de desavença,
Aos quinze foi pra Teixeira
Já fugindo da sentença,
Celeiro de bom poeta
Se tornou mais inquieta
Com sua ousada presença.

Depois que Câmara Cascudo
Esteve pessoalmente
Com Leandro, disse ser
Baixo, forte, sorridente,
Com bigode em demasia,
Até mais se parecia
Com fazendeiro, evidente.

Disse ele que seu público
Era diversificado,
Ia desde o analfabeto
Ao mais leigo e o letrado,
O almocreve, o feirante,
O vaqueiro, o estudante,
O pobre lá do roçado.

Mas, para isso, ele que
Estava bem da finança,
Adquiriu a bom termo
A Gráfica Perseverança,
Era pra todos efeitos
Imprimir os seus folhetos
Lhe dando mais segurança.

A mulher e mais dois filhos
Cuidavam da produção,
Enquanto o próprio Leandro
Pelo agreste e sertão,
Com esforço e com alegria,
Expunha sua poesia
Sobre uma lona no chão.

Ele ali cantava o verso
Para os ouvintes comprarem,
Até os analfabetos
Por empolgados ficarem
Os seus folhetos compravam
E para casa levavam
Já pra outros declamarem.

O pai e os filhos “Romano”,
A legião de “Batista”
Foram os inspiradores
Que Leandro teve em vista,
Cercado pela poesia
Inevitável seria
Bom poeta folhetista.

Ele aos dezoito anos
Tinha a poesia na veia,
Era no verbo fluente
Um poeta de mão cheia
E aos vinte e quatro anos
Era lido, sem enganos,
Nas histórias que semeia.

Era da mãe e dos tios
A Fazenda Melancia,
Porém, o padre deserda
Da parte que lhe cabia,
O poeta com a madre
Rompem de vez com o padre
E saem da freguesia.

Tão grande foi a revolta
Do vate nessa refrega,
Que ao ver o tio padre
Passar por cima da regra,
Seu sobrenome mudou,
O de “Barros” adotou
E retirou o de Nóbrega.

Ele daí vai embora 
Se despede de Pombal
De Teixeira dá adeus
Pra sua terra natal,
Sem jamais imaginar,
Vai poder realizar
Seu trabalho genial.

E vai de Teixeira para
Vitória de Santo Antão,
Ali se casa e mais tarde
Muda pra Jaboatão,
E por fim , já de cacife,
Residir vai em Recife
Com folhetos de montão.

Para selar o seu êxito
Possuindo sua gráfica,
Se torna por esse meio
A publicação mais prática.
Escrevia, publicava
E comercializava
Como previa sua tática.

Leandro Gomes de Barros
Os temas vários usou,
Fez folhetos de jornal,
Cavalaria e humor,
Cangaço, religioso,
Romântico, misterioso
E de sátira, com rigor.

Após escrever uns versos
O mundo reconheceu
Que era aquele poeta
Na poesia um Prometeu,
Conhecendo a sua lide
João Martins de Ataíde
Sobre Leandro escreveu:

“Poeta como Leandro,
Inda o Brasil não criou,
Por ser um dos escritores,
Que mais livros registrou,
Canções não se sabe quantas,
Foram seiscentas e tantas
As obras que publicou.”

Carlos Drummond de Andrade
Elogios lhe teceu
Pela sua produção,
Por tudo que escreveu,
Pela sua lealdade
Àquela sociedade
Com a qual ele viveu.

Criticou dada eleição
Lá no Rio de Janeiro
Que escolheria o Príncipe
Dos Poetas Brasileiros,
Tendo o nome de Olavo
Bilac, nesse conchavo
Eleito por “companheiros”.

Para ele o resultado
Cabe à má informação;
Que o título concedido
Deveria, com razão,
Ser do poeta, sem sarros,:
Leandro Gomes de Barros
Que cantou belo o sertão.

Disse que Leandro era
Dos poetas o mais forte,
Mas, que o belo dos versos
Não lhe trouxe a boa sorte,
E expunha o desvario:
Desconhecido no Rio,
Mas amado em todo o Norte.

