Meu tio “Cientista”

(Marcos Bezerra)

 

Esse causo que eu conto

Foi prática sem teoria,

É verdade sem desconto,

É de família, eu diria.

 

O meu tio Alpiniano

Prezépio por vocação,

Quis ser o inventor do ano,

Criador de inovação.

 

Num dia deu um repente:

Um negócio vou fazer,

Se der certo a patente

Vou fabricar e vender.”

 

Ele pegou uma garrafa

Bem branquinha e transparente,

Tava feito, sob gaiofa,

Do produto o recipiente.

 

Todos riram do invento

Irmãos, sobrinhos e pais,

Até rinchou um jumento

Gaiofando do rapaz,

 

Que quando foi ao banheiro

Numa garrafa bufou,

Com rolha tampou ligeiro

E o gás aprisionou.

 

No quintal ele cavou

Um buraco com a mão,

Lá a garrafa botou

Pra fazer maturação.

 

Passou-se uma semana

E ele a desenterrou,

Cientista não se engana:

O produto maturou.

 

Em meio ao seu acerto

Numa coisa ele errou,

Na rolha não deu aperto

E a garrafa destampou.

 

Ouviu-se um estampido,

A rolha não se achou,

E quem não tava escondido

Do cheiro experimentou.

 

Debandou todo o mundo,

Não ficou nenhum cristão,

O gás saído do fundo

Foi curtido com feijão.

 

O invento foi esquecido,

Pois a rejeição é certa,

Mas nem tudo está perdido,

Foi feita uma descoberta:

 

Se a patente não saiu

Nem se soube lá pro Sul,

Ao menos se descobriu

Que a bufa era azul.

 

 

Marcos Bezerra
Analista-programador, graduado em Sistemas de Informação pela IESP Faculdades,
em João Pessoa-PB. Atualmente cataloga as memórias sertanejas do seu pai e
pretende futuramente transformá-las em livro.

_________________________________________
www.projetocordel.com.br
literaturadecordel@bol.com.br