PATATIVA, HOMEM PÁSSARO

Mariano Ferreira da Costa

Literatura de Cordel

 


   

 

01

Permita-me relatar

Uma história de valor,

Falar dum homem do povo

Que nessa terra andou,

Que falou do seu sertão,

Cantou com a emoção

Tudo que aqui contemplou.

 

02

Ele é nome de pássaro

Por ter um canto afiado,

Um poeta popular,

Por todo povo era amado

Nas ruas de Assaré

Todo o mundo de pé,

O poeta é aclamado.

 

03

Fora Antônio Gonçalves

Da Silva, assim batizado

Esse grande menestrel

Por muitos admirado

Cantou a vida e a morte

Dos que não tinham a sorte

E que eram explorados.

 

04

Em 1909

Lá na Serra de Santana,

No Estado do Ceará,

A história não me engana,

Esse menino nasceu

E com as bênçãos de Deus

Morava numa choupana.

 

05

Dona Maria Pereira

 Deu à luz este garoto

No dia 5 de março,

Bem distante de agosto

Ao invés de choro, poesia,

As lágrimas de alegria

 Espalhadas no seu rosto...

 

06

Agora sem Patativa

O sertão ficou mais pobre.

Sua poesia: ouro,

Sem ela só temos cobre.

Este vate nordestino

Teve como o destino

Tornar Assaré terra nobre.

07

O seu canto ecoou,

Toda parte do sertão

E nos programas de rádios,

Jornal ou televisão,

Patativa era querido

Seu canto tinha fluído

Era homem de visão.

 

08

Sua poesia simples

Fala de nosso Brasil,

Da sua geografia,

De suas belezas mil,

Da coragem de seu povo,

Do velho, também do novo,

Pois belo é seu perfil.

 

09

Nos domingos de manhã

O Brasil podia ver

O poeta Patativa

A beleza descrever,

E nas rimas dos seus versos,

A pobreza e o progresso,

A cultura engrandecer.

 

10

Chamava atenção do povo

Dos problemas sociais,

Temos o Brasil de cima

Estampado nos jornais

 Exibindo suas riquezas

Esquecendo a pobreza

Nas construções colossais.

 

11

O Brasil que fica em baixo

É do povo nordestino,

Tem coragem disposição

Para mudar seu destino,

Quanto mais ele trabalha,

  Brasil de cima atrapalha,

Só ele é que vai subindo.

 

12

Este homem se tornou

Nosso maior menestrel

Falava do engenho de pau,

Do tempo do coronel,

Dos homens na bagaceira

Fazendo a brincadeira

De papo olhando pro céu.

 

13

Retratou com precisão

O surgimento da usina

Chamando de engenho de ferro

Que veio mudar a sina,

Paisagem do litoral,

Perdeu o engenho de pau,

O trabalhador se inclina.

 

14

Além disso, o retirante

Não faltou na sua lira

O nordestino em geral

Nos seus versos sempre tira

Um sentimento de dor

Partir sem o seu amor,

Mas não o perde na mira.

 

15

Mostrou que é triste partir,

Deixar a terra natal,

Sem saber para onde ir

O homem sente-se mal,

A dor sufoca o peito

Por saber que o único jeito

É abandonar o arraial...

 

16

O engenho de ferro veio

Mudar a nossa paisagem,

Derrubar as nossas matas,

Do homem a camaradagem,

Violentou nossos sonhos,

O sertanejo tristonho

Não tem mais aquela aragem.

 

17

O homem pássaro cantou

O nordeste e o sofrimento

O sol que assola a terra,

Retirante no jumento

Carregando os farrapos

A vida e os seus trapos

Empurrados pelo vento...

 

18

Assim vive o nordestino

Suportando grande dor,

Trabalhando sol a sol

Quando é agricultor

Não sabe se irá colher,

Seu destino é sofrer,

Sua vocação é o amor.

 

19

Na terra tórrida e árida

A semente é jogada,

Seu credo é o criador,

No trovão pai da coalhada,

É um homem resistente,

O sonho é uma semente,

Na alma é germinada.

 

20

De tudo tira uma lição,

A vida é um livro aberto.

