Paraíba, Sim Senhor!
Bandeira da Paraíba

 
Literatura de Cordel

Autor: Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 16 de setembro de 2001. Texto revisado em 18 de fevereiro de 2013.

www.projetocordel.com.br


Paraíba, sim senhor!
Do meu querido sertão,
Das terras de Santa Helena,
Antes, Canto do Feijão,
Uma cidade pequena,
Mas de grande coração.

Sou Paraíba seu moço
Cheio de orgulho e fé,
Que admira o burro brabo,
A cachaça, o arrasta-pé,
O repente, a vaquejada,
A cantoria, a embolada,
E é chamado de seu Zé.

Paraíba, sim senhor!
Amante da poesia,
Que preza o bom forró
A qualquer hora do dia,
Aprecia o raiar do sol,
O canto do rouxinol
E as cantigas de Maria.

Em diversas regiões
A Paraíba é dividida:
Litoral, agreste, brejo
E não deve ser esquecida
As terras do meu sertão,
Orgulho da minha vida.
1

É bem provável que eu
Aqui deixe de citar
Personagens e/ou fatos,
Mas queira me desculpar,
Dei preferência aos relatos
Que consegui me lembrar.

Na minha terra há o cultivo
De arroz, milho e feijão,
Fartura de abacaxi,
Um dia foi o algodão.
Tem tanta riqueza aqui
Só falta distribuir
Tudo isso com o povão.

Planta-se a mandioca,
O sisal pra exportação
E a cana de açúcar
É levada em caminhão
Pro porto de Cabedelo
Para que o estrangeiro
Compre nossa produção.
2

A Paraíba é linda,
Mas convive com uma tristeza,
É que uma parte do povo
Vive em grande pobreza,
O muito fica com poucos,
Que defendem como loucos
Toda a sua realeza.

Pra acabar com a miséria
Há mais que uma solução:
Quando botarmos um fim
Nessa tal corrupção;
Quando elegermos políticos
Honestos para a nação.

Deu no jornal que um estudo
Foi feito e nos mostrou
Que se a nossa rica classe
Tivesse um pouco de amor
O mínimo que ela doasse
Acabava com o clamor.

Eram quatorze reais
O preço para ajudar,
Pra acabar com a indigência,
Para a fome se matar;
E me diga se por mês
No bolso de um burguês
Esse valor ia faltar?!
3

Tem muita gente sofrendo,
Esquecida e humilhada:
Os negros, os indigentes,
Os índios, a garotada,
A população carente,
Que quando fica doente,
Sabe o que é ser maltratada.

A justiça é um reflexo
Do que ocorre no Brasil,
Mataram a Margarida
E até hoje não se viu
Nenhum usineiro punido,
Ou um capataz servil.

Só que o povo é sempre humilde,
Gentil e acolhedor,
Recebe bem o turista
Faz o possível que for
Pra tratar uma visita
Com o saber de um professor.

Por falar em professor
Esse aqui é esquecido,
Ganha um salário de morte,
Zoada no pé do ouvido,
E entregue a própria sorte,
Vive estressado e sem norte,
Mas nunca será vencido.
4

Há riquezas magníficas,
Brincadeiras populares,
Folclore e danças típicas,
Um rebanho de muares,
De gado e de ovinos,
De leitão e asininos
Pelos centros populares.

Nós temos aqui também
Muita gente de destaque,
Que divulga a terrinha
Até mesmo no Iraque
Ao citar nossa caninha,
Nossa música e nosso charque...

Ao falar que há riquezas,
Patrimônio cultural,
A beleza arquitetônica
Da era colonial,
As bençãos da natureza
Do sertão ao litoral.
5

O Vale dos Dinossauros,
Em Sousa nós o encontramos.
Lá na Pedra de Ingá,
A Pré-História estudamos.
Já o rio Sanhauá,
Foi por onde começamos.

