O DIA EM QUE O DIABO VISITOU POCINHOS, cordel de Tiago Monteiro Pereira.
Literatura de Cordel
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O dia em que o diabo visitou Pocinhos

Digitação e correção ortográfica: Marineuma Oliveira (83) 3245-2412
Diagramação, editoração e revisão: Francisco Diniz (83) 9927-1412 tim / (83) 8862-8587 oi

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Dedicado a:
Djanete Monteiro
Thammyris Monteiro
Vó Nenzinha
Mellina Miranda

AGRADECIMENTOS:
João Alexandrino
Lindberg Farias
Mirella Miranda
Marta Angélica

Pedidos a Tiago Monteiro Pereira
Rua: Antônio Monteiro da Silva, 291
Bairro do Mercado - Cep. 58.150-000
Pocinhos - Paraíba
Fone: (83) 3384.1281
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O meu nome é Tiago,
não estou querendo ser rei,
apenas vou relatar
uma coisa que sonhei,
sei que tenho o direito,
só não sei qual é a lei.

Aconteceu numa noite
em que dormi perturbado,
estava com dor de dente,
estava meio amuado,
quase não pego no sono,
pois estava preocupado.

Mas felizmente dormi,
depois de muito aperreio,
enfim, começou o sonho,
não sei quem estava no meio,
só sei que o diabo queria
vir a terra a passeio.

Foi juntando os seus troços,
fez toda preparação,
chamou todos os seus súditos,
fez a anunciação,
perguntaram: " - Quando vais?"
Ele disse: " - Não sei não!"
-1-

Indagaram que país
ele iria visitar,
ele disse: " - Estou na dúvida,
ainda vou analisar,
não sei se vou pro Brasil
ou se vou para o Catar".

Ele fez uma pesquisa
e passou uns dias pensando,
viu as bombas no Catar,
foi logo se assustando,
resolveu ir pro Brasil,
queria voltar sambando.

Gostava de carnaval
e isso deu um empurrão,
amava o futebol,
era uma grande paixão,
e sabia que o Brasil
era pentacampeão.

Então, estava decidido,
vinha mesmo pro Brasil,
já estava preparado,
com o coração a mil,
se é que ele tem um,
acho que o dele sumiu.
-2-

No início da viagem,
começou o sofrimento,
queria vir de avião,
pense num enxerimento,
adivinha em que ele veio...
Foi montado em um jumento.

Foi uma longa viagem,
durou mais que minha vida,
entrava e saía rua,
descia por avenida,
o capeta já estava
Com a bunda toda doída.

Depois de mais de cem anos,
percorreu todo o caminho,
a bunda não agüentava,
tive pena do danadinho,
e por azar dele mesmo,
veio parar logo em Pocinhos.

Fizeram a maior festa
quando o diabo chegou,
compareceu até o prefeito,
junto com o governador,
e até na difusora
Dona Neves anunciou.
-3-

Chamaram Geraldo Porto,
com a banda marcial,
fizeram um coquetel,
uma espécie de bacanal,
o diabo bebeu tanto
que ficou passando mal.

Acabou-se o coquetel,
fizeram uma carreata,
tinha mais de trinta carros
e até carros de lata,
preto, branco, verde, azul,
roxo, cinza, rosa e prata.

O diabo disse ao povo:
" - Vou conhecer a cidade
e não quero companhia,
quero ir com liberdade,
eu vou logo ao colégio
e depois à Caridade".

Quando chegou ao colégio,
o povo se espantou,
só se ouvia gritos
de aluno e professor,
vigia e merendeira,
secretário e diretor.
-4-

O diabo foi ao mercado,
com o suor dando na telha,
encontrou umas mulheres
falando da vida alheia,
saiu correndo de lá,
com medo de levar peia.

E depois disse ao povo
que mercado nunca mais,
só tem velha fuxiqueira,
vivem falando por trás,
fuxicam de todo mundo,
falam até do satanás.

Depois foi ao Cajueiro,
visitar um conhecido,
subiu pedra, desceu pedra,
ficou todo esmorecido,
o danado andou tanto
que ficou todo doído.

