Paraíba do Forró, cordel de Francisco Diniz.
Literatura de Cordel
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Paraíba do Forró,
O Artista Popular de Santa Rita.


LITERATURA DE CORDEL
Autor:
Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 13 de fevereiro de 2005

Caros amigos presentes
Peço licença e atenção
Pra contar um pouco da história
De um humilde cidadão,
Cuja alma é grandiosa
E a cultura, valiosa
Ao retratar o nosso chão.

José Antônio Bandeira,
Ou Paraíba do Forró,
Um artista Popular
Que é o exemplo do melhor
Da arte Paraibana.
Nascido em Itabaiana,
De paciência de Jó.

Em 24 de março
Foi o dia em que nasceu,
No ano 42 (1942)
E desde os 2 anos viveu
Na cidade Santa Rita,
Uma terra que é bendita,
Que sempre o acolheu.

Filho de Antônio José
E de Isabel Bandeira,
Conhecida por Vassoura,
Que era uma mulher tropeira,
Que pelas portas vendia,
Em cima de montaria,
Animais, manga, jaqueira.
-1-

Vassoura em Santa Rita
Virou expressão folclórica.
Montada em uma besta,
Empunhava como heróica,
A bandeira brasileira
E com um apito, na feira
Ou nas ruas, foi histórica.

Porém, no final da vida
Teve problemas mentais
Por isso, por muita gente
Foi destratada demais,
Sofria piada de uns,
Jogavam pedras, alguns,
Vassoura não tinha paz.

Paraíba do Forró
Herdou o dom musical
Do pai, Antônio José,
Que foi músico e fiscal
De menores nos cinemas,
Que pra resolver os problemas
Era como um oficial...

De justiça, naquele tempo,
Mas, ele se destacou
Foi usando o seu tarol,
Quando por anos tocou
Na antiga São José,
Filarmônica, que até
Hoje tem o seu valor.
-2-

Paraíba do Forró
É um símbolo de resistência,
O único dos 11 filhos
De Isabel, com paciência
De vencer a mortalidade
Infantil e a crueldade
De um sistema sem clemência.

Sistema que penaliza
O homem trabalhador,
O agente da cultura,
O autodidata, cantor,
Aquele que faz sorrir,
Diverte, faz refletir,
Mas aqui não tem valor.

Paraíba do Forró
Anda na vida a tocar
Uma flauta de PVC
Que um dia veio a inventar,
Toca zabumba também
No ônibus, praia ou trem
Pra algum trocado ganhar.

E com ele, os seus meninos
Ivanildo e Itamar.
Um que toca triângulo,
O outro toca ganzá,
Antes, era Mazinho,
Que hoje toca sozinho
Pra uma família sustentar.
-3-

Tudo começou no tempo
Em que Paraíba morou
Na cidade de Recife,
Quando por lá encontrou
Cearense do Violão,
Que o ensinou percussão
E um artista despertou.

1972
Quando os dois, iniciaram
Lá no Pátio de São Pedro,
Depressa ali juntaram
Muitos expectadores
E assim os amadores
Um bom dinheiro ganharam.

Certo dia Paraíba,
Então chamado Bandeira,
Pôs um papel sobre um pente
E essa atitude primeira
De soprar tal instrumento
Serviu como passatempo
E engordou sua carteira.

Mesmo o público gostando,
O pente incomodava,
Pois os seus lábios doíam
Cócegas muito causava,
Foi quando uma idéia surgia,
A flauta de cano nascia
E ele se apresentava.
-4-

Agora com o amigo Moura,
Um excelente cantor,
Que tocava no triângulo
E muita gente agradou.
Certo dia na platéia
Um empresário teve a idéia
E a dupla convidou

Para ir à TV Comércio
De Recife, apresentar
O número que lá na praça
Fazia o povo vibrar:
De Pinduca, o carimbó
A Gonzaga, o forró
Os dois foram lá mostrar.

Isso foi em 75 (1975)
No programa J. Ferreira,
Que batizou o artista
Conhecido por Bandeira,
De Paraíba da Gaita
E ainda o chamava de baita
Mambembe, dos de primeira.

O Gaita foi retirado
E colocado Forró,
Identificando o artista
Com o ritmo maior
Do povo aqui do Nordeste,
Virou o cabra da peste:
Paraíba do Forró.
-5-

Após morar 8 anos
Na capital pernambucana,
O Paraíba retornou
À terra paraibana,
Pra Santa Rita, de novo,
Para junto do seu povo,
Pra sua antiga cabana.

