Processo por danos morais, cordel de Francisco Diniz.
Literatura de Cordel
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Processo por danos morais
Literatura de Cordel
Autor: Francisco Diniz
Santa Rita-PB / João Pessoa-PB, 11 de outubro de 2005, 14:00h

Entre planos, desafios,
Lutas e incertezas,
Vamos levando a vida
Com alegria e tristeza,
Contudo sempre sonhando,
Com ou sem fé pensando
Ter saber e ter riqueza.

Eu vivo da educação
E da cultura também,
Professando os cuidados
Com o corpo, mente e sem
Esquecer da natureza
E propagando a certeza:
O mal é maior que o bem.

Não devia ser assim,
Mas aqui o mal é mais,
Basta olhar a pobreza,
Como a injustiça é demais,
O homem refém da ganância,
Da maldade, ignorância,
Caminhando sem ter paz.
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Mas vou tentando ajudar
Um outro mundo construir,
Debatendo na escola
As razões do existir
E com a música e a poesia
Afirmando todo dia:
Tem gente a nos extorquir.

Por isso observamos
Tamanha contradição,
Uns poucos com a riqueza,
Enquanto a população
Pobre é a maioria,
Vítima da tirania
Do explorador e ladrão.

Toda a minha atividade
Cultural ou escolar
Tem o objetivo de
Discutir, conscientizar
E convidar o nosso povo
Para evitar o estorvo
E não se deixar enganar.
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Em tudo que desenvolvo
Prezo pela coerência
Entre teoria e prática,
Virtude e persistência,
Fazendo o que sempre digo,
Querendo sempre um amigo,
Não vivendo de aparências.

Sem jamais ser demagógico,
Pratico a honestidade,
Quem me conhece, bem sabe
Que isso é a pura verdade,
Corrupção, não tolero,
O tesouro que venero
É a minha dignidade.

E esta não negocio,
Ela é meu grande bem,
É como ser de Maroca,
Não há venda, troca e nem
Empresta-se a um amigo,
Por ela eu sempre digo
Que enfrento até o trem.
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Feita esta introdução,
Licença, senhor juiz,
Quero me apresentar,
Eu sou Francisco Diniz,
Professor e cordelista,
Sonhador, idealista
De um mundo mais feliz.

Por lutar pela justiça,
É que eu estou aqui.
Eu entrei com um processo,
Pois num momento me vi
Afetado em meus valores,
Não vou demonstrar temores,
Nem tampouco agredir.

Só peço indenização
Por danos morais, senhor,
Meritíssimo o que houve,
Agora quero depor,
Vou tentar abreviar
Para ninguém se cansar,
Sua atenção, por favor:
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A escola onde trabalho
É da rede municipal
Da cidade Santa Rita,
Tem ensino fundamental,
São Marcus é o seu nome,
Ainda não é de renome,
Mas lutamos para tal.

E lá eu fui escolhido
Para ser o presidente
Do Conselho Escolar.
Busquei ser eficiente
E quem quiser comprovar,
É só ir lá observar
O que afirmo no presente.

Os recursos recebidos
Sempre foram utilizados
Em prol da instituição,
Nada superfaturado,
Mostramos notas fiscais,
Os produtos e jamais
Algo fora desviado.
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Compramos vídeo cassete,
Cadeira, computador,
Impressora e No Break,
Scanner, televisor,
Mesa, jogos didáticos,
De arte e matemáticos,
Tela e um retroprojetor.

Duas máquinas fotográficas,
Pois uma fora roubada,
Temos 3 ventiladores,
Uma caixa amplificada,
Microfone, pedestal,
Microsistem e varal
Pra deixar a escola enfeitada.

Caderno, livro, papel,
Suporte pra partitura,
Material de limpeza,
De rotina e fechaduras,
Um liquidificador,
Que um dia o dono levou,
E nos causou desventura.
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Pintamos 12 armários,
E neles nós colocamos
Cadeados e correntes
E ainda consertamos
2 grandes ventiladores,
Uma cirene e os gestores
Confirmam o que listamos.

Eu lhe digo senhor juiz
O que foi que deu errado:
Contratamos uma empresa,
Como estava programado,
Pra dar cursos, reciclar,
Quem estava a trabalhar
Durante o ano passado.

Eu e Valdir, tesoureiro,
Passamos cheque a empresa,
Quando alguém foi sacar,
Qual foi a minha surpresa?
Voltou o cheque sem fundo,
Constrangimento profundo,
Pra mim, uma grande tristeza.
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Eu disse não é possível,
Só pode ser brincadeira,
Por favor, quero um extrato,
A bancária, bem ligeira,
Mostrou-me e lá eu vi,
Confesso logo entendi,
Compreendi de primeira.

Fui pra escola atordoado
Conversar com seu Valdir,
Que disse: - "Não assinei cheque,
Os talões estão aqui".
Quando nós verificamos,
De imediato notamos
Uma folha faltava ali.

