LAMENTO DE UM RIACHO SERTANEJO

Literatura de Cordel
Autor: Manoel Messias Belizário Neto  



No riacho habitado
Por pedra, vento e poeira
O menino passeava
Pras bandas da capoeira
Levando três reses magras
No mugido das porteiras.

O riacho que seguia,
Olhava atentamente.
Fôra rei das alegrias
Em um tempo diferente
Antes espelho de água,
Agora estilhaços quentes.

Antes morada de peixes,
Agora ali residia
Castiçais de lagartixas
Serpentes e fantasias,
Folhagens secas nadando,
À areia confundia.

Porque já era tão triste
Quando a água descia.
Parecia enganá-lo
Porque logo se sumia.
Às vezes não demorava
Nem três horas, nem três dias.

Havia uns rios lá fora
Que secos nunca ficavam,
Mas aquele riachinho
Que à paisagem enfeitava
Só às vezes se enchia,
Só às vezes transbordava.

Mas fazia tanta festa
Quando a água em si descia,
Cantarolava nas pedras
Uma música que seguia,
Sapos, rãs e pererecas
No amanhecer do dia.

A água expulsava os males
Que habitavam seu ser,
Lavavam as suas mágoas
Suas pedras, seu poder.
Suas veredas fechadas
Voltavam a aparecer.

Após a primeira cheia
Era branco, transparente
Os peixes apareciam
Sem demora, de repente
Trazendo vida ao curral,
Germinação de sementes.

Tornava-se habitado
Por pescadores felizes
Porque teriam além
Dos preás e codornizes
Mais um novo maná verde
Pra colorir as matizes.

Crianças da vizinhança
Vinham ali se divertir,
Transformavam suas poças
Em jardins de colibri,
Pétalas desabrochavam
Na essência do sorrir.

Pareciam sentinelas
De uma esplêndida mansão.
Vigiavam suas pedras,
Barreiras, espelhos, vãos
Curiosos descobrindo
Reinos da imaginação.

Tudo isso eram lembranças
De muito tempo atrás,
Sem chuva era um deserto
Navio sem porto ou cais,
Vereda desabitada
Que gado não anda mais.
..................................................................................

E-mail: manoelbelizario@yahoo.com.br
Site: cordelparaiba.blogspot.com