Não tinha tomado banho
e estava no maior grude,
mas quando o cabra tá ruim,
não tem ninguém que ajude,
só chegou um gaiatinho
e jogou ele no açude.
-5-

Foi o maior sofrimento
pra tirar ele de lá,
jogaram até uma bóia
pra ele conseguir nadar,
depois de muita peleja,
ele pôde se salvar.

Quando já estava salvo,
disse ao povo obrigado,
tinha que trocar de roupa,
pois estava todo molhado,
e se não secasse logo,
pegaria um resfriado.

Então foram lá na rua,
deram uma roupa sequinha,
era um vestido verde,
decorado com bolinhas,
daqueles bem extravagantes,
parecendo os de Nenzinha.

Então seguiu o passeio,
lá pras bandas do Cruzeiro,
entrou na sede de Bastinho,
deu uma de bagunceiro,
levou um murro na boca
que quebrou o dente queiro.
-6-

Era a maior confusão,
dentro daquele buraco,
bateram nele com copo,
com tamborete e com taco,
o desgraça apanhou tanto
que ficou com o corpo fraco.

Conseguiu sair da briga
com o olho todo inchado,
o braço com uma pereba,
os dentes todos quebrados,
foi lá na delegacia
e deu parte ao delegado.

Depois da delegacia,
foi visitar o Lixão,
entrou logo num boteco
e deu uma de brabão,
levou foi uma carreira
dos cabras da Estação.

Cansado de apanhar,
resolveu ser um ator,
na peça "Paixão de Cristo"
fez um teste, não passou,
nem para ser ele mesmo
aquele diabo prestou.
-7-

O teatro não deu certo,
mas ele não desistiu,
foi tentar ser dançarino,
num grupo que lá surgiu,
mas nem pra ser a Catirina
o miserável serviu.

E para ser um artista,
só restava uma opção,
a carreira musical
tem grande admiração,
não sabia o que escolher,
se teclado ou violão.

Não queria tocar sax,
muito menos bombardino,
queria um professor
para aprender violino,
disseram que o cabra certo
era o João Alexandrino.

Então chegou lá em João,
alegre, achando graça,
queria aprender logo
pra se amostrar na praça,
depois de quase um mês,
só aprendeu a tomar cachaça.
-8-

Nada aprendeu de música,
foi grande a decepção,
chorou lágrimas de sangue,
quase entra em depressão
e prometeu a si mesmo
nunca mais ir lá em João.

Depois desse sofrimento,
de tudo tinha receio,
tinha medo da polícia,
era grande o aperreio,
mas superou tudo isso
e seguiu o seu passeio.

Então subiu pra CONPEL
e entrou num bar esquisito,
perguntou como era o nome,
disseram Bar do Periquito,
tinha tanta briga lá
que só se ouviam os gritos.

Dançou muito com as meninas,
dando uma de gostosão,
quebrou um monte de garrafa,
mijou e cuspiu no chão,
botaram ele pra correr,
Com revólver e facão.
-9-

Saiu correndo de lá,
parecendo uma pata,
desceu uma rua escura,
desapareceu na mata
e só veio aparecer
dentro do Rabo da Gata.

E por azar do coitado
encontrou uns maloqueiros,
fazendo umas coisas erradas,
bancando os bagunceiros,
levou outra pisa grande
de um bando de maconheiros.

Depois dessa outra surra,
resolveu se converter,
foi na igreja dos crentes,
perguntaram se ele crê,
ele respondeu que não,
Botaram ele pra correr.

Então saiu da Assembléia
e foi na Universal,
estava com muita sede,
bebeu a água batismal,
fez uma bagunça grande
e saiu de lá no pau.
-10-

Dentro da Universal,
só não morreu por um triz,
não conseguiu ser pastor,
muito menos aprendiz
e resolveu ser católico,
lá da igreja matriz.

O padre foi benzer ele
e pegou em sua mão,
disse umas palavras lindas,
uma bonita oração,
o capeta quase chora,
era grande a emoção.

Comeu a hóstia sagrada,
corpo do Nosso Senhor,
vomitou a igreja toda,
enjoou com o sabor,
o padre disse: " - Meu Deus,
Me acuda, por favor!"

