Literatura de Cordel
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Autor: Francisco Diniz
João Pessoa - PB, 03/11/2002 - 03:00h.

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Qual o sentido da vida?
Viver uma grande paixão,
Conseguir sucesso e dinheiro,
Ter uma boa educação,
Fazer tudo por amor,
Ou saber dizer um não?

Ou será dizer um sim?
Ter uma bela amizade,
Lutar por todos os sonhos,
Falar sempre a verdade,
Procurar paz e saúde,
Encontrar a felicidade?

Quem sabe ter religião,
Ou construir uma família,
Talvez defender valores,
Dignos de grande virgília
Como caráter honradez,
Humildade e partilha?

Em tudo pode se achar
Uma razão para viver
Até mesmo na maldade,
Na ganância do poder,
Maltratando o semelhante
E ao se pensar só em vencer.
01

O homem é incompleto
E tem diversas posições
Tem um instinto que revela
Que muitas das suas ações
São ainda de quem precisa
Superar deformações.

E por isso é necessário
Aprender somente a amar,
Encontrar-se no seu irmão
E o pensamento lapidar,
Guiando o seu fazer
Para o outro melhorar.

Tal como fez Catarina
Junto com Venceslau
Que construiram uma história
De beleza colossal
Mostrando a todo o mundo
O amor de um casal.

Eles acharam o sentido
Pra viverem nesse mundo
Não foi construir fortuna,
Ou desprezar moribundo
Mas, viver um para o outro
Num amor singelo, profundo.
02

Venceslau um rapaz simples,
Meigo, trabalhador
Quando avistou Catarina
Depressa se encantou
E disse para si mesmo:
- Encontrei o meu amor!

Venceslau mandou recado
Para a moça Catarina
Mas ela não deu atenção
Pois já era uma sina
De sempre ser cortejada,
Ser chamada de divina.

Os rapazes que habitavam
Aquela pacata cidade
Sonhavam com a dita moça,
Um colírio de beldade,
Oceano de encantos,
A própria felicidade.

Venceslau era mais um
Feliz admirador
Que por não ter uma resposta
Pouco desanimou
E resolveu mandar-lhe uma carta
Que um menino a entregou.
03

E assim ele escrevia:
"Catarina, ah se eu pudesse
Ser o mais nobre dos poetas,
O canto seria uma prece,
As palavras, acalanto
Para que tu me quisesse.

Chegaria até você
Feito mergulho profundo
Saberia adentrar
No seu precioso mundo
E então contemplaria
A beleza de um mar fundo.

Poderia enxergar
Muito mais que a natureza,
A brisa, o sol nascente,
A Terra com sua riqueza
E o luzir de uma estrela
Mesmo de pouca grandeza.

Se pudesse ter você
Bela e meiga Catarina
Apreciaria melhor
O zunir e a surdina,
O calor que aquece o corpo
E a luz que nos ilumina.
04

Eu viveria só pra você
Sendo terno e exclusivo.
E por que haveria de querer
Diferente atrativo
Se encarnas a discrição,
O ingênuo e o lascivo?

Por certo tu és o bem
Que a mim do mal salvaria
Alegrando os meus caminhos
A qualquer hora do dia
E constantemente lembrada
Na minha prosa e poesia.

Eu queria ser o horizonte
Para de longe avistar
Os desejos que tu tens
E que buscas conquistar
Pois saberia que a mim
Você ia procurar.

Desfrutando o seu amor
Qual temor que eu teria?
No meu coração franzino
Nenhuma ira entraria;
Certamente o ser humano
Mais feliz, logo eu seria.
05

Porque és a jóia rara
Nunca antes cultivada
Que não precisa jamais
Nem sequer ser lapidada
Mas, tal como obra de arte
Para sempre ser amada".


Catarina ao concluir
De ler este belo escrito
Lacrimejou o papel
Pois ninguém lhe havia dito
Algo tão inusitado
Parecendo erudito.

Colada àquela carta
Estava uma fotografia
Do poeta Venceslau
Que discretamente sorria
Como quem estivesse vendo
Como a moça reagia.

Foi bonito o que sentiu
Na primeira impressão
No peito bem apressado
Batia o coração
Dando mostras que surgia
Indícios de uma paixão.
06

Catarina respondeu
Pois logo se encantou.
À noitinha escreveu
Um bilhete e o enviou
Ao poeta Venceslau
Que ao receber se emocionou.

Nele, ela marcava
Um encontro na igreja
E dizia claramente:
"Quero que você esteja
Na sala do sacristão
Pra que pouca gente veja".

Não havia nada a esconder
Mas ela queria discrição;
E na hora combinada
Venceslau viu sua paixão
Perdeu a voz de repente,
Não conteve a emoção.

Houve reciprocidade
Em tamanho sentimento
Pois o olhar de Catarina
Tal como um ornamento,
Era a felicidade,
O puro contentamento.
07

Ela era professora
E escritora também.
Registrava os seus sonhos
E defendia que ninguém
Deixasse as coisas de hoje
Pra fazer bem mais além.

Desejava que as pessoas
Praticassem o amor
E passava o ensinamento
Ao povo trabalhador,
Aos alunos e a quem pudesse
Ouvir todo o seu clamor.

Com esta filosofia
De tão nobre ideal
Catarina enfeitiçou
O poeta Venceslau
Surgindo assim, então
Uma relação sem igual.

Um amor correspondido,
Uma recíproca paixão...
Não demorou para que
Acontecesse a união;
O casamento foi simples
Mas de grande emoção.
08

Eles eram felizes
E ter filhos planejaram
Que depois de alguns anos
Este sonho, conquistaram
Três filhos, os dois amantes
Portanto, eles ganharam.

