A Herança de Mãe Vó Querubina
Literatura de Cordel
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A Herança de Mãe Vó Querubina
Autor:
Francisco Diniz

Santa Helena-PB, 09/01/04, 13/01/04
João Pessoa-PB, 01 de maio de 2004
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E-mail: literaturadecordel@bol.com.br


No ano 2004,
Dia 09 de janeiro,
Na casa de Querubina
Com alguns dos seus herdeiros
Foi feita reunião
Pra medir o seu terreiro.

Quer dizer, as suas terras
Pra fazer a divisão
Já tinha gente querendo
Ter sua parte do quinhão
Pra vender, pra criar pasto
Ou fazer uma plantação.

Eu vim lá de Santa Helena
Junto com tio Raimundo
Por volta de 7 e meia
E ainda mais alguns segundos
Com destino ao Pé Branco
Nós dois ganhamos o mundo.

Lá encontramos Santana,
Daniel e Zacarias;
Tio Doutor e tia Antônia
E Javé com alegria
Brincava com Pedro Júnior
Assim começava o dia.
01

Elineto chegou depois,
Passamos a conversar
Mas só depois do café
Decidimos começar
Realizar a medição
Pra em seguida partilhar.

Foi determinado o início
Na Serra da Cachoeira
Ou Roça do 38
Para a medida primeira
Pegamos foice e corrente
Numa passada maneira.

Ninguém estava com pressa
Nem do chapéu se esqueceu
Levou-se uma garrafa d'água
E o sol não se temeu
Fomos ouvindo as mentiras
Que Elineto aprendeu.
02

Chegando na Cahoeira
Desmontou-se a corrente
Tio Doutor cortou a braça
Tio Raimundo de repente
Disse que tinha 10 palmos
E ordenou que a gente

Esticasse a corrente
E medisse para saber
Quantas braças ela dava
Só assim íamos poder
Agilizar o trabalho
Que tínhamos para fazer.

A corrente possuía
Em toda sua extensão
Certas 37 braças.
Passamos a medir o chão
Começando do poente
No tronco de um mourão.
03

Zacarias e Doutor
Iam seguindo à frente
Um limpando o caminho
O outro esticando a corrente,
Eu carregava a garrafa
Lembrava Mãe Vó, ausente.

Elineto na outra ponta
A corrente segurava
Zacarias punha o toco
Perto à cerca e fincava
No chão e tio Raimundo
No caderno anotava...

A quantidade de braças
Que media aquele chão
E assim devagarzinho
Após toda anotação
A gente ficou sabendo
O total da medição:
04

425
Braças lá no poente;
112 braças no sul;
Já as braças do nascente;
417
Pra dividir entre a gente.

44 braças ao norte;
Põe um fim na medição
Nas terras da Cachoeira
Digo sem confusão
E quem quiser confirmar
Os tocos tão lá no chão.

Nesse 09 de janeiro
À tarde fomos medir
As braças lá do Baixio
Que eu vou citar aqui:
162 ao norte
Eu mesmo fui conferir.
05

179 ao sul;
53 ao nascente
E a medida menor
Foi 31 no poente
O trabalho prosseguiu
Veja o que vem à frente...

Agora em 13, janeiro
Foi quando nós retornamos
Elineto não pôde ir
Mas nós 4 caminhamos
Fomos medir o Catraio
No nascente começamos:

139 braças
Contamos na ocasião;
Ao norte 183;
No poente havia então
Exatas 104 braças;
No sul, veja a seguir então:

185
Foi o que Raimundo anotou.
Terminado o trabalho
Todo mundo descansou
E só depois do almoço
A luta recomeçou.
06

Desta vez pra mensurar
O Carrasco do Baixio
Que fica atrás da casa
De Vital, que nos pediu
Pra ficar com aquela parte
E assim a gente mediu.

Ele trocou a sua parte
Que fica na Cachoeira
E abriu mão do Baixio
Onde a terra é de primeira
E herdou todo o carrasco
Pra viver com a companheira.

Isso se a tia Francisca
De São Paulo se mudar
Pra retornar ao Pé Branco
Depois que se aposentar
Eu só sei que os seus filhos
No torrão não vão morar.

O Carrasco de Vital
Ficou então demarcado:
90 braças ao norte,
42 braças do lado
Que chamamos de nascente
E também foi anotado
07

Tudo que no sul havia
Em braças 91
E finalmente medimos
No poente 31
Assim fôra conferido
Não esquecemos nenhuma.

Concluído o Carrasco
Fomos ao Baixio medir
Pra entre os 8 herdeiros
Exatamente dividir
Já que Vital nessa terra
Não poderia residir.

Cada um dos 8 citados
No Baixio recebeu:
8 braças e 8 palmos
Ao norte foi o que deu;
Nascente: 53
Foi o que se percebeu.
08

12 braças e 02 palmos
Ao sul, esse o total;
Poente, quarenta e duas(42)
Foi a medida final
Todos ganharam um pouco
E cada um ganhou igual.

