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Bandeira da Paraíba
Capoeira, A Luta de um Povo
Autor: Francisco Diniz - www.projetocordel.com.br
Capoeira, A Luta de um Povo
Obs.: Este trabalho foi elaborado com a participação dos meus alunos de capoeira:
          Baluarte, Marcelo Falcão e Diego Grilo. João Pessoa - PB, maio de 2002.          
O que é?
Histórico
Golpes A Música Estilos Mestres O Futuro da Capoeira


A capoeira é arte,
Cultura, filosofia,
Folclore, educação,
Esporte, é harmonia,
Fonte de inspiração
De quem cultiva poesia.

É também uma bela dança,
Balé, luta, ginástica,
História, ideologia,
É movimento, é plástica,
Um jogo malicioso,
Fere como soda cáustica.

Mas, uma linda brincadeira,
Nuance para todo astuto
E serve pra modelar
Tronco, membros e até busto
Promove a saúde, o bem-estar,
E hoje na história é vulto.
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Topo


Vivia o negro na África
Em seu ambiente natural
Nos idos de 1500
Quando foi vítima do mal
Capturado para escravo
Como fosse animal.

Era levado pra longe
Em navio, lá no porão
Acorrentado por semanas
Aos montes, dormindo no chão
Comendo o que não servia
A quem se dizia patrão.

A "carga" ao chegar ao cais
Era por certo dividida
Imagine a tristeza
Daquela gente vendida
Cada pessoa pra uma fazenda
A família esquecida.

Trabalhava o pobre escravo
Agüentando chicotadas
Na cana de açúcar ou lavoura
E a senzala infectada
Era o abrigo pro repouso
Somente até a madrugada.
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Durante o dia, a luta
Muito cansaço causava
E se não agradasse o serviço
Ia ao tronco e apanhava;
O alimento que comia:
Lavagem que o rico dava.

O sistema escravocrata
A raça negra humilhava
Pessoas da mesma língua
Ele ligeiro apartava
Pois sem comunicação
Não haveria rebelião
Era o que se pensava.

Castigado por chicote
Pela mão do opressor
Os negros tinham no peito
A marca de uma triste dor,
De revoltas e a certeza
De que não tinha valor.

Mas, o negro não se cala
E decide então fugir
Pros quilombos afastados
Ser feliz e então sentir
Que é gente de verdade
E que levanta após cair.
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Mesmo subnutrido,
Acuado e doente
O negro não se entregou,
Queria ser independente
E apesar das condições
Mostrou-se forte e valente.

Reagiu de várias formas
Contra a escravidão
Fugia sem ter certeza
Se ia dar certo ou não;
As vezes se suicidava
Ou matava o patrão.

Nas fugas desesperadas
Buscando se proteger
O quilombo era o caminho,
O lugar pra se viver
O sonho da liberdade
E a tristeza esquecer.

Uma importante arma
Para escapar do feitor,
E do capitão do mato,
Da senzala e do senhor,
O negro aqui no Brasil
A capoeira inventou.
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Capoeira é mato ralo,
É vegetação rasteira,
É dança da negritude
Da nação que é brasileira,
É uma luta perigosa
Disfarçada em brincadeira;

Capoeira é uma luta
Inventada por guerreiro,
Que era o negro escravo,
Astuto e mandingueiro
E hoje este jogo é
Patrimônio brasileiro.

Capoeira é recordar
A história dos oprimidos,
Negro trabalhando duro
Onde o castigo vivido
Fez parte da trajetória
De um povo heróico, sofrido.

Capoeira nobre luta
Pelo negro foi criada,
Disfarçada em brincadeira
Por quem tangia a boiada,
O engenho, a pedreira
E dormia em senzala.
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Foi durante a escravidão
Que a nossa arte surgiu
Quando o escravo revoltado
Correu para o mato e sumiu
E edificou os quilombos
Onde a luta explodiu.

Capoeira primitiva
Nas senzalas foi criada
Era diversão do negro
Dança-luta disfarçada
Que pensava em vida nova
E ter a alma libertada.

A origem da capoeira
Hoje é muito discutida
Acreditamos que veio do escravo
Que em terra desconhecida
Transformou dança em luta
Pra mudar a sua vida.

