O ano de 96 na CNEC, cordel de Magna Consuêlo.
Literatura de Cordel
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Um relato dos acontecimentos envolvendo os funcionários da CNEC
Campanha Nacional de Escolas da Comunidade - de Santa Rita-PB em 1996.

Autora: Magna Consuêlo Vieira de Medeiros
Revisão: Francisco Diniz

Eu sou Magna Consuêlo
Tenho como profissão
Professora de uma escola
De alfabetização,
De 1a a 4a série
De criança à ancião.

É uma instituição,
A escola que estou falando,
Que procura oferecer
A todo o educando
O carinho e atenção
E sério vai ensinando.

Do ano 96
Eu quero aqui relatar
Fatos que aconteceram
Que consegui me lembrar
Com funcionários da escola
CNEC, meu outro lar.

Ela está localizada
Em Tibiri, Santa Rita
Das terras da Paraíba
Lugar de mulher bonita
De homem trabalhador
Como muita gente cita.
-1-

Eu vou começar por mim
O que foi 96
Vou resumir ao máximo
Não quero chocar vocês
Se eu for narrar tudo
Pensarão que é absurdo
Ou história de português.

Vocês vão dizer, meu Deus
Como pode dever tanto
Uma pessoa de uma vez
E em tudo quanto era canto
Do início ao fim do mês
Comprava que era um espanto.

Pra se ter uma idéia
De como me endividei
É só abrir minha bolsa
Que só se acha carnês
E a relação das lojas
Vou dizer já pra vocês:

Comprei na Arapuã,
Lojas Rio e na Maia,
Na Shênia, Sandália de Ouro
E comprei um monte de saia
Na Manchete e Esplanada
Imitando Cláudia Arraia.
-2-

Acho que fui castigada
Pois no ano anterior
Eu jurei que não comprava
Nem fazendo um favor
Pois em mim ninguém mandava
Nem chamando de amor.

Mas como em falso jurei
Dei uma de magnata
Em muita loja comprei
Nunca dizia, basta
E sem dinheiro pra pagar
Haja, juro e duplicata.

O meu círculo de amizade
Cada dia vi crescer
Conheci advogado,
Cobrador e SPC,
Mas, continuo dizendo
Um dia não vou dever.

E ainda nesse ano
Uma tristeza me aconteceu
Ao saber de uma notícia
O meu coração sofreu
E relato pra vocês
Foi nesse 96
Que o meu paizinho morreu.
-3-

Um outro acontecimento
Não consegui entender
Minha brasília sem freio
Num muro ela foi bater
E uma pergunta me veio
O que falta acontecer?

Agora vamos a Neide
Minha vizinha de classe
Pois esse 96
Não faltou quem lhe indicasse
Remédio pra depressão
E doutor que não curasse.

É que ela anda muito
Com os nervos abalados
Precisa se acalmar
Pois eles não são de aço
E de tanto reclamar
O coração pode infartar
E vencer-lhe por cansaço.

Por isso dou-lhe um conselho:
Leve a vida na esportiva;
Aprecie o seu espelho,
Nós queremos você viva;
Não corra feito coelho
Se não explode feito orgiva.
-4-

O remédio que lhe indico
Não é dado por doutor.
Faça esse grande esforço
De dar risada com a dor
Pois só achará a cura
Com a força do humor.

Pra falar de Luciana,
Lembrei como ela chegou:
Era forte e animada
Com disposição e vigor
Ao cruzar a porta da sala
Uma barreira encontrou.

Alunos a bagunçar,
Ela se desconcentrou.
Murchou logo o seu sorriso,
Sua meiguice acabou.
Fazia o que era preciso
Sua paciência esgotou.

Muita coisa ela fez
Na esperança de agradar.
Até o cabelo cortou
E pra acabar de lascar
Puseram um tal de João Paulo
Em sua sala pra estudar.
-5-

E foi este mesmo João
Que Maria José pegou
Com sua disposição
A CNEC abalou
E quase perde a razão,
Ia dar-lhe um beliscão
Só que alguém a acalmou.

Uma professora novata
Há pouco veio operada
Sofreu na mão de João Paulo
No hospital foi internada
E se não tomasse cuidado
Hoje estava enterrada.

Chamar os pais do menino
Foi o que fez a Direção.
Ninguém agüentava mais
E só havia uma solução
Tirar o João da sala
Pra acabar com a aflição.

Nesse ano de tumulto
Vânia menos sofreu
Não quero dizer com isso
Que também não padeceu
Com contas para pagar
Porém, bem menos que eu.
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O sofrimento de Cássia
Pra vocês eu vou contar
Ela não tinha uma casa
Vivia sempre a sonhar
Livrar-se do aluguel
E à prestação, uma comprar.

Com esse objetivo
Uma iniciativa tomou
Ela pediu demissão
Com o dinheiro que juntou
Da sua indenização
Seu sonho realizou.

Cássia logo em seguida
Já estava contratada.
A Direção da CNEC
Ajudou nessa jogada
Para que ela pudesse
Adquirir sua morada.

Um dia em sala de aula
Cássia ficou assustada
Uma aluna bateu a cabeça
Na janela, e desmaiada
No chão ela caiu
Deixando a turma abalada.
-7-

Depressa o pai da menina
Aflito à classe chegou
- Socorram minha filhinha
Em desespero gritou
- E se o mal lhe acontecer,
Processo seja quem for.

E durante esse período
Cássia viu-se maltratada
Enfrentou a humilhação
Não queria ser derrotada
E deu a volta por cima
Para não ser rebaixada.

Um outro acontecimento
Houve depois de uma excursão:
Uma aluna não foi pra casa
Causando uma confusão
E meia-noite o seu pai
Foi procurar a Direção.