As velhas se revoltaram
com raiva do satanás,
deram uma surra nele,
daquelas que o cabra cai,
já tava todo lascado,
não queria apanhar mais.
-11-

Conseguiu sair de lá
com ajuda do sacristão,
o povo tava na rua,
numa aglomeração,
e só então percebeu
que era ano de eleição.

Estava havendo um comício
do partido do PT,
pediram no microfone
para ele comparecer,
subiu no carro de som,
começou a debater.

O carro de som era fraco,
não agüentou o seu peso,
caíram trinta pessoas,
por sorte saiu ileso,
a baderna foi tão grande
que uns cinqüenta foram presos.

Não queria ir pro xadrez
e correu da confusão,
saiu correndo na rua,
pelo beco do Zungão,
se perdeu pelo caminho
e foi parar lá no Sopão.
-12-

Depois de encher o bucho,
ele tornou a andar,
queria uns companheiros
para poder conversar,
parou na Boca Maldita
e começou a prosear.

Depois de quase uma hora,
o papo tinha acabado,
tinham falado de tudo
ninguém tinha escapado,
falaram do promotor,
do juiz e delegado.

Depois disso se cansou,
queria uma caminha,
procurou um quarto vago
dentro do hotel de Finha,
antes de dormir comeu
arroz doce com sardinha.

Quando ele se deitou,
Finha foi logo cobrar,
o coitado estava liso,
não tinha como pagar,
ela chamou os fogueteiros
e ele teve que chispar.
-13-

Foi na Pocinhos FM
para denunciar o fato,
falou para toda a cidade,
espalhou-se o boato,
nunca mais foi lá em Finha,
preferia dormir no mato.

Isso foi um blá-blá-blá,
não sei nem como acabou,
comentaram na Sucesso,
a notícia se espalhou,
até na Caturité
Ubiratan avisou.

O diabo fez confusão,
queria até processar,
arrumou um advogado,
começou a analisar,
mas depois de pensar muito,
resolveu deixar pra lá.

Continuou o passeio
na cidade de Pocinhos,
conhecia quase tudo,
só faltava um pouquinho,
então apressou os passos
pra dar tempo ver tudinho.
-14-

Conheceu a Caridade
e também o hospital,
foi lá no Parque das Pedras
pra conhecer o local,
viu tudo e achou bonito,
mas saiu de lá no pau.

Foi lá na praça de novo,
continuou na ativa,
era um cabra informado,
era uma pessoa viva,
foi assistir a uma sessão
na Câmara Legislativa.

Entrou e sentou num banco,
deu uma de inteligente,
fez umas perguntas bobas
para testar os presentes,
nenhum soube responder,
nem o próprio presidente.

Depois chegou o prefeito,
falou mais de meia hora,
o povo gostou da fala,
só não gostou da demora,
o diabo foi opinar,
botaram ele pra fora.

Ele ficou muito triste
com o fato acontecido,
disse que foi humilhado,
tinha sido ofendido,
mas depois de algum tempo,
ele já tinha esquecido.
-15-

Era a Semana Santa,
de Cristo e não de Buda,
no Sábado de Aleluia,
a cultura não se muda,
tinham que arrumar alguém
pra pendurar como Judas.

Quando ele soube disso,
ficou logo assustado,
de certo iria ser ele
que iria ficar pendurado,
foi arrumando seus troços
e ficou logo ligado.

Vestiu uma roupa nova,
se emperiquitou de pó,
botou cela no jumento
e preparou um cipó,
sentou-se no lombo dele
e voltou pro cafundó.

Mas antes dele voltar,
deu um breve recadinho:
" - Um dia eu volto a terra,
mas vou por outro caminho,
pois enquanto eu tiver vida,
nunca mais venho a Pocinhos".

E justo nesse instante,
da minha rede eu caí,
assustado com o sonho,
eu disse logo: “ – Peraí,
eu vou fazer um cordel.”
E o resultado está aí.
-16-
FIM

O objetivo deste cordel é, unicamente, alertar os artistas pocinhenses a acreditarem
no seu trabalho e não esperar a boa vontade de alguns para reavivar nossa cultura.
Tiago Monteiro Pereira

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