Mas há quem fale que o índio
Quando estava nas feiras
Vendendo dentro de cestas
A galinha de capoeira
Exibia-se e assim
Criou nossa brincadeira.
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Mas nós achamos que ela
Surgiu da necessidade
Que tinha o negro escravo
De escapar da maldade
E conquistar uma vida
De respeito e igualdade.

A nossa disfarçada luta
Foi chamada por tal nome
Quando o negro entra na mata
E na capoeira some
Que é um tipo de mato ralo
Onde o escravo se esconde.

E da mata capoeira
O negro surpreendia
Todo capitão do mato
Durante a noite ou de dia
E atacava o feitor
Ou qualquer um que o seguia.

O perseguidor ao voltar
Trazia a informação:
- Senhor, fomos atacados
Dentro da vegetação,
Uma luta na capoeira
Com pulos e com rasteira
Deixou a gente no chão.
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Desta forma nossa luta
Assim foi denominada
E depois Capoeira Angola
Foi pelo povo chamada
Em homenagem ao país
De onde muito escravo chegava.

Foi também assim nomeada
Pra se diferenciar
Do Estilo Regional
Que passou a se alastrar
Pelas ruas de Salvador
E era diferente o lutar.

A capoeira sofreu
Muita perseguição
E dois anos após o advento
Da chamada abolição
Deodoro decretou
A sua proibição.
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O ser negro ao ganhar
A sonhada liberdade
Não encontrava trabalho
No campo ou na cidade
E para sobreviver
Chegou a se envolver
Com a criminalidade.

E muitos fizeram parte
Das maltas de capoeira
Que roubava e matava
Feito gente traiçoeira
Em Salvador, Rio e Recife,
Isso não foi brincadeira.

Interessante o registro
De como o frevo surgia
Na cidade de Recife
Nos carnavais só se via
Blocos cheios de capoeira
Que num monte ou em fileiras
Para a briga disfarçar
Jogavam pernas pro ar
E a multidão "frevia".
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E a polícia ligeiro
Cumpriu o seu mandado
Caçou todo capoeira
Quem fosse certo ou errado
E a Fernando de Noronha
Tantos foram enviados.

E na clandestinidade
A capoeira ficou
Até o ano 37
Quando seu Bimba mostrou
Ao presidente Getúlio
Que em seguida a liberou.
Topo


Os golpes foram criados
Imitando os animais,
Os instrumentos de trabalho
E algumas danças tribais
Praticadas lá na África
Em tempos de guerra ou paz.

Pensando em sua defesa
O negro foi sempre audaz
Movimentando o corpo
Com cabeçadas mortais
E alimentava o sonho:
Sofrimento nunca mais.
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Utilizando do corpo
Como eficaz armamento
Para enfrentar o inimigo,
Diminuir o lamento,
Preservar a sua vida,
O principal pensamento.

Olhou as possibilidades
Da grande mãe natureza
Para criar muitos golpes
De malícia e destreza
Ao imitar os animais
Nos seus gestos de esperteza.

Das marradas de alguns bichos
Surgiram as cabeçadas;
Dos cavalos vieram os coices;
Dos lagartos, as armadas;
Pulos do gato ou macaco
Foram armas bem usadas.

A capoeira tem mandinga
Tem ginga, aú, rolê,
Causa admiração,
Qualquer um pode aprender
O jogo lento ou rápido
Basta apenas querer.
Topo
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A capoeira é uma luta,
Dança, arte musical
Acompanhada por instrumentos
O maior é o berimbau
Que é feito com um arame,
Uma cabaça e um pau.

A música, desde o início
Apresenta uma função
Disfarçar o que era luta
Contra a escravidão
E os escravos ao dançarem
Pensavam em libertação.

Antes, os atabaques
Eram os únicos a se usar
Depois outros instrumentos
Vieram a se incorporar
À orquestra da capoeira
Num som bem peculiar.

Acompanhando o berimbau
Temos o caxixi,
O agogô, o atabaque,
O reco-reco e por aqui
O pandeiro é tradição
E bonito de se ouvir.
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Na bateria de Angola
Três berimbaus são usados
Gunga ou berra-boi
É assim denominado
Porque a cabaça é maior
E o som grave é tocado.

Existe o berimbau médio
E o violinha também
Cada um com sua função
Onde cada toque tem
O objetivo de levar
O capoeirista ao além.