O seu número era igual
Ao que tinha no extrato.
Seu Valdir disse: - "Eu acho
Que entrou uma mão de gato,
Deve ser um salafrário,
Os talões tavam no armário
Onde ficavam de fato".
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O armário é da diretora,
Logo a gente imaginou:
Alguém pegou aquele cheque
E então falsificou
As nossas assinaturas
E pra completar a usura
Foi ao banco e sacou.

O Banco do Brasil teve
Descuido na ocasião,
Efetuou pagamento
Sem observar o cartão
De autógrafo que havia
E por isso causaria
Uma enorme confusão.

O que a escola programou
Com a empresa de Assessoria
Pedagógica, foi suspenso,
Pois dinheiro não havia,
O jeito era esperar
A polícia investigar
Era o que eu então dizia.
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Antes de eu ir à polícia,
Valdir, surpreso, falou
Que a diretora da escola
Para ele declarou
Que tinha o cheque usado
E então falsificado
O que a gente não assinou.

O cheque ora usado
Foi para efetuar
Pagamento de uma dívida
De material escolar
Que a diretora teria
Com o dono de uma livraria,
Quis ela assim explicar.

Eu tomei as providências,
Convoquei reunião
Com o Conselho Escolar,
Fizemos ata da ação
E à Secretaria informei
Com o ofício que enviei,
Que agiu rápido então.
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Dando exoneração
À diretora envolvida
Bem como sua transferência,
Mas ficou comprometida
A reciclagem escolar
Que só podia voltar
Com a verba restituída.

Fui ao banco várias vezes
Com o objetivo de ter
O cheque, a microfilmagem,
Dias depois fui receber
O documento citado,
Andei feito abestalhado
Só vivendo para crer.

Eu fui à delegacia
Prestar queixa da questão,
O delegado me mandou
Falar com o gerente e então
Ao banco eu retornei
E o B. O. eu não levei
Naquela ocasião.
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O gerente perguntou
Se eu trouxera o boletim
De ocorrência, eu disse não,
O delegado falou a mim
Que o banco resolvia
E um besta eu me sentia
Pra lá e pra cá, bem assim.

Consultei um advogado
E este mandou levar
A ata da reunião
E ao delegado mostrar,
Foi registrada a ocorrência,
Dirigi-me a agência
Do banco para cobrar

Logo o ressarcimento
Do dinheiro que sumiu
O valor então debitado
Em real, fora dois mil
E oitocentos e cinqüenta e seis,
Dias depois o banco fez
O que a gente pediu.
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E com o dinheiro em caixa
Pudemos realizar
O curso de reciclagem
E à Assessoria pagar,
Depois disso ainda iria
Para a delegacia
Depoimento prestar.

Eu fui com o Jorge Camilo
Um amigo advogado.
Chamei 9 testemunhas,
Só duas foram ao meu lado
E lá a diretora falou,
Não negou, só confessou
O que fez, ao delegado.

E este me perguntou
O que eu queria fazer,
Se dá o caso por encerrado
Ou se deixaria correr
Na justiça, o processo,
Eu falei, licença eu peço
Para poder discorrer:
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- "Doutor, não tenho nada contra
A diretora aqui,
Mas pelo que ela fez,
O senhor há de convir
Que se ela não for julgada,
Justiça vira piada
E disso eu não quero rir.

Faça o processo andar,
Que ela vai se defender,
A justiça que a julgue,
Fiz o que devia fazer,
Agora, por outro lado,
Peço ao meu advogado
Faça o favor requerer

Uma indenização
Por tudo que eu passei,
Não foi brincadeira não
As agruras que enfrentei,
Várias noites sem dormir
Suspeição aqui e ali
Dos amigos, eu notei.
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Deve o Banco do Brasil
Ser responsabilizado,
E essa minha ação
Garanto, é o resultado
De uma aprendizagem
De um povo que tem coragem
E não fica mais calado".

Povo que tem reclamado,
Embora não seja tanto,
Refiro-me ao senso comum,
Que tem suportado o pranto
Da social exclusão
Fruto de uma ação
De quem se passa por santo.

Mas acredito que nós,
Aos poucos, obteremos
Consciência dos direitos
Do que somos e podemos,
E pra essa atividade,
A escola de qualidade
É o que nós mais queremos.
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E aqui, senhor juiz,
Eu quero finalizar,
Não sei o que Jorge pediu,
Nem sei se algo vou ganhar,
O senhor quem vai dizer,
Se acaso eu merecer,
O senhor quem vai julgar.

         F iz por certo o meu papel,
         R azão, eu acho que tenho.
   A gradeço a quem teve
    N esse caso o empenho.
C onfiando no direito
    I dôneo, real, perfeito,
  S olicitando eu venho,
  C om respeitabilidade,
   O meu testemunho dá.

D esejo que a justiça
    I ntegral, possa atuar,
  N o momento instituir
     I ndenização que pedi,
       Z elando por bem-estar.
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FIM

RESULTADO
Depois de muito tempo de espera a justiça nos deu ganho de causa. Com o dinheiro recebido mandamos pintar o velho Del Rey 1988 do meu pai.

Francisco Diniz
Santa Rita-PB / João Pessoa-PB, 11 de outubro de 2005, 14:00h.
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