Quando olha para o céu

Sabe se a chuva está perto

Ou longe para chegar,

Mas na terra vai ficar

Não largará o seu teto.

 

21

Sua casa de pau a pique

Pr’ele tem grande valor,

Foi retirada da terra

Caibro, linha, batedor,

As portas e a camarinha,

A mesa lá na cozinha,

Tudo da terra brotou.

 

22

A terra é mãe generosa,

Trata a todos com carinho,

Do seu leito tudo tira,

Tem flores e muito espinho,

Mas não chega ao lugar

Quem não vive a lutar,

Pois se perde no caminho...

 

23

O homem pássaro ouviu

Todos com muita atenção,

Conheceu palmo a palmo

Do seu sofrido sertão,

Nos palcos por onde andou,

Nos versos que declamou

Tinha muito do seu chão...

 

24

A paisagem sertaneja,

Lamento do nordestino,

As lágrimas da mãe viúva

Sem saber o seu destino,

O homem pássaro cantou

A terra que tanto amou

Desde o tempo de menino.

 

25

O pai enterrando o filho

Pequeno recém nascido,

Naquela paisagem árida

Este homem tão sofrido

Levando seu natimorto

Por esse caminho torto

Nunca será esquecido...

 

26

Vaqueiro no seu cavalo

Vestido com o gibão

Tangendo a vaca magra

No tempo de apartação,

Não faltou na sua lira

Chique-chique , macambira

E ave de arribação.

 

27

Novenas pra Santo Antônio

Em noite de lua cheia

Na sua casa de taipa

Clareada por candeia,

Nos versos de Patativa

Esta história está viva

Meia volta e volta e meia.

 

28

 O casamento matuto

Em noite de São João,

A latada no terreiro,

Milho assado e quentão,

A fogueira se ardendo,

A moçada se aquecendo

Ao som de um Gonzagão.

 

29

Quando chega o mês de maio

Tem casamento na certa,

A igreja da cidade

Já está de porta aberta

Para receber o casório

Só se escuta o foguetório

A festa não se encoberta.

 

30

E além dos casamentos

Tem as queimagens de flores

Com seu belo ritual,

Os santos nos seus andores

A cultura popular

Precisamos exaltar

Nas vozes dos cantadores.

 

31

Quando termina o mês

A Senhora é coroada

Como a rainha dos céus,

É por todos muito amada,

Do céu desceram os anjos,

Não faltou nenhum arcanjo,

Maria é aclamada.

 

32

Patativa bem sabia

Toda história de cor,

Mente privilegiada

Nunca chegou a dar nó,

Era o homem do repente,

A poesia era torrente

Que brotava deste pó.

 

33

Lá na Serra de Santana

Município de Assaré

Ele contemplava o mundo

Não sei qual o seu mister,

Era um homem de saber,

Só um olho e podia ver

Mesmo deitado ou de pé.

 

34

Cantou lá de sua serra,

E eu aqui no litoral

Apreciando sua lira

Espero ter o aval

Deste homem passarinho

Que o Ceará foi o ninho

Do seu grande recital.

 

35

O homem de academia

Ele o desafiou,

Falando dos verdes campos

Recheados de fulô,

 Fumo o cigarro de palha,

Tiro a barba com navalha

E você caro doutor?

 

36

Com o seu palavreado

Sabe muito escrever,

Eu falo das coisas simples

Que no campo posso ver,

Você com a sapiência

Entende sim, de ciência

Mais um dia vai morrer.

 

37

E eu aqui no meu rancho

Com a enxada na mão

Vejo o poema nascer

Como se fosse do chão,

Você lá na sua cidade

Esquece a simplicidade

Que tem o nosso sertão.

 

38

Sou caboclo sertanejo

E vivo do meu roçado,

Para fazer minha feira

Eu trabaio alugado,

Ao contrário do doutor,

E eu só sei dar mais valor

A quem é um iletrado.

 

39

O poeta patativa

Tinha sensibilidade,

No tocante a poesia

Falava sem ter maldade,

Amava morar no campo,

Gostava do pirilampo

Como a luz da cidade.

 

40

Como é que um homem desses

Que só aprendeu bê-a-bá,

  Abandonou os estudos,

Levou a vida a trabalhar

Agarrado a uma enxada

Com suas mãos calejadas

Sabia tanto versejar.