Só a terra atrás do balde
Ficou faltando medir
Mas como são poucas braças
Tio Doutor ficou de ir
Junto com tio Zacarias
Para poder conferir.

Esse pedaço no balde
Não deve ser dividido
Pelo que foi conversado
Não faz mesmo sentido
Repartir tão poucas braças
Ele deve ser vendido.
09

O dinheiro apurado
Será feita divisão
Entre os 9 da família
Não vai ser nenhum montão
Agora se tivesse petróleo
Ninguém venderia não!

Na medição do Catraio
Raimundo veio sugerir
Deixar uma parte da terra
Pro herdeiro construir
E quem sabe fazer uma vila
Num tempo que há porvir.

Próximo à casa de Mãe Vó
Essa terra é situada
À frente, um pouco à direita
Ela foi avaliada,
Dá umas 5 tarefas
Mas falta ser mensurada.

E ainda no Catraio
Santana solicitou
Pra deixar duas(2) tarefas
Pra Bidonga, que ficou
Com Mãe Vó desde bebê
E todo mundo concordou.
10

Em tudo que nós fazemos
Estamos a aprender
E na medição dessas terras
Comecei a entender
Como se conta as tarefas
Raimundo estava a dizer:

Some as braças do sul
Com as do norte contadas; (S+N)
Depois poente e nascente (Pt+Nt)
E das somas anotadas
Multiplique a primeira (SN.PtNt)
Pela segunda somada.

O resultado você deve
Por 4 multiplicar
Desta forma facilmente
A gente vai encontrar
A quantia de tarefas
Que num certo terreno há.

E na medição no Pé Branco
Todo mundo interessado
Subiu e desceu ladeira
Fingiu-se não estar cansado
Agora preste atenção
Quanto deu todo o roçado:
11

Nas terras da Cachoeira
Mediram aproximadamente
52 tarefas; (52.540)
No Baixio deram somente
11 tarefas e meia; (11.457)
No Catraio, veja à frente:

São 35 tarefas
E quase oitocentas covas; (35.769)
Tio Raimundo anotou
Com ele estão as provas
Aqui só faço o registro
Nestas minhas simples trovas.

Após todas medições
Cada herdeiro percebeu
Cerca de 11 tarefas(10.807)
E duas Bidonga recebeu.
Todos ganharam igualmente
Veja como aconteceu:
12

Tio Vital no Catraio:
5 tarefas e meia (5.529)
E mais 5 e duzentas (5.285)
Na terra chamada feia
Ou, Carrasco do Baixio
Que é chão de pouca veia.

Já para os demais herdeiros
A divisão foi certeira:
Mais de 6 tarefas e meia (6.567)
Nas terras da Cachoeira;
3 e meia no Catraio; (3.529)
E no Baixio que é de primeira...

709 covas.
Foi até fácil medir
Deu mesmo pouco trabalho
Mas se era pra repartir
Que guardemos na lembrança
Este registro aqui.
13

As terras de Querubina
Deram aproximadamente
105 tarefas
Mas que daqui para frente
Repartidas entre os filhos
Serão um pouco somente.

E essas terras divididas
Para Argemiro ficaram,
Para Doutor e Santana
Que tanto nelas lutaram,
Para Daniel e Vital
E ainda também herdaram:

A minha mãe Dona Lica,
Delaíde, Zacarias
E finalmente Julinha.
Nesta lista estaria
Dôra como herdeira
Mas cedo se foi um dia.
14

Talvez um ou outro herdeiro
Queira sua parte vender
Mas pra preservar a memória
De Mãe Vó, eu vou fazer
O possível pra comprar
Basta dinheiro eu ter.

Embora hoje o Pé Branco
Esteja deserto, esquecido
Para muitos seja como
Um terreno velho, perdido
Não penso desta maneira
Eu não me dou por vencido.

Quando houver investimento
Num projeto, irrigação
Que dê ao homem do campo
A devida atenção
O Pé Branco e o Nordeste
Terão outra condição.
15

Enquanto esse tempo não chega
Vamos continuar lutando
Para adquirir recursos
Sempre objetivando
Aos poucos ver nossa terra
Da seca se libertando.

E se libertando também
De político enganador
Que promete, que corrompe,
E ainda faz o favor
De pôr lixo em nossa porta
Em caçamba ou trator.

Vamos lutar contra isso
Em prol do nosso lugar.
O Pé Branco é nossa herança
Não se pode abandonar;
Vendê-lo, só pra herdeiro
Esse é o meu pensar.

Aqui termino o cordel
Fazendo uma solicitação
Aos herdeiros de Mãe Vó:
Vamos manter nosso chão
Esse é o nosso patrimônio
Que o estranho não ponha à mão.
16
FIM

Francisco Ferreira Filho Diniz
Santa Helena-PB, 09/01/04, 13/01/04
João Pessoa-PB, 01 de maio de 2004
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