Do Outro Lado do Mundo, cordel de Francisco Diniz.
Literatura de Cordel
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Do Outro Lado do Mundo
Relato sobre a morte de Nilton Ferreira Lima.


LITERATURA DE CORDEL
Autor:
Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 02 de março de 2005.

Caros parentes e amigos,
Hoje aqui vim descrever
Um fato acontecido
Que me causou desprazer,
Mas vou cumprir meu papel
De escrever um cordel
Que eu não queria fazer.

Em 19 de fevereiro
Estava eu a jantar,
Do ano 2005
Quando então ouvi tocar
O telefone estridente,
Não era nenhum presente
O que mãe veio me falar.

- Como vai está tudo bem?
- Está e ao mesmo tempo não,
É que Nilton de Doutor
Está em má situação
Num leito de hospital,
Em coma, ele passa mal,
Só se Deus botar a mão.

E eu perguntei: - o quê?!
O que foi que ocorreu?
- Meu filho, um acidente
Em São Paulo aconteceu,
Um homem desembestado,
N'ua bicicleta montado,
Sem querer, em Nilton bateu...
-1-

Mas vamos ter esperança,
Vamos com Deus nos pegar,
Só o que podemos fazer
Neste instante é rezar.
Eu fiquei impressionado,
O corpo ficou suado,
Não quis mais me alimentar.

No outro dia, o domingo,
Eu esperava receber
A qualquer hora notícia,
Queria muito saber,
Se depois da operação,
Houve alguma reação
Que evitasse o sofrer.

Ninguém me telefonou
E eu passei todo o dia
Ajudando nas tarefas
De casa, sem alegria.
Com os meus filhos e Gracinha
Fui à missa a noitinha,
Uma tristeza me envolvia.

Quando pelas 9 horas
Estávamos nós retornando,
De dentro do carro eu via
Naelson estava chorando.
- Já sei o que aconteceu,
Foi Nilton que faleceu.
Gracinha foi assim falando.
-2-

E nisso veio uma lembrança
De um instante que sonhei:
Uma casa que caía,
Pois na missa cochilei,
O padre deu um sorriso,
Eu fiquei de sobreaviso,
E o meu choro sufoquei.

Fui dormir atordoado,
Quase sem acreditar
E só acordei depois
Do relógio despertar,
Com uma grande dor de cabeça
E antes que eu esqueça,
Outro sonho vou contar:

Nilton me aparecia,
Eu logo me assustava,
Mas só num breve momento,
Em seguida eu perguntava:
- Você foi bem recebido?
A vida aí tem sentido?
Ele choroso opinava.

Eu não sabia direito
O que ele queria dizer,
Mas nós conversamos muito
Sobre a vida e o sofrer,
Sobre a nossa infância
Que trago bem na lembrança
E jamais vou esquecer.
-3-

Das caçadas de rolinha,
De sibito e de preá;
Os banhos lá no açude;
Os momentos de pescar,
Quando o riacho enchia,
Eu lembro a gente trazia
Muito peixe em landuá.

O tempo de limpar mato,
As catadas de algodão,
Os jogos de futebol,
As histórias no oitão
Que Mãe Vó e outros contavam
E as pessoas escutavam
Como fossem um sermão.

O tempo de tirar manga,
Goiaba, cana, cajá;
Buscar mari no baixio
Pra Tantana cozinhar;
Deixar o gado na roça,
Querer andar de carroça
E de careta brincar.

E eu dizia: - meu primo,
Nenhuma morte seria
Capaz de matar o que nós
Vivenciamos um dia:
Dos bolos que no Natal
No forno, lá no quintal
A gente assava e comia.
-4-

Isso só muito depois
De todo o milho moer
Na cozinha de Mãe Vó
E pouquíssimo xerém ter,
Você até reclamava,
Mas quando pouco sobrava
É que os pintos iam comer.

Tantana achava graça.
Eu queria aproveitar
Toda a parte do milho,
Pra mim, hoje é bom lembrar,
Bem como o baú de fava
Amarga que dava raiva,
Que demorava acabar.

E os jogos de futebol
Que no rádio a gente ouvia,
O Flamengo contra o Vasco
Era raiva ou alegria,
Flamengo, eu e Gilberto,
Tu só queria tá certo,
Bidonga, sua companhia.

Luz elétrica não existia,
Candeeiro iluminava,
O rádio era de pilha,
A gente não reclamava,
Dormia e acordava cedo,
Quase não havia medo,
A amizade bastava.
-5-

Quando eu senti que era um sonho
Tornei a lhe perguntar:
- Como é que é por aí?
Vi Nilton quase a chorar.
- Você aí foi bem-vindo?
O que você tá sentindo?
E eu passei a meditar:

Eu acho, não é possível
Que Nilton não esteja bem,
Depois de uma vida sofrida,
Deus, Jesus, Buda ou ninguém
Seria capaz de negar
Pra ele um bom lugar,
Alegria e paz também.

