Literatura de Cordel
Autor: Francisco Diniz
João Pessoa-PB, Junho/2005 / 12/07/2005 / 25 de setembro de 2005.
Participação do aluno Jailson Henrique, do Projeto Cordel, nas estrofes: 2, 6, 7, 8, 10, 12, 14, 15.

Você não cuspa pra cima
Para não cair na cara
,
Certo, só o tempo não pára,
O menestrel perde a rima,
O valente desanima,
É bom se ter humildade,
Lutar contra a hostilidade,
Não se fazer orgulhoso,
Amostrado, vaidoso,
É bom ter simplicidade.

Não importa a grandiosidade,
Quanto mais alto, maior
É a queda
que dá dó.
Golias sem piedade
Quis mostrar autoridade
E a Davi ele insulta,
Este pequeno se assusta,
Mas com a funda o apedreja,
Feliz o povo festeja
Por vencer mente corrupta.
-1-

É sempre louvável a luta
Desde que o fim seja o bem
De bilhões, mil um ou cem,
Só vencemos com labuta
Nem que haja a conduta
Que afirma: quem não tem cão
Caça com gato
e então
O importante é agir,
Mas sem corromper ou mentir,
Roubar ou perder a razão.

Viva a contemplação,
Nosso Deus escreve certo
Por linhas tortas
e é incerto
Que entendamos sua ação,
Nossa imaginação
É limitada demais,
Pois ela não é capaz
De entender o que Deus quer,
Se um dia a gente souber
Toda aflição se desfaz.
-2-

Nada como um dia atrás
Do outro e a noite no meio

Pra que passe o aperreio
E a gente consiga a paz,
Só o tempo satisfaz,
Cura angústia, faz crescer,
Ensina que todo ser
Pode enfrentar aflição,
Contudo após o tufão
Nova vida vai se ter.

Nós devemos sempre ter
Muita fé e paciência,
Agir sempre com decência,
Fazer o que der pra fazer,
Deixar o tempo resolver,
Pois depois de se plantar
Há o tempo de esperar
E eu digo isso pra tu
Quem tem pressa come cru
E pode bem mal passar.
-3-

Não podemos nos calar
Diante das injustiças,
Não devemos ter preguiça,
Mas coragem de falar
Para poder alcançar:
Justiça, respeito, paz,
O saber e tanto mais,
Isso nos disse Paloma,
Quem tem boca vai a Roma,
Não desistamos jamais.

É importante demais
Perseverar em um sonho,
Mesmo que ele seja medonho,
Todo homem é capaz,
E a mulher não fica atrás
Ao lutar desde o início,
Sua calma é o artifício,
É como o saber de um monge,
Devagar se vai ao longe
Pra alcançar o benefício.
-4-

A vida é sempre difícil
Pra quem tem pouco dinheiro,
E de janeiro a janeiro
Vemos muito sacrifício
No pobre que tem ofício,
Ganha pouco e não desiste,
E como o dito ele insiste:
Água mole em pedra dura,
Tanto bate até que fura,

É a lição de quem persiste.

Vence mesmo é quem insiste
E Deus ajuda a quem madruga
A passos de tartaruga,
Esteja alegre ou triste,
O bem a todos assiste,
Mas é preciso lutar
Para então conquistar
Os sonhos, os ideais,
Justiça, amor e paz
Durante o caminhar.
-5-

Diz o saber popular:
Mentira tem perna curta,
Quem mente eu sei que furta,
Grande mal pode causar,
E quando um alguém contar
Uma lorota pode ser
Que o inocente venha a ter
Momentos de aflição,
Enfrentar uma situação
Que cause muito sofrer.

Nada de se entristecer,
De viver só em pensar
Em formas de conquistar
A todo o custo o poder,
Pois pode acontecer
Uma grande decepção,
Mais vale um pássaro na mão,
Do que ter os dois voando

E não se deve ir trocando
O certo por ilusão.
-6-

Digo que de grão em grão,
A galinha enche o papo.

Quando se junta fiapos,
Faz-se camisa ou calção;
Tijolos na construção,
É preciso ir juntando,
Que aos poucos vai se formando
O que antes não havia,
Com paciência e alegria,
Vitórias vamos alcançando.

Quem gosta de ir falando
Dos outros sem bem olhar
O que deixou de realizar,
Ou o que não anda pagando
A quem vive lhe cobrando
E não enxerga o seu espinho
E agride até passarinho,
Ouça o dizer bem vivido:
Quem tem telhado de vidro,
Não apedreja o vizinho
.
-7-

Nem que seja um pouquinho,
Não se deve esquecer,
Olhe um pouco pra você,
Procure um bom caminho,
Se perder ou ficar sozinho,
Não reclame seu estado,
Evite ficar alterado
Se a situação mandar,
Não adianta chorar
Sobre o leite derramado
.

