A história de João Pedro Teixeira,
de sua esposa Elisabete e da
Liga Camponesa de Sapé-PB.


Literatura de Cordel

Autor: Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 23/11/2003 - Revisão: 27 de agosto 2006.

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Eu vou contar uma história
Que no Nordeste ocorreu,
Nas terras da Paraíba
Foi onde se sucedeu
A luta de um povo pobre
E de um líder que morreu.

No ano 59, (1959)
Na cidade de Sapé,
No solo paraibano,
Terra de gente de fé,
Surgiu uma Liga Camponesa,
Preste atenção, se puder:

Foi João Pedro Teixeira
O idealizador,
Que sonhava com um mundo
Onde reinasse o amor
Com fartura e justiça
Para o trabalhador.

Registrada em cartório,
Sociedade Civil
E de Direito Privado
Porque aqui no Brasil
Um sindicato rural,
Na época não serviu...

Pra cuidar dos interesses
De todos trabalhadores
Por isso fora fundada
A Associação de Lavradores
E Trabalhadores Agrícolas

Que acolhia os sofredores.
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Mas essa associação
Era mesmo conhecida
Como Liga Camponesa
Que dava esperança à vida,
Único meio legal
Daquela gente sofrida.

O surgimento daquela
Forte Liga Camponesa,
Bem como de qualquer outra,
Foi devido, com certeza,
Existir 4 motivos
Que ao lembrar me dá tristeza.

Primeiro: o aumento do foro,
O aluguel anual,
Dado aos donos de terra,
Por ser desproporcional,
Era injusto o prejuízo
Do trabalhador rural;

O trabalho obrigatório
E também sem pagamento
Foi o 2o motivo
Pra causar o ajuntamento
Do povo em torno da Liga
Naquele dado momento;

O despejo humilhante
E sem indenização
Por todas benfeitorias
E por toda a plantação
Foi o 3o motivo
A unir a população;
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A quarta e última razão:
O uso da violência
Dos proprietários de terras
Que usavam com veemência
Jagunços e até a polícia
Que nunca tinham clemência

E prudência muito menos,
Agiam covardemente
Contra os trabalhadores
Que queriam simplesmente
Respeito aos seus direitos
Pra deixar de ser carentes.

Pra enfrentar essa opressão
O João Pedro Teixeira
Semeou a unidade
De toda a gente foreira
Da região de Sapé,
Mas de forma sempre ordeira.

Assim a referida Liga
No Nordeste era a maior,
Cerca de 7 mil sócios,
Ninguém se sentia só
E como organização
Não podia ser melhor.

Isso para o latifúndio
Incomodava demais,
Que usou de violência
Explícita e contumaz
Roubando o trabalhador
Sua vida ou sua paz.
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Jamais João Pedro Teixeira
Veio a se intimidar,
Enfrentou as ameaças,
Nunca se deixou levar
Por quem queria comprá-lo
Pra ele poder calar.

Não calou, muito ao contrário,
O camponês defendia;
Lutava pra que a justiça
Fizesse o que podia:
Ordenar que o latiúndio
Pagasse o que devia.

Ele pregava também
A desapropriação
Das terras, pra que o humilde
Saísse da submissão
Que era aquela vida
Quase uma escravidão.

O poder reagiu logo
Sem dó e sem piedade,
Mandou matar João Pedro,
Ação de grande ruindade,
Exterminando um homem
Que só falava em bondade.

Faleceu covardemente
Com três tiros de fuzil
Vítima de uma emboscada
Que armou um rico imbecil
Acabando os sonhos de um
Anônimo herói do Brasil.
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Com a bela Elisabete
João Pedro se casou
No ano 42 (1942)
E desde o início enfrentou
A negação do seu sogro
Que a união nunca aceitou.

Depressa o casal fugiu
Para viver o amor
Pro Engenho Massangana
E por lá João trabalhou,
Como a vida era difícil
A família se mudou.

No ano 45 (1945)
Pra Cavalheiro mudara,
Distrito de Jaboatão,
Ali o casal morara
E noutra pedreira João
Por um tempo trabalhara.

Nessa pedreira João
Começou a se envolver
Com o trabalho sindical
E passou a defender
Todas Ligas Camponesas,
Que mudaram seu viver.

Ali, também virou crente,
Durante anos ficou
Dedicado ao estudo bíblico
Porém não se acomodou
Sonhava com o homem salvo
Da ganância do opressor.
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Por lutar nos sindicatos,
Da pedreira, demitido
E por mais que procurasse
Nenhum patrão dava ouvidos
E sem trabalho, João Pedro,
Era um homem vencido.

Foi quando ele decidiu
E à Paraíba voltou,
O pai de Elisabete
A contra gosto ajudou
Era em 58 (1958)
O ano que lá chegou.