Seguindo os berimbaus,
1 agogô, 2 pandeiros,
Há também 1 reco-reco
E 1 atabaque ordeiro
Compondo a bateria
Do jogo de Angola, parceiro.

Aí se organiza a roda
Com alegria e alto astral
Canta-se a ladainha
Só ao som de berimbau
Depois vem o canto de entrada
Num belíssimo coral.
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E surge o canto corrido
Contando fatos do povo
Da época da escravidão,
Dos mais velhos e do novo
E pode-se cantar chula
Falando de riso ou de choro.

Dois jogadores atentos
Ao pé do rei berimbau
Esperam autorização
Pra irem ao mundo oval,
Rezam, pedem proteção
Contra todo tipo de mal.

No estilo Regional
Usa-se um berimbau apenas
Que junto com 2 pandeiros
A orquestra se torna plena
Num coro de quadra ou corrido
E completando o sentido
Temos uma dupla em cena.

Os toques de berimbau
Recebem denominação
Conforme relata um mestre
De uma citada região,
Logo, um som determinado
Nem sempre ele é chamado
Por mesma nomeação.
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Não há unanimidade
Mas, em Iúna e em Angola,
Aquele que sabe, ensina -
No terreiro ou na escola -
Tocá-los do mesmo jeito
Com gunga, médio ou viola.

Temos São Bento Pequeno,
Idalina, Cavalaria,
"Apanha-laranja-no-chão-
-tico-tico"
, Santa Maria
São Bento Grande, Amazonas,
Benguela e Ave-Maria.


Barravento, Maculelê,
Samba de roda, ijexá,
Aviso, Muzenza, Gegê

E estou a pesquisar
Como encontrar o tesouro:
Dandara, sete de ouro,
Gegy, Signo-Salomão,
Assalva e estandarte

Pra tocar por toda parte
Berimbau com emoção.
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Topo


É preciso entender,
Respeitar os fundamentos
Que são: saber e tradição
Do povo, o conhecimento
Repassado pelos tempos
Em forma de mandamento.

Capoeira de Angola
É tradicional e rasteira
Tem como rei Pastinha
Que apesar da cegueira
Que quando velho o afligiu,
Foi seu jogo de primeira.

Capoeira Regional
É Angola modificada
Criada por Mestre Bimba
E era pra ser praticada
Como arte marcial
Pra classe elitizada.

Capoeira hoje é destaque
Graças ao escravizado,
À resistência de mestres
Dificilmente lembrados,
Ao sábio pintor Caribé
E ao grande Jorge Amado.
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Essa tal de capoeira
Que falo aqui agora
Luta-se em jogo de dentro
Brinca-se em jogo de fora
É como uma dança rasteira
Seja Regional, ligeira
Ou Angola de outrora.

No jogo da Regional
A ginga é apressada
Joga-se bem mais em pé
Tem aú e cabeçada
É um jogo médio ou ligeiro
Com esquiva e com armada.

Já na Capoeira Angola
O jogo é bem malandro
Onde os golpes são rasteiros
Com o corpo quase parando
E aqui se faz chamadas
Evita-se jogo pulando.

A Angola tem malícia
Tem força e é construção
Do Homem escravizado
Pensando em libertação
Que apesar do sofrimento
Tinha Deus no coração.
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É dança maliciosa
A Capoeira de Angola
Malandragem, esperteza,
O corpo parece mola
O sujeito finge e não vai
E quem vacila se enrola.

O grande mestre Pastinha
Devemos sempre lembrar
Era a própria malandragem
E jogava sem cansar
Aprendeu quando menino
Depois de muito apanhar.

É que um moleque traquino
Todo dia o provocava
E assim ele sofria
Humilhação e chorava
Enquanto de uma janela
Um velhinho atento olhava.

Benedito era seu nome
Um ex-escravo lutador
Que sabia capoeira
E a Pastinha chamou
Pra aprender a se defender
E revidar quem o maltratou.
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Pastinha e outros mestres
Divulgaram a capoeira
O que é jogo bonito
Com aú, benção, rasteira
Mostrando que ela é cultura,
Arte afro-brasileira.
Topo


Mestre Pastinha na Angola
Foi o maior divulgador;
A Regional, foi seu Bimba
O mestre, o inventor;
E hoje a capoeira
Supera toda fronteira
E o mundo todo ganhou.