Sofisticado, de um lado
Tinha um poeta erudito
A levar pra burguesia
Ante um salão tão bonito
Seu soneto “Ouvir Estrelas”
Para flores recebê-las
Sob aplausos no seu rito.

Do outro se apresentava
Um poeta popular
Que para o povo escrevia
Com prazer, sem se cansar,
Um poeta que cantando
Suas dores, vez em quando,
Vinha se sacrificar.

Como nos disse Drummond,
Não foi um príncipe do asf ,
Mas foi o rei da poesia
Dos pés no chão e do mato,
Lhe deu essa gente boa
De carinho uma coroa
Mesmo sem usar sapato.

Muita gente do Nordeste,
Sobretudo dos grotões
Folheava seus folhetos
A buscar informações
E também nesse a, b, c
Aprendiam uns a ler
Tendo estrofes por lições.

Leandro Gomes de Barros
Era um poeta educado,
Escrevia muito bem 
Fazia folheto ousado,
Tinha sempre um revisor
Para os temas de humor
Ou um clássico arrojado.

Pra Jorge Amado o cordel
Diante de tais perigos
É uma arma do povo
Contra os seus inimigos,
Num mundo desprotegido
Ele é ao oprimido
A trincheira, seus abrigos.

“O Punhal e a Palmatória”
Pelo seu bom desempenho
Foi um folheto-denúncia
De maltrato tão ferrenho
Que causou a reação,
Vingança, perseguição
De um senhor de engenho.

Esse senhor de engenho
Surrou o seu morador
Com pesada palmatória
Provocando muita dor
E causando, sem razão,
Uma grande humilhação
E ira contra o senhor.

Por conta disso se armou
Com uma faca peixeira
E um dia o emboscou
Matando a sua maneira,
Deixou-o na terra quente
E tratou de ir urgente
Para outra bagaceira.

Leandro Gomes de Barros
Com seu folheto-jornal
Noticiou o ocorrido
Com comentário final,
De forma que, sem receio,
Desagradou mesmo em cheio
A burguesia rural.

Como a classe dominante
Tem de tudo à sua mão,
Leandro Gomes de Barros
Foi punido com prisão
E devido o trato rude
Debilitou a saúde,
Teve a vida a redução.

É daí que se percebe
O poeta lutador
Que armado com seu verso
Partiu contra o opressor
Já sabendo a consequência
Em forma de violência
Que viria de um senhor.

São constantes nos seus versos
As críticas pelas ações
Dos senhores de engenho,
Governos, religiões,
Do seu ato interesseiro
Onde tem sempre o dinheiro
O controle dos sermões.

Enaltecia a justiça
Já de Antonio Silvino
Cujo verso e bacamarte
Tinham, pois, um só destino,
Nas formas mais diferentes
Defendiam indigentes
Com sentimento mais fino.

Tinha o leitor preferência
Por atos de cangaceiro,
A do rei Antonio Silvino
Assombro do mundo inteiro,
Por ser ele um aguerrido,
Era sempre o mais vendido
Do mais letrado ao vaqueiro.

Também o próprio Leandro
O seu gosto não escondia,
Ao capitão do cangaço
Tinha grande simpatia,
Para exaltar suas glórias
Escreveu várias histórias
Mostrando muita ousadia.

Só de Antonio Silvino
São mais de vinte trabalhos,
São pelejas em dezenas
Com muitas farpas e malhos,
Malhando por muitos postos
Tiram muito os impostos
Dos pobres seus agasalhos.

Foi imensa a produção
Desse vate genial,
Se perdeu até a conta
Do exposto no varal,
Quinhentas, seiscentas obras
Sem que se saiba das sobras
Excluídas do total.

Seu sentimento poético
Instigou a lamentar
O sofrimento que trouxe
A Seca do Ceará,
Onde a mãe sofria vendo
O seu filhinho morrendo
Sem leite pra amamentar.

Escreveu Réis do Governo,
Josué e o Serrador,
A Donzela Teodoro,
A Filha do Pescador,
Padre Cícero, Juazeiro,
E o Poder do Dinheiro
Em fazer seu opressor.