Temos o Pico do Jabre,
O mais alto do Nordeste.
Cajazeiras é linda,
Localizada a oeste,
Onde há mais que o tabuleiro
E a sombra do juazeiro,
Símbolos do cabra da peste.

Durante o mês de junho
Tem festa em Campina Grande.
Pelas ruas tem forró
E onde quer que a gente ande
A conversa é uma só:
- Vem aí a "Micarande"!
6

Em João Pessoa nós temos
Ponto mais oriental
Da América do Sul
É verdade, é cabal,
Chama-se Ponta do Seixas,
Onde o sol primeiro deixa
Claridade colossal.

Aqui o sol nasce primeiro;
A cidade arborizada
É a segunda do planeta;
Uma gente abençoada
Que branca, índia ou preta
Preconceito não aceita,
Nem também ser humilhada.

Humilhação me aborrece
E me faz entristecer
Quando zombam do meu povo
Na rua, rádio ou tv
E ao chamar de Paraíba
Com o intuito de desfazer.
7

O jogador do São Paulo
Denominado de França
Falou mal da nossa gente
Um bocado de lambança,
No rádio um cabra falou:
" - Ele não venha aonde vou
Se não lhe ensino uma dança!"

Um tal de Alexandre Pires
Comentou que por aqui
Só havia mulher feia
E só pra se distrair
Falou mais outras besteiras,
Só que achou uma pedreira
Que dá vontade de rir.

No programa Jô Soares
Ele queria se mostrar
Chamou uma bela moça
Para seu disco doar,
Só que ele deu azar,
Pois era uma paraibana,
Em atitude bacana
Jogou no chão o CD
E explicou o porquê:
- É Só Pra Contrariar.
8

É preciso enfrentar
Com coragem o preconceito
E saber argumentar,
Ir ao juiz de direito
Pra poder denunciar
Engraçadinho que achar
Que Paraíba é um defeito.

Paraíba tem é poetas!
Um celeiro é Monteiro.
Flávio José se destaca
Tal como flor em canteiro
Ao cantar o seu forró
Que toca no mundo inteiro.

E falando em qualidade
É necessário citar
Elba e Zé Ramalho;
Chico César, Pedro Osmar,
Fuba, Vital Farias,
Renata Arruda e eu diria:
Gente boa pra danar.

Que dizer de um Sivuca,
De um Herbert Viana,
São artistas dos melhores
Das terras paraibanas,
Que estão sempre nas paradas
E suas músicas gravadas
Por muita gente bacana?
9

Temos Washington Espínola,
Flamarion e Dornelas.
Na poesia e na música:
Oliveira de Panelas;
Cordelistas em Campina
Homem, mulher e menina,
Cada estrofe uma coisa bela.

Jocélio Amaro, Amazan,
Vera Lima, no estrangeiro,
Por ano vai divulgar
O nosso cancioneiro.
Ceiça Farias e tantos
Anônimos compositores
Afirmam que ente os autores,
Grande é Jackson do Pandeiro.

O Assis Chateaubriand
Hoje é vulto histórico.
O pintor Pedro Américo,
Foi um professor heróico.
O nosso Augusto dos Anjos,
Que não tocava um banjo,
Inventou versos melódicos.
10

Já Epitácio Pessoa
Chegou até a Presidência;
O escritor Zé Lins do Rêgo
Deixou obras de decência;
Zé Américo foi Senador,
Ministro, Governador,
Literato na essência.

Na poesia de cordel
Nós somos a tradição,
Leandro Gomes de Barros
Foi quem fez divulgação
Em Pombal, primeiramente,
E depois a toda gente
Do Nordeste da nação.

Um bocado de artista
No mundo se destacou:
Flávio, um campinense,
Na França é restaurador;
Zé Lezin é humorista;
Marcélia já tá na lista
Das atrizes de valor.