Mas, pra mim na capoeira
Não importa diferença
Se é Regional ou Angola,
Se tem fé ou não tem crença,
Se usa lenço ou corda,
Se a grana é pouca ou imensa.

E já não importa o estilo
O que se quer é brincar,
Lutar por uma vida melhor
E nunca parar de sonhar
Na construção de um mundo
Onde até o moribundo
Esteja feliz a morar.
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Pois na corda bamba da vida
Quem joga é equilibrista,
É poeta e filósofo,
E também um grande artista,
É chamado capoeira
Ou mesmo capoeirista.

E por esse Brasil afora
Ao longo de toda história
Muitos mestres são destaque,
Fazem parte da memória
Por levarem a capoeira
A conquistar a sua glória:

O Besouro Mangangá,
Noronha, Bimba, Pastinha,
Valdemar da Liberdade,
Caiçara, Canjiquinha,
E o Nascimento Grande?
Igual a ele não tinha.

Na capoeira hoje em dia
João Grande tá no estrangeiro,
João Pequeno e Pirajá
Dão à vida no terreiro,
Morais, Camisa, Burguês,
Divulgam o seu celeiro.
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Curió, Itapoã,
Suassuna, Mestre Nô,
Decânio, Acordeon,
Jorge Satélite, Nestor,
Nenel e tantos outros
Dão à arte o seu valor.

Cerimônia em capoeira
Já virou uma tradição
O aluno no batizado
Recebe lenço ou cordão,
É logo apelidado
E se estiver preparado
Recebe graduação.

Foi seu Bimba quem criou
Formatura e batizado
E são meios de avaliar,
De cobrar o aprendizado
E são hoje em todo o mundo,
Correntemente usados.
Topo


A capoeira cresceu,
Encontra-se em todo o lugar
Virou trabalho e emprego
A quem pode ensinar
Mas há muito o que fazer
Para ela melhorar.
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É preciso acontecer
Melhor organização
Que é bem mais que se agrupar
Numa associação,
É tratar o camarada
Como amigo e como irmão.

Só assim nós poderemos
Com a violência acabar
Que insiste em aparecer
Fazendo o jogo deixar
De exibir a poesia
E de lembrar a filosofia
Que é a luta disfarçar.

Os golpes de capoeira
Só deverão ser usados
Numa grande precisão
Se formos ameaçados
E risco de morte corrermos,
Assim, melhor é vivermos
Com o outro harmonizado.

E buscar o conhecimento
Que é a pura magia
Pra divulgar nossa luta
No campo e periferia
E impregnar as cidades
De amor e alegria.
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Nesta oportunidade
Expresso minha gratidão
Ao mestre Baiano Anzol
Pela iniciação,
Pois através de seu livro
Comecei minha instrução.

E a outro conhecido autor
De "Capoeira sem Mestre"
Lamartine a mim chegou
No interior do Nordeste
Na cidade Santa Helena,
Que é Paraíba e pequena
Do meu querido sertão
E em meados de 80
De uma forma bem lenta
Treinei com amigos e irmão.

E durante esses anos
Com tantos eu aprendi,
Com Raimundo de Marina
E desconhecidos que vi,
Com o Heleno Mulambo
E muitos que convivi.
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Com Quinha, Mar da Bahia;
Com o professor Sem-Terra,
Que é dono de uma capoeira
Majestosa, bela e terna;
Com o mestre Índio, uma figura,
Que carrega a ternura
E que facilmente a externa.

Eu não posso esquecer
De quem mais me auxiliou,
O meu professor Paulista,
Que em João Pessoa morou,
Onde na UFPB,
Ajudou-me a conhecer
O que Zumbi Bahia ensinou.

Aprendi e continuo
Com vários mestres a aprender,
Mas ninguém me ensinará
E me fará compreender
Tal como os meus alunos
Pois são minha razão de ser.

Finalizando agradeço
A Deus e a quem interesse tem
De prestigiar nossa arte
Como acho que convém,
Pois na vida de coleta,
Estudo pra ser poeta
E bom capoeira também.
FIM
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Topo

Francisco Diniz
João Pessoa - PB, maio de 2002

Obs.: Este trabalho foi elaborado com a
participação dos meus alunos de capoeira:
Baluarte, Marcelo Falcão e Diego Grilo.