A Batalha de Oliveiros
Com Ferrabrás escreveu
É mais um embate histórico
Que com dois titãs se deu,
Hoje para nós seria
Cordel de cavalaria
Do porte de um Prometeu.

Leandro escreveu demais
Embora morresse moço,
Ele era na poesia
De morder um duro osso,
No seu acervo gigante
Tem muita coisa importante
Descrita sem grande esforço.

Ali se encontra folheto
Muito extenso e pavoroso,
Como O Cachorro dos Mortos
E O Boi Misterioso,
Também fatos incomuns
Hecatombe de Garanhuns,
Mais O Bento Milagroso.

Escreveu Leandro alguns
De humor bem verdadeiro,
Cancão de Fogo e o Cavalo
Que Defecava Dinheiro,
O dinheiro e o Testamento
Do Cachorro, fraudulento,
E A Mulher do Bicheiro.

O folheto do Cavalo,
Bem como, do Testamento,
Serviriam de subsídio
Para o congraçamento
“O Auto da Compadecida”
Obra versátil,tão lida,
Com o seu filme a contento.

Não deixou de criticar
Os políticos infiés,
Pelo voto de cabresto
Que põe o povo a seus pés,
E que eleito após ia
Se fartar na confraria
Da mesa dos coronéis.

Leandro Gomes de Barros
É o que se pode dizer:
Um poeta independente
Sem a ideologia ter,
Que penetrou mais profundo
Nos grandes males do mundo:
Dinheiro, igreja, poder.

Educado por um padre
E tio que foi tutor
Leandro Gomes de Barros
Jamais foi conservador,
Tinha o tio as panaceias, 
Porém, ele das ideias 
E ações se libertou.

Leandro tinha seus livros
Como reacionário,
De teor conservador
Bem ao modo do vigário,
Tinham muitos a tendência,
Porém, por conveniência
Ele entendia o contrário.

Lucas da Feira e Zumbi
Também foram educados
Por padres, mas, com saber
Os dois foram libertados,
Qualquer que seja o poder
Quebra bem fácil o saber
O ferro dos algemados.

Leandro Gomes de Barros
Ainda na mocidade
Chegou a ler Castro Alves,
O Condor da Liberdade,
Por isso, não foram dantes 
As ideias dominantes
A sua mesma verdade.

Dizem também que teria
Lido Machado e Camões,
Versos de Gonçalves Dias,
Padre Vieira, Os Sermões,
Escreveu sobre Canudos,
Por certo nos seus estudos
Deve ter lido Os Sertões.

Tinha o seu tio os melhores
Dos livros recomendados,
E se percebe em Leandro,
Pelos termos empregados
Que , então, ele aprendeu
A descrever como leu,
Mas, em versos maquiados.

A vida desse poeta
Foi por demais turbulenta,
Compunha grandes folhetos
Com belas coisas que inventa,
Depois disso imprimia,
Distribuía e vendia
Na demanda que rebenta.

Mas, é mesmo admirável
A produção desmedida,
Com tantas atividades
No tabuleiro da vida,
Na banca desse poeta
Não se parava, a dieta
Não lhe era permitida.

Além de todo trabalho
Tinha o da composição,
Sentar à mesa, tranquilo,
Concentrar a inspiração,
Abrir a porta da mente
Para o encontro fluente
Do verso e da narração.

Mas, Leandro superava
Qualquer inconveniência
Cada coisa em seu lugar,
Nunca jamais desistência,
E aos pouco produzia
Versos, folhetos em via
De suprimir a pendência.

Os folhetos de Leandro
Devem ser apreciados
São impecáveis na rima
E são bem metrificados,
Se prestarmos atenção
Sua sonorização
Há em muitos ritmados.

Salve, portanto, a Leandro
Gomes de Barros, esse autor
Que num tempo curto pôde
Muitas belezas compor;
Salve por seu ato puro
Ao consagrar o futuro
Com seus versos de valor.
Fim

Medeiros Braga
João Pessoa-PB, 25 de setembro de 2013.

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