 

41

Só sendo obra de Deus

Pra confundir o sabido,

Tirou do meio da roça

Um pobre subnutrido

Com conhecimento vasto

Nascia dentro do pasto

Os versos mais coloridos.

 

42

Das terras de Assaré,

Do solo mais ressequido,

Homem com nome de pássaro

Numa choupana nascido

Elevou nossa cultura

De uma forma tão pura,

 Por todos foi aplaudido.

 

43

Reconhecido em vida

No mundo intelectual,

Suas obras publicadas

Nas revistas e jornal

Foi Doutor Honoris Causa

Por nos defender sem pausa

Do sofrimento real.

 

44

O homem pássaro voou,

Chegou bem perto do céu,

Conhecido em Sorbonne,

Estudado por Cantel,

Este ilustre professor

Patativa adotou

Como o maior menestrel.

 

45

No ano 79

Fora homenageado

Quando a SBPC

Reuni-se em seu estado,

Seus poemas, as canções

Ganharam novas versões,

Por Fagner foram gravados.

 

46

1981

Com “A Terra é Naturá

Fagner produziu um disco,

Faz todo mundo cantar

Rolando Boldrin, acerta,

Gravou a toada certa

“Vaca Estrela e Boi Fubá”.

 

47

Teatro José de Alencar

O poeta surpreendido

Como Amigo da Cultura,

Mais um título concedido,

Num discurso improvisado

Deixa o povo emocionado

E de pé é aplaudido.

 

48

A Câmara Municipal

Da Capital Fortaleza

De uma forma unânime

Concede outra surpresa:

Cidadão Fortalezense,

E ele não se convence:

Naturá é a natureza.

 

49

No ano 85

Era grande o sofrimento,

A seca em todo Nordeste

Ouvia-se o lamento

De um povo que sofria,

Mas nunca se maldizia

Esperava o sustento.

 

50

O poema Seca d’Água,

Que o homem pássaro escreveu,

Fagner e Chico Buarque,

Esta dupla promoveu

Campanha pros flagelados

Que foram os mais afetados

Pela enchente que ocorreu.

 

51

Ao ver os Caras Pintadas

Ele já tomou partido,

Juntou-se à juventude

Com seu jeito atrevido

Mostrou insatisfação,

Pediu nova eleição

Para um povo evoluído.

 

52

Governo Gonzaga Mota

Reconhecendo o valor

Do poeta Patativa

Logo providenciou

Uma importante comenda

Como se fosse uma prenda

Ao menestrel ofertou.

 

53

Medalha da Abolição

O poeta recebeu

No palácio do governo,

O povo compareceu

Para lhe cumprimentar

E pra vê-lo recitar

Alguns dos poemas seus.

 

54

Quem andou esse Brasil

Apresentando o Nnordeste,

Mostrando suas riquezas

E nosso Cabra-da-Peste

 Voando de avião

Ou em cima de caminhão

Tudo isso ele merece.

 

55

Para marcar a passagem

Quando o Pássaro voou

O Governo Jereissati

Um decreto assinou

Criando uma rodovia

Que com carro e poesia

O vate homenageou.

 

56

O Sudeste reconhece

O poeta passarinho,

Que nasceu no Ceará,

Fez da poesia ninho,

Na capital da garoa

Essa gente que é tão boa

Demonstrou muito carinho...

 

57

E assim a Assembléia

Legislativa, em sessão,

Homenageia o poeta

Que cantou para o povão

Da forma mais contundente,

Valorizou sua gente

Sem tirar o pé do chão.

 

58

O ator Jackson Antunes

Seu poema declamou

Na novela Rei do Gado

O poeta participou

Da novela Renascer

No rádio e na TV

Poesia declamou.

 

59

O governo federal

Na Pessoa, o Presidente

Convida então o poeta

Para lhe dar um presente:

Medalha Zé de Alencar

Ao mestre que canta lá

E cá nos deixa contente.

 

60

Antes do Pássaro voar,

Assaré o homenageou,

Uma festa bem bonita

E sua cidade criou

Pro pai de Nanã, menina,

Inspiração Nordestina,

Seu Memorial fundou.