Com um bafo de cachaça
E pra lá de embriagado
Foi à casa de Josélia
Fumaçando e desregrado
Mas à igreja, foi sua filha
Participar de uma vigília
E não tinha avisado.
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De Vera Lúcia e Ritinha
Não é possível falar
Elas ficam do outro lado
E não deu pra observar
Se houve alguma tragédia
Ou até mesmo uma comédia
Pouco tenho pra narrar.

Dessas duas professoras
Uma coisa lhe garanto
Eu já vi elas chorarem
Discretamente num canto
Mas não tive a coragem
De me intrometer tanto.

E agora vamos pender
Para a Secretaria
Lá a coisa fedeu
Foi uma doençaria
Vou narrar o possível
Evitem ter agonia.

Vou começar por seu Lúcio,
Este ano ele penou
Era comum encontrá-lo
Sempre com cara de dor
Dizendo que seu estômago
Noite e dia era um horror.
-9-

Você só o encontrava
Com um copo de leite à mão
A cabeça era vermelha
Parecia um pimentão
Ele já vivia louco
Com tanta da queimação.

Tudo que ele queria:
Encontrar uma solução,
No auge do desespero
Tinha dúvida e aflição
E perguntou ao criador
Eu sou um homem ou um dragão?

E nessa onda de azar
Nem a Raquel escapou
Nesse ano azarado
Ela até se operou
Tirou um nódulo do seio
Logo se recuperou.

Todos os secretários
Já fizeram endoscopia
Pois as queixas deles três
Era sempre muita azia
E para se recuperarem
Só quando eles tirarem
Férias da secretaria.
-10-

Olha, a secretária Fátima
Essa sim como penou
Fiquem atento e escutem
Tudo o que ela passou
A sua tarefa árdua
Toda a escola notou.

Passava o tempo inteiro
Cobrando mensalidade
De tudo quanto era gente
Essa era a realidade
Com os carnês na mão dizia:
- Pague aqui, faça a bondade.

Quando chega a tardinha
Só se vê a confusão
Ela fica agoniada
Procurando a explicação
Para a falta de dinheiro
Que passou por sua mão.

Vou lhe dizer uma coisa
A tragédia não parou
Pra acabar de lascar
Sua filha lhe revelou
Que mais cedo que esperava
Ia ser avó e não adiantava
Perguntar o que faltou.
-11-

O choque foi muito grande
Ela até se revoltou
Não quis aceitar os fatos
Muitas lágrimas chorou
Só depois de muito tempo
Foi que ela se conformou.

Na minha literatura
Não pode faltar ninguém
Porém de Maria Celi
Só posso dar parabéns
Por tudo que suportou
E hoje está tudo bem.

Pois o sofrimento dela
Muito me emocionou
Enfrentou os seu problemas
Sua dor já superou
Não caiu em depressão
Ela nunca fraquejou.

E a turma da limpeza?
Essa sim foi quem escapou
Pois eu não tive notícias
De que nada desandou,
Só mesmo o Adriano
Uma pancadinha levou.
-12-

Mas tudo foi resolvido
Não houve fratura não,
O que houve foi apenas
Uma pequena inchação
No pé, após um jogo
De futebol de salão.

E os senhores vigias
Nada grave sucedeu,
Tudo andou bem calmo
Com a plena paz de Deus
Só tinham que apartar
Alguns meninos a brigar
Foi o muito que aconteceu.

Com todas essas desgraças
Tiramos alguma lição.
Agora achamos graça
Mas, digo de coração
Quem mais penou esse ano
Foi mesmo a direção.

E vocês caros leitores
Segurem-se nas cadeiras
Porque o que vou narrar
Não foi mesmo brincadeira
Foi muito do prejuízo,
Dor de cabeça e canseira:
-13-

Não veio no início do ano
O salário educação;
Josélia quase perdeu
O dedo direito da mão
E, ainda achando pouco,
Teve um ataque do coração;

Na coluna apareceu
Uma estranha inchação;
E ela também reclama
De uma grande queimação
Isso deve está ligado
À falta de digestão;

Um dos seus irmãos teve
Um problema no pulmão
E quase que enlouquece
Com sua religião;
E ainda uma aluna
Sumiu numa excursão;

Uma mãe do Marco Moura
Deu-lhe uma esculhambação,
Mandou-lhe parir sua filha
Tendo feito ligação;
Sofreu a morte do líder
Da sua instituição;
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Perdeu o dinheiro que vinha
Do ministro da educação;
Quase perdeu sua vida
Debaixo de um caminhão;
Sofreu ameaça de morte
E não podia falar não;

Fizeram abaixo-assinado
Pedindo sua demisão;
Falsificaram um cheque
Que saiu de sua mão;
Muitas vezes foi chamada
Pra cumprir intimação;

E ainda no comércio
Foi atacada por ladrão;
E tem seu marido Sílvio
Que lhe cobra atenção;
Vem os filhos, Jr. e Bruno
Pra tomarem a lição;

Mesmo ela estando em casa
É com o telefone na mão
Telefona pra CNEC
Pra saber da situação
Todas as cartas que chegam
Tratam só de prestação;
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A conta do telefone
Vem até do exterior,
Até hoje não se sabe
Quem foi que telefonou
A notícia que eu tenho
É que esta conta ela pagou;

Se algum aluno briga
Ou entra em discussão
Seja longe da escola
A 100m do portão
A comunidade acusa
A culpa é da direção.

E agora eu pergunto
Quem quer ir pra direção?
E alguém se habilita
A arrumar confusão?
De minha parte respondo
Essa bomba é um estrondo
Que não quero em minha mão.

Pois é, caros amigos
Todo o mal já se desfez
E espero que na CNEC
Não aconteça outra vez
Um diabo de um ano ruim
Igual a 96.
-16-

FIM

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