Depois de tanto trabalho
No Pé Branco, no roçado,
Ia estudar em Santa Helena
Com Gilberto sempre ao lado,
Andando mais de 1 légua,
Dificuldades, sem trégua,
Quem não lembra esse passado?

Eu lembro e digo também
Conheci a sua rotina
De labuta em São Paulo
Desde as 5 da matina
Até o final da tarde,
Uma tristeza me invade,
Vi de perto sua sina.
-6-

Os cuidados com os recursos
Que todos meses ganhava,
Não gostava de gastar,
Muito economizava,
Pra em dezembro poder,
Sua família rever,
Era o que mais desejava.

Foi embora precocemente,
Mas um exemplo aqui deixou:
Gentileza e dignidade
Como o pai o ensinou,
Quem o conheceu dirá,
É raro se encontrar
Caráter de igual valor.

Naquele sonho, eu lembro
Do que Niltou perguntou:
- Ô Nenen por que você
Até agora não chorou?
Eu fiquei sem entender,
- Como ele pode saber
O que comigo se passou?

São coisas misteriosas
Que não têm explicação,
Talvez seja só sonho
Ou mesmo uma ilusão,
Eu só sei é que ficou
Uma grandiosa dor
Apertando o coração.
-7-

Foi assim que viajei
Para a última homenagem.
De João Pessoa eu trazia,
A tristeza na bagagem,
Quando ao Pé Branco cheguei
E tio Doutor avistei,
Sangrava feito barragem.

Nos braços de tia Antônia,
Por instantes soluçava,
Gilberto, João e Neli,
A cada um, eu abraçava,
Argemiro, Zacarias,
Daniel e quem mais sofria,
Era Tantana, que chorava.

No terreiro de Mãe Vó,
Tudo muito iluminado,
Agora com luz elétrica,
Nem parecia o passado.
Mas pra quê ter energia
Se faltava a harmonia,
Se faltava um ser amado?

E gente pelas calçadas,
Muitos carros no terreiro,
Mulheres pelas cozinhas,
De longe, o converseiro,
Uns, chá ou café tomavam,
Outros, da sopa provavam,
22 de fevereiro.

Era aniversário de Neuma,
Não dava pra festejar.
Quando ia dar meia-noite
Ouvi o galo cantar,
Tia Tereza dizer:
- É o carro, venha ver
Lá na estrada a passar.
-8-

Era o carro que trazia
O Nilton em um caixão,
Que vinha de Fortaleza,
Pra lá, foi de avião.
A camionete ao parar,
Sheila desceu a chorar
Que causava comoção.

Levaram Nilton pra sala
Quase irreconhecível,
Pois usaram o formol
Para que fosse possível
O seu corpo transportar,
Para poder sepultar
No túmulo perto, visível.

E depois de algum tempo
Arrumei coragem pra ir
Olhá-lo perto ao caixão
Foi quando lá eu ouvi
Tia Antônia a lamentar:
- Não é meu filho que está
Nesse momento aqui.

- Meu filho é diferente,
Eu não posso acreditar.
Vez em quando alguém dizia:
- Vamos um terço rezar,
Assim a noite passou,
Ainda ouvi tio Doutor:
- Eu não quero descansar...

Eu só tenho pouco tempo
Para o Nêgo Tim ver,
Você desculpe Nenen,
Não tenho tempo a perder,
Eu não quero me deitar,
Posso amanhã repousar,
Hoje não vou adormecer.
-9-

Ainda foi ao curral,
Ao amanhecer o dia,
Tirar um balde de leite,
Depressa Indá o fervia
Para dar aos visitantes
E naquele mesmo instante
Tia Júlia aparecia.

Por volta das 7 e meia
Corrinha dizia então:
- Vou à casa de Nanã
E preparar o caixão,
É bom a gente andar
Pra missa não atrasar
E cumprir essa missão.

E na hora da saída
João Kléber disse que viu
Um prato quebrar sozinho
E grande medo sentiu.
São os mistérios da vida,
Era o sinal da partida
Que algum anjo pressentiu.

Após a missa encontramos
Muita gente a chorar:
Delaíde, mãe, Ildete,
Damião triste a olhar,
Turi, Antônio de Luiz,
Era um dia infeliz
Que nem é bom relembrar.
-10-

De longe vi 2 meninas
Irmãs de Assis de Nair,
Os filhos de Auxiliadora
E tanta gente que se
Eu fosse relacionar
Não haveria lugar,
Não caberia aqui.

Os pais e alguns da família
Na missa não estiveram,
Mas a igreja tava cheia,
Os conhecidos quiseram
Vê-lo a última vez,
Agradeço a quem o fez
E o pesar que trouxeram.