Na rua Dr Pedrosa,
Onde até hoje mora,
395,
Como num tempo de outrora.
Fica bem perto da linha.
É casado com Terezinha,
Faz 15 anos agora.

Ele casou-se 3 vezes.
São filhos: Mazinho, Itamar,
Ivanildo e Andreza,
Ana Patrícia e há
Penhinha, que já tem neta
E Paraíba tem bisneta,
Mas, pouco pode a encontrar.

Ao longo de sua vida
Este artista tem andado
Por Fortaleza, Natal,
Com muita gente, tocado.
Atuou de zabumbeiro
Para vários forrozeiros;
Pelas ruas tem cantado.
-6-

Tocou com a Marinalva,
A irmã de Marinês;
Com o Genival Lacerda
No circo, por mais de mês.
Não deu pra muito ganhar,
Mas, após se apresentar
Eram certos os cachês.

Conheceu Marinho Chagas,
Aquele da seleção,
Em Natal um certo dia,
Após uma apresentação,
E então o jogador,
O Paraíba convidou
Para uma exibição.

Num restaurante famoso
Da capital potiguar,
O público muito gostou
E Paraíba foi andar
Onde Marinho falasse,
Ou onde o requisitasse
Para o seu show mostrar.

Marinho tinha uma rede
De hotéis na ocasião
E pagava do próprio bolso,
Sem fazer a menor questão,
Transformou-se num amigo,
Uma espécie de abrigo
Ao artista de plantão.
-7-

Paraíba do Forró
Teve e deu alegria.
Um carro o pegava em casa,
Tinha essa mordomia,
Mas, Marinho viajou
E o nosso artista passou
A fazer o que antes fazia,

Ou seja, a apresentar
O seu trabalho na praça,
Em tudo quanto é lugar,
Onde estivesse a massa.
Pouco dinheiro ganhava
E dificuldades passava,
Levava tudo na raça.

Em 99, uma equipe (1999)
De cinema o procurou
Para um documentário
E ele não se negou.
Em sua casa foi registrado,
Devidamente filmado
O que ele apresentou.

Chama-se "2000 Nordeste",
O nome da produção,
Que passou na TVE
Numa certa ocasião.
Por causa dessa filmagem
Paraíba fez viagem
Para outra região.
-8-

Em novembro, 2001
Foi ao Rio de Janeiro
Pro lançamento do filme,
Na Universidade, primeiro.
Depois no Cine Odeon,
O povo ouviu o seu som,
Peculiar, brasileiro.

Na U.F.R.J.
Tocou com o Itamar,
Na praça, na Cinelândia;
E foi se apresentar
Na Feira de São Cristóvão,
Ele lá não era um órfão
Da cultura popular.

Foi na Barraca do Gordo,
Na Praia de Copacabana.
Ganhou dinheiro no ônibus,
Sentiu-se gente bacana.
O que ganhou um dia lá,
No mês, não dá pra ganhar
Na terra paraibana.

Chegando em Santa Rita,
2 dias após, retornou.
Dessa vez de avião,
A TV Globo o chamou
Para uma participação
No Programa Caldeirão
Do Huck, apresentador.
-9-

Que o chamou outra vez
Pra uma segunda gravação.
O Brasil inteiro viu
A sua demonstração.
Ganhou um pequeno cachê,
Mas, a aparição na TV
Promoveu badalação.

E 15 dias depois
Foi ao Programa do Ratinho
Na cidade de São Paulo.
Ele sentiu bem de pertinho
Muito frio, muita garoa
E um monte de gente boa
Que o tratou com carinho.

Paraíba do Forró
Inda hoje continua
Cantando, com sua voz rouca,
Vagando por nossas ruas,
Enfrentando a realidade
De grande dificuldade,
Uma verdade nua e crua,

Do não reconhecimento
Da cultura popular,
Pois passa o dia tocando
Pra muito pouco apurar.
O descaso é demais,
As vezes só 6 reais
É o que consegue ganhar.
-10-

Ele e os seus meninos,
No triângulo e ganzá,
Com zabumba e a flauta,
Como já disse, peculiar,
Tocam músicas variadas
Que são sempre acompanhadas
Com o forró a preservar.

E andam diariamente
Nos ônibus que vão pro Bessa,
Pra Praia de Tambaú;
É uma viagem sem pressa,
Seja à Praia do Poço,
Seguem sem alvoroço,
O destino pouco interessa.

