A História do Assentamento Zumbi dos Palmares

 

Foto Montagem: www.youtube.com/user/0055614

 

Literatura de Cordel

 

Autor: Francisco Diniz

João Pessoa-PB, 06.11.2011 – 15.11.2011

www.projetocordel.com.br

 

................................................................................

 

Quando Deus criou o mundo

Não disse que aqui na Terra

As matas, os oceanos,

Vales, montes, qualquer serra,

Campos, colinas ou rios

Seriam pra fazer guerra.

 

Não foi pra criar discórdia,

Os planos da criação.

O ser humano devia

Agir após reflexão

E compreender o sentido

Do seu passar neste chão.

 

Que é buscar ser feliz,

Vivendo em comunidade,

Pois ninguém gosta da vida,

Se não em sociedade,

Mas por que tantos conflitos

No campo ou na cidade?

 

Por que o homem consente

Que o outro viva a sofrer?

Por que 2 bilhões de seres

Deixam 5 padecer?

Qual a graça de sorrir,

Se causar entristecer.

                                                        1                         

 

Será a busca do prazer

Que se quer a todo instante?

Será a busca do poder,

– Que torna o ser confiante –

As causas do sofrimento,

Cada dia mais constante?

 

Se alguém padece é preciso

Saber quem é o culpado,

Mais que isso é necessário

Punir quem está errado,

Pois se há impunidade,

Tudo está equivocado.

 

Não adianta ter leis

Se a justiça não atua

Ou ter leis brandas e falhas

Tal doido no meio da rua

Arriscado ao atropelo

Vivo, no mundo da lua,

 

Tal se sente o homem pobre,

Que vive sempre a sofrer,

Vítima da injustiça

E de quem tem o poder,

Mas não o exerce direito

Como teria que ser.

2

 

Pra que Constituição,

Que prega a igualdade,

Se milhões de miseráveis,

Órfãos da prosperidade

Padecem no esquecimento

Sem a menor dignidade?

 

Se falta à gente pobre

A digna condição,

É vital que esta mesma

Planeje alguma ação

Para adquirir o sustento

E a valorização.

 

É preciso, por exemplo,

Melhor se organizar

Em grupo, associações,

É preciso estudar,

E muito especialmente,

Saber em quem vai votar.

 

Ah se a gente soubesse

Escolher bem os gestores,

Desprezasse o corrupto

Na pele de alguns doutores,

Se a gente valorizasse

O papel dos professores.

3

 

Talvez mais não se veria

No campo, a todo o momento,

A luta de quem precisa

Conviver com o desalento,

Pois não era mais preciso

A vida em assentamento.

 

Se houvesse governo justo,

Reforma agrária havia

E o conflito armado

Certamente inexistia,

Que só fere o mais fraco

Devido à tirania...

 

De fazendeiros, com apoio

De diversos governantes

E de parte da justiça,

Que se faz bem atuante

Quando o interesse é do rico,

Atendido num instante.

 

Mas em defesa do homem

Simples e trabalhador

A justiça se faz cega,

É surdo o governador

E vira mudo, ligeiro,

Quem se faz legislador.

4

 

Diante de tanto caos,

Com quem pode, então, contar

O ser que busca no campo

Uma terra pra plantar?

É isto que nestes versos

Aqui viemos mostrar.

 

Este cordel vem tratar

Um pouco do Assentamento,

Que é Zumbi dos Palmares,

E hoje, neste momento

Narramos a sua história,

Conquista e sofrimento.

 

No Estado da Paraíba,

Na cidade de Mari,

Trabalhadores se unem,

Começam a discutir

Sobre a possibilidade

D’outra vida construir.

 

Reunidos duas vezes

No Salão Paroquial,

Cujo nome, Chico Mendes,

O líder do seringal,

Que morreu por defender,

Igualdade social.

5

 

No período de 2 meses

Houve o trabalho de base,

O ano é 2001

E no final deste, ou quase,

Trabalhadores decidem

Partir para outra fase,

 

Do plano da assembléia,

Discutido no Salão

Paroquial de Mari,

Assim começa a ação,

Era 4 de dezembro,

Naquela ocasião.