Não há dinheiro que pague
A ajuda, o empenho:
Valcilene, Tio Vital,
Telino, que hoje o tenho
Como um membro da família,
Que sempre foi a partilha,
Outro lutador ferrenho.

O trabalho da esposa,
Sheila foi fundamental,
Pois organizara tudo
Nessa hora crucial
Para que Nilton viesse
E que a gente pudesse
Dar-lhe o adeus final.
-11-

A quem pôde ajudar
Queremos agradecer:
Valdir, Zezé, Argemiro,
Perdoe-me se eu esquecer
De alguém aqui relatar,
Mas Deus irá se lembrar,
Recompensa oferecer.

A Chicão, Paula e Neto,
Governo Municipal
Da cidade Santa Helena
Que cooperou no final,
A diversos conhecidos
E também desconhecidos,
Da emergência ao funeral.

Com o tempo eu sei que nós
Iremos nos conformar.
Até lá vamos sofrer,
Dessa tristeza falar,
De um ou de outro fato,
De um comentário ou relato
Deveremos relembrar.

Quando foi dada a ordem
Pro cortejo iniciar,
E quando eu vi Naelson
N'alça do caixão pegar
Pra levá-lo ao cemitério,
Eu que sempre ando sério
Desmoronei a chorar.
-12-

E em quase todo o percurso,
Dessa forma eu fiquei.
Na porta do cemitério,
Elineto avistei,
Que disse: - "Só entra uns cinco
Vamos retirar o zinco
Do caixão" e eu não entrei.

Mas falei: - "Só um momento
Gente, vamos aguardar".
E pouco tempo depois
Da questão solucionar,
O portão fora aberto,
Para o povo ver de perto
Onde Nilton ia ficar.

Após o sepultamento,
Eu vim pra casa andando
Com o meu pai sobre a linha,
Nós viemos conversando.
- "A morte é uma tristeza,
Mas é a única certeza",
Ele vinha me falando.

Analisando esse fato,
Procuro explicação.
De quem seria a culpa
Da cruel situação
Em que o acidente ocorreu
E a bicicleta bateu
Em Nilton, jogando-o ao chão?
-13-

Seria desatenção
Que ocorrera num momento?
Numa fração de segundo,
Desvio do pensamento?
Tinha crianças brincando
De bola e pipa empinando,
Ele não viu um elemento...

Passando no meio da rua
Em alta velocidade,
Pondo em risco os transeuntes
Que andavam na cidade,
Ou será que toda a culpa
É de quem só dá desculpa,
Ou seja, as autoridades?!

Que não prestam um serviço
De saúde adequado,
Que evitasse que Nilton
Tivesse muito esperado.
Depois de muito sofrido,
É que ele foi atendido
E sem tempo operado.

Após enfrentar o trânsito,
Esperou cerca de 1 hora
Pra chegar ao Jabaquara
E talvez essa demora
Do posto ao hospital
Tinha sido crucial,
Eu fico pensando agora.
-14-

Terá culpa o destino,
Que uma peça quis pregar?
Pois naquela sexta-feira
Nilton não quisera ficar
Uma hora extra fazendo
Nem com os colegas comendo
Churrasco após trabalhar.

Será que foi nosso Deus
Que fez plano e decidiu
Convidá-lo pr'uma tarefa
E assim Nilton partiu?
Pois ao chamado de Deus
Nenhum dos queridos seus
Até hoje resistiu.

Nós ficamos só falando,
Pois não sabemos de nada.
A morte é coisa certa,
A vida é uma estada
E a escrita que o Senhor faz
Se é torta ou reta, jamais
Diremos que está errada.

Desse triste episódio
Pode-se tirar lição.
João disse-me que após
Viver tal situação,
Sentiu por não ter falado
O quanto Nilton era amado,
Qu'ele era mais que irmão.
-15-

Baía disse-me saber
Como era essa dor,
Pois já a havia sentido
E somente com o amor
De Deus Pai e dos parentes,
Dos seus amigos presentes,
Foi que ela se acostumou.

E eu comentei com Neli:
- Deviam ter permitido
Fazer a doação de órgãos,
Isso daria um sentido
A quem está necessitando,
Há muita gente esperando
Na fila pra ser assistido.

Eu acredito que Nilton
Está feliz no Além,
Repetindo o que dissera
Pra Telino: - "Estou bem,
Cara, eu estou bem, cara!"
E isso que ele falara
Ao lembrar nos faz um bem.

E a ti eu não peço nada,
Não é preciso pedir.
Eu bem sei se tu puderes,
Se Deus assim permitir,
Vais ajudar a todos nós,
A desatar nossos nós
E a enfrentar a vida aqui.
-16-
FIM

Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 02 de março de 2005.
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