No esporte há quem fale
Da Paraíba com carinho:
Jogadore de futebol
De Bilica e Marcelinho,
Mas Júnior e Nelson Piquet
Parecem se esquecer
Do início do caminho.
11

Mesmo fazendo "sucesso"
Há coisa que não me agrada.
No brega eu não ingresso,
Nem na música estilizada
Que teimam em chamar forró,
Mas nem na caixa bozó
Ela é assim avaliada.

Por isso que dessas bandas
Não vou relacionar
Nenhuma, porque pra mim
Elas só pensam em lucrar
Fazendo música ruim
Misturando água e capim
Como se fosse manjar.

Por aqui ainda há seca
Que castiga os animais,
Destruindo a plantação
Cada dia, sempre mais,
Tirando o homem do campo
Pra sofrer nas capitais.

O nosso homem da roça,
O vaqueiro, o artesão
E também o pescador
Sonham com a irrigação,
Pois não há necessidade
De ir embora pras cidades,
Largando seu velho chão.
12

A irrigação ao chegar,
Para todos atender,
Teremos grande mudança
Acaba o padecer.
A seca será herança,
Guardada só na lembrança,
Mas que vamos esquecer.

Enquanto isso não vier
Não adianta ilusão,
É preciso organizar
O povo num mutirão
Pra cobrar da autoridade
A nossa felicidade,
Que é ser visto cidadão.

Conquistar cidadania
Começa em ter consciência
Que é necessário acabar
Com a fome, com a violência,
Tirar da rua as crianças,
Que vivem sem esperanças,
Quando estão abandonadas
E por serem maltratadas
Caminham pra delinqüência.
13

Há que se querer também
Cuidar bem dos esquecidos,
Do Sem-terra, do Sem-teto,
Não importando o partido,
Acabar com a pobreza,
Dividindo a riqueza
Com todo o pobre sofrido.

Pois é, meu caro leitor,
A coisa tem que mudar,
O povo da Paraíba
Não pode se maltratar
E ao sofrer o preconceito,
Humilhação, desrespeito
Não deve mais se calar.

Aos poucos aprenderemos
A exigir e a falar,
Inda há muito o que fazer,
Tanto para conquistar,
Mas primeiro é bom saber
Como a gente escolher
Candidato pra votar.

Só que isso não é fácil
É preciso ser astuto,
Pois aqui o que mais tem
É político corrupto,
Um doutor em enganar,
Que é capaz de comprar
Do sabido ao matuto.
14

Veja só o que aconteceu
Com alguns desses danados:
Um deixou mais de 6 meses
O pagamento atrasado
Do pobre do funcionário
Que trabalha no Estado.

Um dos que eu conhecia
Foi à escola que eu estudava,
Prometeu que entregaria
Seu registro que faltava
Do órgão da educação,
Mas depois da eleição,
Só o diabo o encontrava.

Outro, tinha a proposta:
Fim da aposentadoria
Pra quem era deputado,
Pra variar, quem diria,
Ele ao não se reeleger
Foi direto receber
O que antes não queria.

De repente eu me pergunto:
Em quem vou acreditar,
Quem eu achava ter ética
Foi me decepcionar?
Porém sou um otimista,
Ainda vejo um governista,
Povo pobre respeitar.
15

Será que é impossível?
Não, o povo tem o poder!
E mesmo devagarzinho
Mudo eu, muda você,
Se erramos numa ocasião,
Numa outra eleição
Não é para acontecer.

Pois o nosso povo é forte,
Digo e não me engano.
Quem tem fama de valente
Igual ao paraibano?
Só lhe falta a patente
De sempre ser independente
De todo tipo de insano.

É uma difícil conquista,
Mas só depende de nós,
Que temos de nos unir,
Não podemos ficar sós,
O certo é exigir
Respeito, pra garantir
Melhor vida pra criança,
Muita saúde, bonança
Pro adulto e pros avós.
16
FIM

Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 16/09/2001. Texto revisado em 18 de fevereiro de 2013.

www.projetocordel.com.br
83 8862-8587 (Oi) - 83 9927-1412(Tim)