 

17, as famílias,

Decidiram adentrar

A Fazenda Cafundó

Pra também participar

Da chamada Agricultura,

De fato, Familiar.

 

Fizeram acampamento

Sem medo, com muita fé;

Desarmados, sonhadores,

Homem, menino, mulher,

Protegem-se sob lonas,

Sob barraco qualquer.

6

 

Da terra pra trabalhar,

Todos queriam um pedaço

E assim plantam, cultivam,

Enfrentam todo o mormaço,

Pois o nordestino é forte

E tem os nervos de aço.

 

Plantaram 10 hectares

De feijão, veja você,

Mas em 10 de fevereiro,

Já bem perto de colher

Veio a ação de despejo,

A primeira a acontecer.

 

Naquele 2002,

2 dias após a ação

De despejo aqui citada,

Tamanha judiação,

Por ordem do fazendeiro

Cortaram todo o feijão.

 

Porém após 8 dias

Toda a gente retornou

À fazenda pra lutar,

E o lugar que acampou

Foi no pé de uma mangueira,

O sonho continuou.

7

 

Só que em março desse ano

O povo foi despejado,

E pela segunda vez,

Sentiu-se hostilizado.

A corda sempre arrebenta

É no mais fraco do lado.

 

Sem ter para onde ir,

Ficou toda aquela gente,

O jeito foi se abrigar

Por 1 mês no Tiradentes,

Assentamento vizinho,

E a luta segue em frente.

 

Pois em maio, com mais força,

Todos os trabalhadores

Para a sede da fazenda

Voltaram, e sem temores,

Acamparam e seguiram

Enfrentando dissabores.

 

Chega, então, o mês de outubro

E o Zumbi dos Palmares

Ganha a Primeira Imissão

De Posse, são novos ares,

Mas o fazendeiro é rico,

Forte junto a seus pares.

8

 

E na 2ª Estância

Agrária ele investiu,

Vence a 1ª Imissão

De Posse e conseguiu

Suplantar a luta de um povo

Esquecido do Brasil,

 

Que por não se retirar,

Sofre em 3 de janeiro

Do ano 2003

Agressão de pistoleiro,

Que invade o acampamento,

Era grande o desespero.

 

Eram mais ou menos 20

Jagunços na ocasião,

Que chegaram em 2 carros,

Muitos de tocha nas mãos,

Vieram de todo lado,

Foi grande a devastação.

 

Queimaram 13 barracos,

Roupas, som, carro, TV

E deram uns 15 tiros,

A missão era fazer

O povo se intimidar,

Sair dali e correr.

9

 

Apesar das ameaças,

Na terra o povo ficou

E no ano 2004,

Em novembro conquistou

Sua 2ª Imissão

De Posse, e se alegrou!

 

No ano 2005,

Pra conquista celebrar,

Dia 7 de setembro

Teve festa pra dançar,

Mas antes houve um torneio

De futebol do lugar.

 

  Ainda em 2005

Veio o Primeiro Fomento,

Que é uma ajuda do governo,

Para comprar alimento,

Comprou-se uma vaca de leite

Pra melhorar o sustento...

 

Foram comprados também

Um belo boi de carroça,

Um monte de ferramentas

Para o trabalho na roça,

De uso em todo o serviço,

Até pra construir fossa.

10

 

No ano 2006

Começou a construção

De casas de alvenaria

Para a população,

Aí veio a luz elétrica

Pra alumiar todo o chão!

 

Programa “Luz para Todos”

Trouxe grande alegria,

Houve comemoração

No Zumbi naquele dia,

Vieram até políticos,

Vejam , mas quem diria...

 

Lideranças de Mari,

Luiz Couto, o deputado,

Um dos poucos que merece

Ser eleito no Estado.

A Ministra de Energia

Festejou aqui um bocado.

 

No ano 2008

Veio o Segundo Fomento,

Melhorou um pouco mais

A vida no Assentamento,

Foi feito até cacimbão,

Importante investimento.