No sítio que era do sogro
Começou a trabalhar,
Cerca de um ano depois
Dedicou-se a organizar
Os camponeses na Liga
Pra direitos conquistar.

O trabalho foi difícil,
Em Sapé, a Liga cresceu
E João Pedro Teixeira,
Perseguido, ali sofreu,
Foi preso diversas vezes,
Porém nunca esmoreceu.

Era pai de 11 filhos
Quando foi assassinado
No dia 2 de abril
Em todo jornal falado
Do ano 62 (1962)
Morreu um homem honrado.
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No Sítio Café do Vento
À beira de uma estrada
2 soldados, 1 vaqueiro,
Acusados da emboscada,
Agnaldo Veloso Borges
Foi quem pagou a cilada.

Os 3 tiros desferidos
Deixaram João deformado.
Nesse dia ele ia
Falar com um advogado
Para tratar de um terreno
Onde havia morado.

E ele vinha trazendo
Os livros de Admissão
Para o estudo do filho
Denominado Abraão
Que ficaram cheios de sangue,
Esparramados no chão.

Somente no dia seguinte
Pra sua esposa contaram
E as pessoas de Sapé
Quase não acreditaram,
No outro dia, os jornais
Bem muito noticiaram.

Elisabete Teixeira
Foi até o necrotério
Visitar o seu amado,
Constatar o despautério
Que praticou o latifúndio,
Era um crime sem mistério.
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Só se via comoção
Quando do sepultamento.
Eram 5 mil pessoas
Que enfrentavam o sofrimento
E davam um adeus a João,
No seu último momento.

O juiz, que em Sapé,
Determinou a prisão
De Agnaldo Veloso,
Dos comparsas e então,
O acusado de mandante
Reagiu à detenção.

Era ele 5o suplente
De deputado estadual
E havia um dispositivo
Que eu acho imoral:
Uma tal Imunidade
Parlamentar
, que é legal.

Mas ele tinha que estar
Na Assembléia atuando,
Pra isso um Deputado
Foi logo renunciando
E ainda mais 4 suplentes
O gesto, foram imitando.

Assim o tal Agnaldo
Conseguiu a liberdade,
Sabe lá o que ofereceu
Àquelas autoridades
Pra uma renúncia estranha
Que o livrara das grades.
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Quanto ao vaqueiro eu não sei
O que lhe aconteceu,
Mas a dupla de soldados
Tribunal a absolveu,
E por unanimidade,
A justiça enlouqueceu.

E deu mais uma triste prova
Que serve bem à riqueza,
Que não proteje o homem
Oriundo da pobreza
E ao meditar sobre isso
Aumenta minha tristeza.

Quanto à Elisabete
Era o próprio sofrimento
Viúva, com os seus filhos,
Sem dinheiro e mantimento,
Com medo, sob ameaça,
Só tinha ressentimento.

No dia 5 de maio
Do ano 62 (1962)
Fez uma longa viagem
Foi ao Rio e depois
Seguiu rumo à Brasília
Para dar nome aos bois.

Isso lá na CPI
E sobre a situação
Que envolvia o campo,
Sapé e toda a região,
Ela respondeu a tudo
Não ficou uma só questão.
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Ela teve sugestão
De inúmeros Deputados
E até do Presidente
Pra não deixar seu Estado,
Mas pra continuar a luta
Que João Pedro havia deixado.

Ela não se amedrontou,
O esposo substituiu,
Convocando o camponês
E assim ela uniu
Cada vez mais gente à Liga,
Grande força do Brasil.

Por isso ela foi à Cuba,
Fidel Castro a chamou
Pra saber de sua história
E em seguida doou
Uma bolsa pro seu filho
E lá, medicina estudou.

Continuou em Sapé
Sofrendo perseguição,
Chegou ainda a ser presa
Passando humilhação,
Atiraram em seus pés,
Balas acertaram o chão.

Duas semanas do enterro
De João Pedro, o Presidente,
Houve em Sapé um protesto
De quem estava descontente
Contra o assassinato
Nunca se viu tanta gente.
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No dia desse protesto
Uma equipe là chegou,
Gupo Cultura da UNE
Que um filme idealizou,
Cabra Marcado Pra Morrer,
Assim a turma o chamou.

Em janeiro, 64 (1964)
O filme ia ser rodado,
Mas devido a um conflito,
Onde seria gravado,
11 pessoas morreram.
O lugar foi ocupado...

Naquela ocasião
Por Polícia Militar,
Não foi possível a filmagem
Só dava pra lamentar,
Empregados de uma usina
Estavam a enfrentar,

Com alguns policiais,
Um grupo de camponês
Desta forma adiada
Para o seguinte mês
O reinício dos trabalhos
Noutro lugar desta vez.