Todo gato escaldado
Tem medo de água fria
,
Como sofreu ventania,
Corre do tempo nublado,
Tal como um mandingueiro.
Vive aceso, qual braseiro,
Que pode até se apagar,
Por isso vive a pular
Do chão ao teto, ligeiro.
-8-

em casa de ferreiro,
Espeto de pau
se vê,
Isto porque ele não crer
Na produção do terreiro,
Não é exemplo verdadeiro,
Não organiza o que devia
E assim não elogia
O que é seu ganha pão
Mostra uma contradição,
Qual riso sem alegria.

Quem não cumpre o que dizia,
Fica o dito por não dito,
Pra história ele é maldito,
Isso é pura tirania,
Desrespeito, hipocrisia,
Age sempre de má fé,
Engana a quem puder,
Como faz todo astuto,
Igual político corrupto
Que é ladrão e diz que não é.
-9-

Se a voz do povo é
A voz de Deus,
pois então
Vou repetir o sermão:
Quem avisa, amigo é,
Observe a maré,
Ela sobe, ela desce,
O pequeno um dia cresce,
Só a humildade é imensa
E a cabeça quando não pensa,
O corpo todo padece
.

Mesmo que a vista cesse,
O maior cego é aquele
Que não quer vê
o que é dele,
Que não olha o que aparece,
Que desmente e se entristece
Se alguém mostra o errado
E por não ter enxergado
O que todo o mundo via,
Terá decepção um dia,
Sentirá-se arruinado.
-10-

Há tempos tem-se escutado:
Há males que vem pro bem
E isso as vezes tem
Sido um verso acertado,
Pois o tempo tem mostrado
Que o sofrimento de outrora
Poderá ser luz e aurora,
Alimento e alegria,
A expulsão da nostalgia
Que é só lembrança agora.

Sabe-se pelo mundo afora
Que Deus tarda, mas não falha,
Que a pressa é fogo de palha,
E quem espera, perde a hora,
Que o mal um dia vai embora,
Que também quem planta vento,
Colhe tempestade
e assento
No trono da impertinência,
Melhor é ter paciência,
Pois o tempo traz o alento.
-11-

Ouve-se a todo momento:
A união faz a força,
Que as vezes ela é insossa,
Mas que é um importante evento.
É preciso está atento,
Só a organização
Promove a transformação.
E mesmo com as diferenças
De ideais e de crenças,
Conduz melhor a ação.

Há tempos que há o bordão:
O olho do dono é quem
Engorda o rebanho
e tem
Chamado bem a atenção
Pra que haja a promoção
Do que é nosso e é necessário
Cuidado em todo horário,
Pois sabe-se: quem muito dorme
Pouco vive
e é enorme
O prejuízo do erário.
-12-

É sábio quem é temerário
Ao mundo desconhecido,
E é bom se dá ouvido
A quem se faz mandatário.
Não é certo ser um falsário,
Nem viver só de afã,
Mas não deixe para amanhã
O que se pode fazer hoje
,
Tem grandeza quem bem ouve,
Sai do golpe da maçã.

Quem acorda bem de manhã,
Seu tempo não quer perder,
Sabe o que quer vencer,
Não tem vida de galã,
Não é rico do Irã,
Sabe que urge a caçada,
Pois mente desocupada
É oficina do diabo
,
É um caruru sem quiabo,
É uma leseira danada.
-13-

Comenta-se nas calçadas
Não é de hoje que quem canta
Os seus males espanta
,
Atrai a pessoa amada,
Refaz a vida cansada,
Dá no estresse um calote,
Ao mal humor faz um trote,
Tira da mente impurezas
Para revelar belezas
Que é preciso que se note.

Quem não pode com o pote,
Não segura na rodilha
.
Não se enfrenta a matilha
Se não houver um suporte,
E só se pega quadrilha
De ladrão por essas bandas
Se for preso quem comanda
E se tiver polícia honesta
Que investigue e que presta
Pra justiça e não debanda.
-14-

Tu me dizes com quem andas,
Que eu te direi quem tu és,

Se frequentas cabarés,
Se executas ou se mandas,
Se gostas de Zé ou Vanda,
De canário ou de poltro,
Se comes, se dás ao outro
O que ele precisa ter,
Se estais pensando vencer
Aqui no país ou noutro.

Quem olha a vida dos outros,
Logo se esquece da sua
E se viver só na rua
Feito um jumento solto
Ou numa praça envolto
Por um bando de animais
Escute, se for capaz,
Melhore o seu viver,
Procure o que fazer
E deixe os outros em paz.
-15-

Santo de casa não faz
Milagre
, não é respeitado,
Um ou outro tem rezado
Pra ele, já os demais,
Pouco lhe darão cartaz,
É história que conhecemos,
E nós que cordel fazemos
E queremos enricar
Vamos ao mundo mostrar
Nossa arte que sabemos.
FIM

Francisco Diniz
João Pessoa-PB, Junho/2005 / 12/07/2005 / 25 de setembro de 2005.
Participação do aluno Jailson Henrique, do Projeto Cordel, nas estrofes: 2, 6, 7, 8, 10, 12, 14, 15.

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