Vão ao Alto do Mateus
Ou a qualquer um lugar
Da Grande João Pessoa.
O que buscam é mostrar
A música regional,
Num momento cultural
Pro viajante alegrar.

No percurso, o Paraíba,
Sorrindo passa o chapéu.
Um dá um vale transporte,
Outro um real de papel,
Moeda é o que mais se dá
E as vezes dá pra pensar:
- A arte não vive ao léu.
-11-

As vezes, numa viagem,
Um estúpido solta piada
Num gesto de desrespeito
Que por certo, desagrada,
Paraíba com educação,
Dá-lhe uma bela lição,
Que deve ser ensinada

Sobre o respeito à cultura,
Como presenciei um dia
No ônibus de Santa Rita:
Um desfez da melodia
Que ele então cantava.
De repente ele parava
E calmamente dizia:

- "Ó meu nobre cidadão
Que veste esse terno bonito,
Eu não tenho o seu estudo,
Talvez não seja benquisto,
Mas, eu respeito à cultura
E o senhor com sua leitura
Não sabe ainda o que é isto."

E fez uma explanação
Sobre a cidadania,
Sobre a educação,
Sistemas, democracia,
Pro povo não se vender,
E sim refletir, aprender
A evitar a tirania.
-12-

Era em 89, (1989)
Já perto da eleição
De Color, contra o Lula
E naquela ocasião
Ele logo aproveitou:
- "Nós devemos dar valor
Aos humildes da nação."

E fez referência a Lula
Sem no seu nome tocar.
Quando terminou o discurso
Vi o povo se levantar
Para muito o aplaudir,
Eu vi gente a sorrir
E uma senhora chorar.

E o rapaz da piada
Naquela hora desceu
Do ônibus, então lotado,
Só que ele recebeu
Uma vaia muito grande,
Que por onde quer que ande
Garanto, nunca a esqueceu.

Paraíba do Forró
É um sujeito brincalhão,
Sempre de bem com a vida,
É a pura animação
Na bicicleta enfeitada,
Digo, personalizada,
Que ele chama meu carrão.
-13-

Nunca o vi de cara feia,
Parece não se estressar.
Mesmo em dificuldades
Está sempre a cantar.
Eu sei que ele disfarça
As agruras por que passa,
Só não faz é demonstrar.

Toda situação crítica
Do artista popular
É falta de uma política
No Brasil que possa dar
O respeito, a condição
De não passar precisão
Quem só faz emocionar.

Paraíba do Forró
Deveria receber
Do governo, um bom salário
Pra poder desenvolver
Nas escolas, sua arte,
Nas ruas, em qualquer parte,
Pra melhor sobreviver...

Ter roupas especiais
Para apresentação,
Como um agente de turismo
Divulgando o nosso chão,
Seja no Carnaval,
Na Páscoa ou no Natal
E também no São João.
-14-

Nas feiras e nos hotéis,
Fazendo comercial,
No rádio ou na TV,
Revista e também jornal,
Ter patrocínio de empresas,
Pra expor nossas belezas
Do sertão ao litoral.

E por falar em empresa
Aqui venho solicitar
Uma grande gentileza
Ao gerente da Telemar:
- Mande botar um orelhão
Na porta do cidadão
Que aqui estou a retratar.

Muito dos seus contatos,
Isso facilitará.
Para fazer um contrato,
Alguém poderá ligar,
Pois no momento presente,
Por ser artista carente
Uma linha não pode pagar.

É só um paliativo
Até ele adquirir
As condições financeiras
Pra sua vida conduzir
Com toda a dignidade,
Isso se a sociedade
Por acaso permitir.
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E eu vou ficar torcendo
Pro povo dá o valor
Que ele merece e precisa
Pra vencer o dissabor,
Que é a vida em dificuldade,
Pois já passou da idade
De ser visto por senhor.

Tomara que o nosso povo
Não espere ele morrer
Pra fazer uma homenagem,
Pra fazer festa e dizer:
Paraíba era um agente
Da cultura da nossa gente,
Nós vimos reconhecer.

Que outras vezes, amigo,
Vá ao programa do Chibata,
À toda televisão
E que este ano desata
O nó que prende você,
Que possas gravar o cd,
Siga em frente, não se abata.

E eu te desejo amigo
Um tempo de vida maior,
Saúde, felicidades,
O que tiver de melhor,
Que tu sejas respeitado
E pelo Brasil, amado,
Paraíba do Forró.
-16-
FIM

Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 13 de fevereiro de 2005
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