Os meninos do casal
Fruto de amor verdadeiro
Representavam a alegria,
A colheita, o celeiro,
Uma família bonita
Que é exemplo pro mundo inteiro.

Aquele amado casal
Tinha humilde emprego
Pois quem educa e escreve
No Brasil, não tem sossego
Pouco é valorizado
O salário? Desassossego!

Mas eles nunca deixavam
Que nada viesse a abalar
O relacionamento dos dois
E viviam a se agradar
Ele sempre recitava
Versos pra ela escutar:
09

"Como é bom chegar em casa
E poder te encontrar
Ser recebido com um sorriso
Desse belo e puro olhar
O que me traz paz e alento
E faz meu corpo descansar.

Como é bom, óh Catarina
Ver em você a ternura
Nos gestos, no tom de voz
De quem tem mais que brandura,
Tem carinho, tem o amor,
Que é a razão pra toda cura.

Como é bom o cumprimento
De quem tem por mim paixão
Que eu bem sei que não se trata
De simples exibição
Mas de um sentimento honesto
De pura admiração.

Sou feliz por ter você,
Deus me fez abençoado
E se eu morrer amanhã
Quero deixar registrado:
Pelo amor que tens por mim,
Catarina, obrigado!"

10

Trabalhava Venceslau
Como um público servidor
Cujo vencimento ao mês
Era pouco, um horror.
Nas horas que tinha folga
Era também escritor.

O que ganhava o casal
Não dava pra oferecer
Vida digna à família
Com conforto, com lazer
Apenas o necessário
Pra poder sobreviver.

Porém mesmo enfrentando
Tanta dificuldade
Catarina e Venceslau
Sentiam a felicidade
Viviam em comunhão
Com paixão e fidelidade.

Não se apegavam ao dinheiro
Ou a coisas materiais,
Só a valores humanos,
A pregações divinais,
Ao respeito pelo ser
E a defesa da paz.
11

Eles tinham alguns amigos
De infância e religião
Que ajudavam a superar
O medo, a frustração;
A enfrentar a injustiça,
E a incompreensão.

Pois sabiam da importância
Da verdadeira amizade
Que nada em troca exige
Apenas a boa vontade
De fazer tudo, porque
Tem-se amor e também bondade.

Catarina apreciava
Os instantes de lazer
A boa música, um passeio
Durante o entardecer
E onde estivesse contente
Venceslau estava presente,
Era bonito de ver.

Mas, durante as intempéries
Só, nenhum se sentia.
Mesmo enfrentando doenças
Costumeiramente se via
Tolerância e atenção;
Desprezo, jamais havia.
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Venceslau vivia tomado
Pelo impulso da paixão;
Estava sempre sorridente
Desconhecia a depressão,
E se o amor é correspondido
O que mais querer então?

Ele também queria ser
Por certo reconhecido
Como um nobre escritor
E o ter o seu verso lido
Em tudo quanto é lugar
E nunca se dar por vencido.

Nessa tarefa difícil
Catarina era aliada
Estimulava nas vezes
Quando estava abalada
A coragem do amante
Ou se ele estivesse diante
De uma luta fracassada.

Desta forma o companheiro
Ia forças conquistando
Para enfrentar o descaso
Que sempre vai vitimando
Quem produz nossa cultura
E passa o tempo sonhando.
13

Mas sonhar é necessário
É o caminho à conquista
E para que nunca percamos
As nossas metas de vista
Há que se idealizar
E sempre ser otimista.

Depois é preciso agir
Com ética, honestidade
E tendo perseverança,
Clareza, dignidade
Tudo o que se planejar
Virar a ser realidade.

Catarina e Venceslau
Tinham isso em comum
Lutar, nunca desistir
Sob pretexto algum
E assim todo o empecilho
Parecia ser nenhum.

O amor pra Venceslau
Era fonte de alegria,
Era desejo, carinho,
Expressão de harmonia,
De uma comunicação
Prazerosa em cada dia.
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Pra Catarina não era
Quase nada diferente;
Tinha a meiguice no rosto,
A atenção sempre em mente,
Sendo assim, a solidão
Estava sempre ausente.

Era um exemplo bonito
A união desse casal;
As dificuldades da vida
Eram um assunto banal
E todas adversidades
Ao amor não faziam mal.

Não se sabe explicar
Direito qual o porquê
De tanta cumplicidade
Na maneira de viver,
Venceslau e Catarina
Traziam sempre em surdina
A fórmula do bem querer.

Mas pensando bem, imagino
Qual a única razão
Que alegrava suas vidas
Em rotineira paixão
Onde sempre existia
Recíproca admiração.
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Era a plenitude do amor
Exuberante em essência,
Desprovido de interesse
Cuja sua existência,
Pautado em compreensão,
Alimenta a convivência.

O amor é um sentimento
Límpido, incondicional,
Eternamente fiel,
Altruísta, divinal,
Que nada exige em troca,
É humilde e especial.

E o amor tal como descrito
Poucas pessoas têm.
Uns vão vivendo com ele
Como acham que convém;
Muitos pensam possuí-lo,
Outros tantos andam sem.

Venceslau e Catarina
Nada podem reclamar,
Sabem de cor seu caminho,
Ou onde ele iria passar
Pois não era mais mistério
Feito pra se desvendar.
FIM
16

Catarina e Venceslau
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Autor: Francisco Diniz
João Pessoa - PB, 03/11/2002 - 03:00h.

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