CAVALO NÃO TEM CHIFRE PORQUE CASOU COM UMA ÉGUA - Cordel de Narli Dias de Oliveira
Literatura de Cordel
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CAVALO NÃO TEM CHIFRE
PORQUE CASOU COM UMA ÉGUA

Arte da capa: Marco Aurélio
Literatura de Cordel

Autora:
Narli Dias de Oliveira
João Pessoa-PB, 31-12-1985


Eu vou contar uma história
Do jeito que aconteceu,
Senhor Honório de Lima
Me disse que conheceu
Os personagens da mesma,
Pois eram vizinhos seus.

No estado de Pernambuco,
Numa pacata cidade,
Morava um belo casal,
Ambos na flor da idade
Viviam bem até o dia
Que surgiu toda verdade.

Já fazia 8 meses
Que ambos tavam casados,
Estevão foi visitar
Uns parentes afastados,
Que moravam em um sítio
E eram bem abastados.

Para chegar neste sítio
Num motel ele passava,
Qual foi a sua surpresa
Quando se aproximava,
O carro da sua esposa
Parado ali estava.
1

Estevão ficou pensando
E um pouco perturbado,
O carro da sua esposa
Ali de frente, parado,
Mas quem será que pegou
O carro dela emprestado?

Jamais esse pobre homem,
Nem de longe imaginava
Que sua esposa querida
Nesse motel se encontrava
Era infiel, traidora,
Muito sonsa e não prestava.

Um dia Estevão da Silva
Quando ia trabalhar
Encontrou um seu colega
Começaram a conversar
O colega disse Estevão
Eu quero te avisar.

A vizinhança já sabe
Pode a todos perguntar
Que depois que você vai
Todo dia trabalhar,
Gracinha sua mulher
Vai pra rua namorar.
2

Não queria lhe dizer
Pra não lhe contrariar,
Mas aí achei que estava
Também a lhe enganar
Se quer saber a verdade
Pode pra casa voltar.

Estevão sentiu-se mal
E ficou muito abalado,
Esta notícia o deixou
Triste e desanimado,
Amava a sua esposa
E pensava que era amado.

De repente enfureceu-se
E para casa voltou,
Vou dar-lhe uma boa surra,
Mas quando em casa chegou
Não encontrando sua esposa,
Mais furioso ficou.

Começou a quebrar tudo
Estava obstinado,
Praguejava cada nome,
Batia pra todo lado,
Estava tão furioso,
Que deixou tudo quebrado.
3

Ele tinha um papagaio
Que a tudo observava,
Disse ele: desgraçado,
Sabia e não me contava
Que aquela vil e infame
Com outros me enganava.

Pegou o louro com raiva,
Com furor e desacato,
Com toda força que tinha
Jogou-o em cima do gato!
Eu não sei aonde estou
Que agora não te mato.

Com a pancada do louro
O gato ficou zangado.
Deu umas duas assopradas
E ficou todo arqueado.
Disse o louro: Não ri não
Que hoje o corno tá danado.

Estevão já bem mais calmo
A mulher foi esperar
As duas horas da tarde,
Quando ela veio chegar.
Aonde você estava?
Foi ele a lhe perguntar.
4

Fui visitar uma tia
Que estava passando mal,
Saí sem lhe avisar,
Acho muito natural,
Se tratando de doença
É um caso especial.

Estevão ficou em dúvida,
Não sabia o que pensar,
Não falou nada à mulher,
Queria observar
Suas saídas diárias,
Pois queria lhe flagrar.

Gracinha lhe perguntou:
O que foi que houve aqui?
Parece que um furacão
Passou aqui depois que eu saí?
Cheguei em casa e chamei
Você saiu e não vi!

Não encontrando você
Tive uma raiva danada,
Comecei a quebrar tudo
Não restando quase nada,
Mas vamos fazer de conta
Que aqui não houve nada.
5

Passaram mais de 3 meses,
Estevão já esquecido,
Saiu para trabalhar
E ia bem entretido,
O colega o acompanhou
Fez cara de ofendido.

O rapaz disse: Estevão
O que foi que aconteceu?
Nunca mais tinha lhe visto,
Parece que se escondeu
O que eu contei de Gracinha
Parece que lhe ofendeu.

Você está conformado
Com esta situação?
Ela ainda está saindo
Um dia e outro não
Por que não fala com ela
E pede uma explicação?

Ela anda freqüentando
Aquele primeiro andar,
É uma casa suspeita
Pra uma senhora entrar,
Querendo tirar a dúvida
É só ir lá tocaiar.
6

Estevão faria serão,
Mas para casa voltou,
Chegando em frente ao prédio
Viu quando a mulher entrou
Acompanhada do amante,
Pasmado ele ficou.