 

61

Patativa um certo dia

Provou de uma crueldade,

Foi preso em Assaré,

Desacato a autoridade,

E da grade da prisão

Não perdeu a inspiração

Vendo um pássaro em outra grade.

 

62

O passarinho ora preso

Em gaiola pequenina,

O poeta do outro lado

Comparou a sua sina,

A patativa está triste,

Pois cantar já não resiste

Nem voar pelas campinas.

 

63

Você presa pra cantar,

Eu preso porque cantei,

Não consigo ser alegre

Cantar bem eu já não sei,

A minha voz desafina,

O meu verso desatina,

Minha lira não tem grei.

 

64

O poeta Patativa

Com a força do seu repente

Cantou para o seu povo

Políticos e presidente,

Movimento de protesto

Tinha sempre o seu atesto

Pra defender sua gente.

 

65

Falava de economia,

Fez crítica ao plano real,

Sofria com a injustiça

No aspecto social,

Quis um Brasil diferente

Que valorizasse a gente

E a livrasse do mal.

 

66

Lutou pela inclusão

Do seu povo nordestino:

Precisamos dar valor

Homem, mulher e menino,

Repartir com igualdade,

Para o homem da cidade

O campo vai “repartino”.

 

67

Ele assim fotografou

Com sentimento e beleza

As cores do seu sertão,

A festa da natureza,

Mulher torcendo algodão,

Trabalhando pro patrão

Com sofrimento e tristeza.

 

68

A bela mulher morena

Não deixou de relatar,

Sua fala e seu jeito,

Sua forma de amar,

Sua gente e seu valor.

O homem trabalhador

No seu verso vem rimar.

 

69

Uma vez nosso poeta

Falou para um jornalista

Um pouco de sua história,

Não quero perder de vista

Tudo que ele relatou

Sua vida, como amou,

As lutas e as conquistas.

 

70

“Eu acho que o poeta

É uma criação divina,

É coisa que nasce feita,

Cada um tem sua sina,

Eu nasci para rimar

Como o coração pra amar

E o gado para a campina.

 

71

Eu não sei como explicar,

A poesia é um dom.

Há muitos que nascem ruim

E poucos que nascem bom,

 Nasci para ser poeta,

Deus só faz a coisa certa,

Cada música tem seu tom.

 

72

Quando fala de amor

Tem muita recordação,

De história da infância,

Coisas do seu coração,

De “Maria da Gulora”,

Cita o lugar, a hora

De sua grande paixão.

 

73

Disse nunca ter sofrido

De nenhum mal de amor,

Mas voltando à infância

O poeta se lembrou

Que no tempo de garoto

Com o seu jeito maroto

Sua paixão revelou.

 

74

Fruto da imaginação,

Do tempo das brincadeiras,

Brincando de se esconder

Uma menina trigueira

Flechou o seu coração

Abraçou-se a um pilão

Caso ela não me queira.

 

75

Patativa era poeta,

Recitava pro povão,

Mas quando era provocado

Falava com erudição

Com versos metrificados

Procurava dar o recado

Sem esquecer um refrão.

 

76

Parecia os Lusíadas

Na sua versificação

 De Camões, o Lusitano,

Patativa do sertão,

E ambos eram caolhos,

Tempero do mesmo molho

Quando toca na emoção.

 

77

Era mestre no soneto

Como fez o “poetinha”.

Cantava a mulher amada,

O protesto sempre vinha,

Na poesia matuta

O verso era a batuta

Que o mestre sempre tinha.

 

78

Os Sertões que eram de Euclides,

Patativa decantou,

Os campos e as cascatas

Ele viu e visitou,

Chão rachado, ressequido,

Nunca fora esquecido,

Terra que o poeta amou.

 

79

As serras e seus rochedos

Moldurando a paisagem,

Vegetação caatinga,

Guardava toda imagem,

O sertanejo matuto

Enfrentando o bicho bruto

O feijão cheio de vagem.

 

80

Retirante sem destino

Nas estradas do sertão,

Coberto pela poeira,

Carregando a solidão,

A dor que leva no peito

Parece não ter mais jeito,

Seu amor, sua paixão.