11

 

Depois foram construídas

Cisternas e a escola.

Surgiram outros projetos

Assim o Zumbi decola,

Trabalhando com esperança,

Tendo o sonho por bitola.

 

Como o sonho não se mede,

O povo segue escrevendo

A sua própria história,

Prova que vai dependendo

Do seu agir e esforço,

Pois isso estamos vendo...

 

Na ação do Grupo Jovem,

Com a Cooperativa,

Com o Grupo de Mulheres,

Cuja iniciativa

Tem sempre o objetivo:

Melhoria coletiva.

 

Há uma equipe técnica

De assistência ao assentado,

Há o Projeto Mandala,

Que tem muito estimulado

A plantação de hortaliças

E frutas por todo lado.

12

 

A EMBRAPA tem ajudado

No projeto do algodão,

Há criação de galinha,

De carneiro e há ação

Pra construir a capela

Dedicada à oração.

 

Em toda a comunidade

É grande o envolvimento

Para reformar as casas

Do início do Assentamento,

Pois depois de 5 anos

Pedem por melhoramentos.

 

85 famílias

Hoje estão assentadas,

Convivem em 8 grupos,

São pessoas dedicadas,

Que pregam a harmonia,

São de fato irmanadas...

 

Nos projetos mais diversos,

Como o da padaria,

Que ensinou uma profissão

E trazia alegria

Ao dar para o povo o pão

Sagrado de cada dia.

13

 

A prova do crescimento

Do Assentamento está

Na quantidade de gente

Que lá vive a morar

Desde o filho do assentado

Que decidiu se casar.

 

Mas tal como no Quilombo

De Alagoas de outrora,

Este Zumbi dos Palmares

Aceita, e sem demora,

Quem precisa de ajuda,

Como lá existe agora...

 

16 novas famílias,

Que em barracos cobertos

Por lona, vivem abrigadas

E desejando, por certo,

O oásis da esperança

Para enfrentar o deserto...

 

Trata-se do Acampamento,

Que fora então batizado

Assim: Pequena Vanessa,

Este nome fora dado

Em homenagem à menina

Que morreu lá no Estado:

14

 

Rondônia em 95,

Corumbiara, a cidade

8 de agosto, o dia

Da imensa crueldade,

Sofreu um tiro nas costas,

Acordou na eternidade.

 

Vanessa foi outra vítima

De ódio, perseguição,

Na Fazenda Santa Elina,

Naquela ocasião,

Mas deixou pra todos nós

Muito mais que uma lição...

 

Que os seres humanos são

Contraditórios demais:

Uns desejam quase tudo

Sem saber que isso faz

Desencadear a guerra

E depois falam em paz;

 

Que é muito importante

A ação de resistir,

Mesmo que a farta colheita

Aconteça num porvir

Por outros se não tivermos

Mais vivendo por aqui.

15

 

Resistência é a tônica

Do que aqui foi retratado

No Assentamento Zumbi

Dos Palmares, neste Estado,

Em Mari e é preciso

Que isto seja divulgado.

 

Desde a lida das mulheres

Na roça de macaxeira,

Lá na Casa de Farinha

Para fazer de primeira

Os bolos que são vendidos

Na escola ou na feira;

 

Da ação dos professores,

Na sala, no sol a pino,

Tal Francisco Alberione,

Dos alunos: Severino,

Carlos, Fabrícia, Edneide,

Joelma, negro ou albino.

 

O trabalho é de todos

Que estão na Cooperativa

Do presidente Raimundo,

De tantos, que na ativa,

Dão sua contribuição

Pra que esteja sempre viva...

 

A memória deste povo,

Merecedor de respeito,

Como a de Lucinaldo,

Que cheio de orgulho o peito,

Comentou o que escrevi,

Só não sei se fiz direito.

16

Fim

 

Francisco Diniz

João Pessoa-PB, 15.11.2011, 15h e 22 min.

www.projetocordel.com.br

83 8862-8587 (Oi) / 83 9927-1412 (Tim)