Ficou por mais de uma hora
Sem do canto se mexer,
Estava petrificado
Com o que acabara de ver,
Isto é um pesadelo,
Não pode acontecer.

Estevão então reagiu,
Embora estivesse zangado,
Passa um policial,
Ele disse: seu soldado
Quero que vá lá em cima
Pra me fazer um mandado.

Seu praça, minha mulher,
Entrou aí a safada,
Quero que o senhor traga
Pelo cabelo arrastada
Porque vou dar-lhe uma surra,
Peço não lhe dizer nada.
7

Como é a sua esposa?
Pra não fazer coisa errada.
Ela é bem alva e bonita,
Tem a face bem corada,
Está de blusa amarela
E uma saia listrada.

O praça entrou na casa,
Foi a mulher procurando,
Quando Estevão olhou pra cima
O Praça vinha voltando
Com uma mulher morena
Brigando e esbofeteando.

Estevão apavorou-se
E disse: Camaradinha
Essa não é minha mulher,
Minha mulher é Gracinha
O praça disse: não é
A sua, mas é a minha.

O praça levou a mulher
Para casa rebocando,
Estevão ficou ali
Pela sua esperando,
Mas desistiu e foi pra casa,
Pois estava demorando.
8

Gracinha quando chegou
Ele já estava dormindo,
Passaram-se uns dez anos,
Ela continuou saindo,
Estevão se conformou,
Não vivia discutindo.

Mas a dúvida existia
E Estevão desconfiado,
Pediu ajuda ao amigo
Disse ele transtornado:
Desconfio de Gracinha,
Sinto-me um desgraçado.

Não sei como vou fazer
Pra descobrir a verdade,
Esta dúvida me matando,
Eu quero a realidade,
Parece que estou vivendo
Numa grande tempestade.

O amigo disse: meu caro
Vou lhe dar um parecer,
Bata na porta da frente,
Pros fundos pode correr,
Se tiver alguém com ela
Você vai surpreender.
9

Estevão disse: rapaz,
Desse jeito fez Menezes,
Acho que não vai dar certo,
Aí vai dias e meses,
O amigo disse: Garanto
Pois já peguei 8 vezes.

O coitado do Estevão
Fez como o amigo ensinou,
Bateu na porta da frente
E na de trás esperou
Se escondeu pra não ser visto
E o rival observou.

Tomou uma iniciativa
E resolveu se mudar,
Fez uma casa no sítio
E nela foram morar
Aqui vou viver tranqüilo
Ela não vai namorar.

Mas aí ela já tinha
Com o amante combinado,
Um código entre eles dois,
Tudo ficou acertado
O marido estando em casa
Tinha um pano colocado.
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Era o sinal entre eles,
Ambos guardavam segredo.
Certo dia, no entanto,
Estevão chegou mais cedo,
Ela esqueceu-se do pano
E complicou o enredo.

Como é que eu saio dessa?
Aí o cara chegou,
Ficou ali dando volta,
A casa arrodeou,
Gracinha inteligente
Dessa forma se safou.

Nessas alturas, Estevão
De medo estava tremendo,
Gracinha disse: isso é alma
De alguém se arrependendo
E ela pra ir embora
Só vai alguém requerendo.

Já que você não requer,
Vou fazê-lo sem demora:
Oh alma que estais penando
Aí do lado de fora
Meu marido está em casa,
Me lembrei do plano agora.
11

O cabra assim que ouviu
Da amante o aviso:
- Valham-me santas canelas
E a terra onde eu piso
Já vou é dando nos calos,
Pra isso eu tenho juízo.

Estevão já estava cheio,
Não dava pra suportar
As tantas humilhações
Que teve de agüentar,
Gracinha adoeceu
E nada de melhorar.

Um certo dia a mulher
Da doença piorou,
Chamou assim seu marido
E por sua vez confessou
Quanto lhe fora infiel
E como lhe enganou.

Disse então ela: meu velho,
Pelo Deus onipotente,
Eu botei-lhe tanto chifre
Deixei-lhe a cabeça quente,
Você sem saber de nada,
Coitado, tão inocente.

- Você está enganada,
Falou com a fala tropa,
- Você pensa que sou linho,
Porém eu sou é estopa,
Adivinha quem botou
Veneno em sua sopa?
12
FIM


Narli Dias de Oliveira

João Pessoa-PB, 31-12-1985

Editoração Eletrônica: Francisco Diniz

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