 

81

O homem pássaro cantou

Tudo que na terra tem,

História de valentia,

Falou do homem de bem,

Não esqueceu Lampião,

Que andou pelo sertão

Dando pão a quem não tem.

 

82

O padim Ciço Romão

E a beata Maria

Na cidade Juazeiro

Com a sua romaria

Recebia Lampião

E dava a sua benção

Fosse de noite ou dia.

 

83

O poeta Patativa

Foi fenômeno real,

Mente privilegiada

Pra fazer um recital

 Sabia tudo de cor

Desde o tempo da vovó,

Perdido no milharal.

 

84

Era fã incondicional

Do poeta candoreiro

Admira Castro Alves,

Sua obra por inteiro,

As vozes d’África ressoa

Como sapo na lagoa

E o Navio Negreiro.

 

85

De Antônio Conselheiro,

O beato do sertão,

Nosso poeta mantinha,

Por ele admiração,

Nas andanças que fazia

Com as suas romarias

Pregando sua visão.

 

86

Dizia com a certeza,

Pois tinha convicção

Que o sertão ia virar mar,

O mar ia virar sertão,

Usava frase de efeito,

Batia forte no peito

Como se fosse oração.

 

87

O poeta era a grandeza,

Ma se achava pequeno,

Ele mesmo é quem diz,

Grande é Juvenal Galeno,

Muitas vezes relutei,

Mas um dia terminei

Poema pra ele fazeno.

 

88

Do poeta Juvenal

Tudo que fez eu guardei

Num canto bem reservado,

Nada dele esquecerei,

Um altar de poesia,

Isto não é heresia,

Diante dele ajoelhei.

 

89

Do poeta Zé Limeira

O homem pássaro falou,

Poesia desbaratada,

O Zé Limeira ganhou

A fama de absurdo

E ninguém ficava mudo,

Valor a cada um dou.

 

90

Em São José do Egito,

No solo pernambucano,

Conheceu o clã Batista

Louro, Dimas, não me engano

Ainda tinha o Otacílio,

Que era bom nos trocadilhos

E em galope alagoano.

 

91

Do solo paraibano

Destacou Mané Xudu,

Rápido no improviso

E liso como muçu,

Sua viola afinada,

Tinha uma língua afiada,

Tal espinho mandacaru.

 

92

Era um poeta antenado

No mundo da cantoria

Prezava Geraldo Amâncio,

De Oliveira ele dizia:

Esta panela está cheia,

Como o sangue na veia

O que corre é poesia.

 

93

Entre os grandes cantadores

Ele sempre tirou prova,

Temos Pinto de Monteiro,

Ivanildo Vila Nova,

Que faz sopa do repente,

Bota o elo da corrente

Com rima, versos e trova.

 

94

Quando falava de estudo

Ele tinha frustração,

Pouco freqüentou a escola,

Deu só a primeira lição

Por achar que o professor

Nada nele despertou

E não tinha prontidão.

 

95

Reconhecia, porém

Que fora alfabetizado

Por aquele professor,

Que o nome não é declinado,

Com o livro de Felisberto,

Tornou-se muito esperto

E se acha realizado.

 

96

Era sócio honorário

Do Museu de Gonzagão,

Por quem mantinha respeito

E muita admiração

Pelo cantor de Exu

Do sertão do Pajeú,

Gonzaga rei do baião.

 

97

Jackson Antunes, ator global,

Artista, grande mineiro

Gostava de Patativa,

 O menestrel brasileiro,

Que cantou para doutores,

Elogiou trabalhadores

  Sem cobrar nenhum dinheiro.

 

98

Na novela Renascer

Num set da gravação

Recitei de Patativa

Embalado na emoção

O seu poema: Eu Quero

Com um gesto bem sincero,

  Passou na televisão.

 

99

E alguns dias depois

O ilustre diretor

Trouxe ao vivo e a cores

Este grande trovador,

Emocionou toda gente,

De uma forma diferente

Um poema recitou.

 

100

Juntei-me com o poeta

Em pleno sol da manhã,

Um homem e um menino,

Que também era seu fã,

Pessoas embevecidas

Ouvindo sobre a vida

E A Morte de Nanã.