As personagens da trama:
Próprio povo do lugar,
Elisabete Teixeira
E seus filhos tavam lá
Só que após o conflito
Tudo teve que mudar.
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Era Eduardo Coutinho
O cineasta envolvido
Que após muito pensar
Estava bem decidido
Ir ao Engenho Galiléia,
O lugar então escolhido.

Era um pequeno distrito,
Em Vitória de Santo Antão
Que fica perto a Recife
Onde a população
Desde o ano 55 (1955)
Fazia reivindicação.

Lá neste citado ano
Onde então fora criada
A grande e primeira Liga
Do Brasil e sempre lembrada,
Um símbolo de resistência,
Uma terra abençoada.

Da luta de sua gente
Foi conquistado o chão;
Os foreiros conseguiram
A desapropriação,
Nas terras de Galiléia
O empregado foi patrão.

Fevereiro, 64, (1964)
Do filme participar,
Elisabete Teixeira
Foi à Galiléia ajudar
A contar a triste história
Pro cinema retratar.
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E poucos dias depois
Veio o golpe militar,
O exército invadiu,
Então, o pacato lugar,
Prendeu gente, quebrou coisas
De quem estava a filmar.

Na hora da investida
Uns conseguiram escapar,
Elisabete Teixeira
Na mata foi se embrenhar,
Fugiu pra São Rafael
Pra ninguém lhe encontrar.

São Rafael, a cidade
Que fica no interior
Do Rio Grande do Norte,
Lá Elisabete ficou
Quase 17 anos
Até seu nome mudou.

Deixou os filhos com o pai,
Sofrendo, ela fugiu,
Foi uma decisão difícil
Quando de casa partiu,
Se não o regime a matava,
Imagino o que sentiu.

Ela mudou o seu nome
Na sua nova morada,
Marta Maria da Costa
Assim passou a ser chamada
Viveu como lavadeira,
Sozinha e humilhada.
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Foi também uma professora
De alfabetização,
Ninguém sabia onde estava,
Exceto o filho Abraão,
Jornalista que morava
Em Patos, lá no sertão.

E do restante dos filhos
Quase nada ela sabia,
Só a partir de 81 (1981)
Aos poucos encontraria
Condições para revê-los,
Liberdade ressurgia.

Isso porque começava
A política de abertura,
Implementada a anistia,
Atenuada a censura,
Iniciava o fim
Da terrível ditadura.

Não era nenhuma bondade
De quem estava no poder,
Era a luta da nação
Que exigia viver
Desfrutando a liberdade
E o direito de escolher.

O Eduardo Coutinho
Nesse período voltou (1981)
Pra gravar em Galiléia
Aproveitando o que restou
Do que havia filmado
E sendo assim procurou...
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Quem vivia em Galiléia
E Elisabete também.
O filme foi um sucesso,
Emocionou muito além
Das fronteiras brasileiras
E eu registro um porém:

Elisabete ganhou
Muito pouco, foi explorada,
Mas o filme foi importante
Porque fora resgatada
A luta de João Pedro
E da mulher aviltada.

Os filhos de Elisabete,
Espalhados no Brasil,
Ela pôde contactar,
A única que não mais viu
Foi a filha que suicidou,
Depois que João partiu.

E uma outra tragédia
Elisabete viveu,
Um filho matou o outro,
Nunca ninguém entendeu,
Justo uma briga por terra,
O inesperado aconteceu.

Esse acontecimento
Foi mais uma provação,
Mas o destino amargo
Não azedou o coração
De uma brava heroína
Que orgulha o nosso chão.
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Elisabete Teixeira,
Como o marido, virou
Um mito da Paraíba
Que um preço alto pagou
Por sonhar por igualdade,
Respeito, paz e amor.

A sua história entristece
A quem chega a conhecer,
Mas sua vida repete
Aquele mesmo sofrer
De personagens do mundo
Que o pobre foi defender:

Mandela, contra o apartheid;
Gandhi, pela independência;
Já o Martin Luther King
Queria a paz, a clemência;
Cristo pregou o amor
Contra toda violência.

Elisabete Teixeira
E o querido companheiro
Não queriam nada além
Que o respeito ao foreiro
E dignidade pra quem
É nativo ou forasteiro.

E hoje por onde passa,
Em Jô Soares ou escola,
Ela prega a mesma coisa
Sem ter medo de pistola:
"O nosso povo precisa
De respeito e não de esmola".
FIM
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Francisco Diniz
Cordelista e professor de educação física
Site na internet:
www.projetocordel.com.br
E-mail: literaturadecordel@bol.com.br