Literatura de Cordel
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Céu e Fel na Praia de Tambaú
Autor: Francisco Diniz
João Pessoa - PB, 19/03/2002 - 23h e 30min.

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Na praia de Tambaú
É bonito o ,
A brisa suave do mar
Explica-nos o porquê
Do interesse dos poetas
Dela cantar ou escrever.

Na beira mar sempre passa
Uma menina bonita,
Um casal apaixonado,
Um saudoso repentista
A oferecer os seus versos
Ao meu povo e ao turista.

No Bahamas escutamos
Música de qualidade
Tocada ao vivo pra quem
Conhece ou não a cidade
Que ao ouvir a voz que encanta
Sente a felicidade.
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E desfruta do bom som
Pessoa de qualquer raça
Quem entra para beber
Ou quem por fora ali passa,
Quem senta-se num barzinho
Que fica ao lado da praça.

Certamente pra quem pode
Tem prato internacional
O cardápio é dos melhores
Na cozinha regional
O garção é bem vestido
Que para atender a um pedido
Espera só um sinal.

Na praia de Tambaú
Há belezas sem iguais:
Os carros na avenida;
Nas calçadas, os pardais;
E imponentes estão
As belezas naturais;
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Um conhecido busto
Do Almirante Tamandaré;
Mercado de artesanato;
Igreja pra quem tem fé;
Barracas onde se acha
Até mesmo acarajé.

Quem quiser tomar um banho
Nas águas do belo mar
Desfruta de uma delícia
Que é difícil narrar
E nas areias se vê
Mulheres a desfilar.

Com seus bronzeados corpos
De cinturas torneadas
Que ao passarem por nós
Dizemos abençoadas
E quando andam um pouquinho
Viramos devagarzinho
Para trás pra dá uma olhada.
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Há também muitas pessoas
No calçadão passeando,
Realizando caminhada,
Atletas se exercitando
Ou uma turma de amigos
Num jogo de bola brincando.

Os hippies sempre à tardinha
Lentamente vão chegando
Pra vender seu artesanato
E continuar pregando
Um mundo de paz e amor
Para superar a dor
Que está nos afetando.

Em Tambaú há uma feirinha
De produtos populares;
Na frente um hotel famoso
Pra receber titulares
Da nobreza e do poder;
E facilmente se vê
Ricos e bonitos lares.

É, mas, não é necessário ser
Grande observador
Para poder perceber
Que nem tudo é só amor
E em meio ao paraíso
Mazelas e muita dor.
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Crianças perambulando
Bem distantes da escola
Vítimas do abandono
Quase que não jogam bola
Pois passam o tempo todo
Com um frasco cheirando cola.

Caminhando nas calçadas,
Vagando no meio da rua
E sem mesmo disfarçar
Seja sol, noite de lua
Enfrentam grande dilema:
A verdade nua e crua.

Da falta de esperança
De uma oportunidade
Pra transformar tal destino
Recuperar a identidade
Para enxergar o mundo
Com os olhos da ingenuidade
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Que foi um dia roubada,
Tomada por um assalto
Pelo sistema nojento
Que anda de salto alto
Esnobando elegância
Como ferrari no asfalto.

Sistema que não escolhe
Lugar para escravizar
Se em Tambaú ou favela
Atua em qualquer lugar
Mas, só castiga os pobres
Fazendo o grande ganhar.

Em Tambaú há também
Pela orla, gente culta
Mas, o que entristece muito
É que pouca gente luta
Pra evitar que inocentes
Sejam como prostitutas.

Eu bem sei que em Tambaú
Ou no meu sofrido Sertão
Deus não deu consentimento
Pra tanta judiação:
O pobre escravo do rico,
Que a cada dia é barão.
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E não vê o sofrimento
Daquele que quer comer,
Quer trabalho, quer justiça,
Quer o final do padecer,
Que sonha com a alegria
E com um melhor viver.

Aqueles que sofrem muito
Estão bem perto de nós
Na praia de Tambaú
Entre crianças e avós
No meio da multidão
Porém, sabem que estão sós.

São os mendigos andantes,
Criança e velho a pedir
Ajuda pelo amor de Deus
É o lamento a se ouvir
E quem tem poder nada faz
Quando não olha, sorrir.
07

O que mais me preocupa
E o que torna-se imoral
É que o desprezo do pobre
Virou notícia banal
Enquanto quem tem poder
Está em Tambaú a beber
Achando tudo normal.

Como é possível Tambaú
Tamanha contradição
Onde abaixo do teu céu
Fartura e falta de pão,
Tantos jogados ao léu
Vivendo sem ter razão.

Como pode Tambaú
Tantos jovens consumindo
Drogas intensamente
Como que se divertindo,
Alimentando a morte
E a vida destruindo.

E tu imperativa
Fazendo rir e chorar,
Acolhendo quem quiser
A tua brisa respirar
Encantando quem admira
Viver e se emocionar.
FIM
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Francisco Diniz
João Pessoa - PB, 19/03/2002 - 23h e 30min.
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