 

101

Senti que ao mesmo tempo

Meu corpo, transformação,

O sertão dentro de mim

Batendo no coração,

Virei terra, virei mar

 Com o poeta a rimar,

Tudo era emoção.

 

102

Nesta terra brasileira

Tudo que se planta dá,

Ela é fértil em cultura,

No roçado e pomar,

É rica em poesia,

Fartura de alegria

N’arte de representar.

 

103

O homem pássaro cantou

Nas feiras de Assaré,

Todos que o escutavam

O aplaudiam de pé,

Sua poesia, pura,

 Sentimento sem mistura,

Oração, reza ou fé...

 

104

A poesia brotava

Como a semente no chão,

Sua mente era fértil

Em rima e inspiração,

Era uma planta viçosa

De belas flores ou rosas

   Em solo de irrigação.

 

105

Patativa tinha um canto

Que resistia a tudo,

Mesmo vivendo ameaça

Ele nunca ficou mudo.

Pra defender sua gente

Brigou até com presidente,

Embora sem ter estudo.

 

106

Era uma fonte natural

De um saber inconteste,

Defendia o seu povo

Da fome, guerra e peste,

Guardava no coração

Tudo qu’era do sertão,

Amava o cabra da peste.

 

107

Era cego de um olho,

Porém enxergava bem,

Nunca faltou em seus versos

Tudo que na terra tem,

O canto do passarinho,

A juriti em seu ninho,

Carro de boi e o trem...

 

108

Sua vida era simples

Lá na Serra de Santana.

Ao contemplar a paisagem

Patativa se inflama

No mais puro sentimento

Com canto, dor e lamento

A terra que tanto ama.

 

109

Como semente no chão,

Seu coração está plantado,

Tudo fez por sua terra,

Sua história é um legado,

Nunca vamos esquecer,

Ela irá permanecer

Num lugar aqui bem guardado.

 

110

O homem pássaro voou,

Vislumbra outra aurora,

Patativa hoje canta

Todo dia e toda hora

Junto de Nosso Senhor

Usufruindo do amor

Perto de Nossa Senhora.

 

111

O encontro estava marcado

Pra uma cantata no céu

Juntou-se ao velho Lua

Nosso grande menestrel,

Ao som de Triste Partida

Sua poesia é ouvida

Em Sorbonne por Cantel.

 

112

Quem fez da vida um canto

Em prol de todo oprimido,

Quem foi ouvido na terra

Lá no céu será ouvido,

Tribunal celestial

Patativa é alto astral

Por Deus é muito querido.

 

113

Cantou todo o seu sertão

Com a maior maestria,

Falou das coisas da terra

Do homem que mui sofria,

Do patrão que explorava,

Daquele que mendigava

O pão pra sua famía.

 

114

O homem de academia

Patativa provocou:

– Você é homem de letra

Sabe porque estudou,

Mas não conhece o sertão

Das coisas do coração

Do campo cheio de flor.

 

115

Venha conhecer comigo

Um problema muito agudo

Do homem que é sertanejo,

  Que pouco tem de estudo,

Comida não tem na mesa

Conhece bem a pobreza

Do mundo provou de tudo...

 

116

Sabe o que é precisão,

Fome braba já provou

Que o couro da barriga

Na espinha encostou,

A dor e o sofrimento,

É triste faltar o sustento,

Mas nunca se entregou.

 

117

Nos Sertões Euclidiano

Já podemos constatar

Que este homem é forte

Igual a onda do mar,

Chora, mas não se entrega

O sofrimento carrega

Onde quer que possa está.

 

118

Toda história de sua terra

O homem pássaro cantou

Em poesia singela

Que parecia uma flor

 Coroando o sofrimento

Jogando perfume ao vento

Num poema de amor.

 

119

Quem fez da vida um canto

Continua a cantar,

Cada lugar uma lembrança

Que a mente faz registrar,

Nunca será esquecido

Este pássaro querido,

Cante lá que eu canto cá”.

 

120

O meu canto é só saudade

De sua “triste partida”,

Saudade que virou dor

E dor que virou ferida,

Canto para encantar

E a saudade enganar,

   É o canto que me dá vida.

Esta história não tem Fim

 

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Revisão: Francisco Diniz
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