Literatura de Cordel
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Poesias de Leontino Quirino da Silva
Santa Helena-PB


Maria Fumaça

I
O trem Maria Fumaça
Chega ao Canto de Feijão
As rodas vinham dizendo:
Café com pão, café com pão!

II
Corre menino com a jarra
Vá pra pedra da estação
Vender água e cocada
E também café com pão.

III
As moças também correm
Na ânsia de seus desejos.
Paqueram o moço do trem
Acenando com beijos.

IV
Desce o moço forasteiro.
Sobe um outro viajante.
Conhecer o mundo inteiro
Numa viagem constante.

V
Das janelas do trem
Vê-se o acenar das mãos.
E o povo nas calçadas
Bate forte o coração.

VI
Bota lenha, bota água
Na caldeira do trem.
Os que vão sentem saudades
Saudades sinto também.

VII
Este foi o último trem
Que partiu pra capital
Quando verei outro trem
Maria Fumaça ou "Bacurau"???
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Meu flamboyant

I
O meu pé de flamboyant,
Bem em frente da capela,
Suas flores avermelhadas
Eram bastante belas.

II
A beleza dessas flores
Encantava a namorada,
Tão minha e que eu a amava
Nas noites enluaradas.

III
Planta que me deu sombra
No pingo do meio-dia,
Já morta salvou-me a vida
N'uma tarde de agonia.

IV
Foi-se o tempo e a flor
Flamboyant meu grande amigo.
Em seu lugar nasce uma torre.
Meu coração morre contigo.

V
Oh! Capela Santa Helena!
Minha querida Matriz,
Por que mataram minha planta?
Planta que me fez feliz.

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Minha terra, minha gente

Minha Terra, minha gente
Do meu Canto de Feijão
De Joaquim Alves de Oliveira
Fundador deste torrão
Minha terra tão amada
Onde canta a passarada
Ao amanhecer do outro dia
E o povo também canta
Minha terra amada e santa
Nesta grande melodia.

Da via-férrea nascera.
De ferro sempre será
Minha terra hospitaleira
De um povo popular.
A caçula navarrense
Tão bonita e sorridente
Só feita por natureza
Sua luta é nossa luta
Heroína absoluta
És formosa e tens grandeza.

Seus rios para o leste
Contemplam o sol nascente
É quando o povo em festa
Grita e canta alegremente
- Viva! Viva nossa cidade
De esplendor e liberdade
No nosso alto Sertão
Oh! Querida Santa Helena
Minha terra tão pequena
Mas grande de coração.

Minha terra tem planície,
Tem baixios e carrascos.
Ela é rica e muito fértil
Corre no tempo e no espaço
E o povo na agricultura
Lutando pela fartura
Do arroz, milho e feijão
Trabalha o dia inteiro
Dando exemplo verdadeiro
Pro futuro da nação.

Nas matas da minha terra
Tem mofumbo e tem jurema
Tem uma fauna pequena
Bem junto do pé da serra.
O juazeiro que encerra
Na copa verde folhagem
Mandacaru, xiquexique
Resistindo a estiagem
E a carnaúba contente
Aplaude toda passagem.
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Nosso Banco do Brasil
Ano: 1989

Dois bancos administram a economia
De um povo que trabalha unido.
Um lucra seus milhões e é sabido
Com a inflação ascendente no dia-a-dia.

O outro é esperança. Não lucra mas, é vital.
Presta serviço ao homem da cidade e do campo
Perdoa dívidas, respeita cultura e o nosso canto
Pois este banco se é do povo, é Estatal.

O primeiro é privado. Vale mais seu ideal.
Trabalha para o homem que já possui seu capital.
Explora o cliente levando ao povo alienação.

O outro é o Banco do Brasil que no entanto
Rende poupança, ouro e investe tanto
E comemora, hoje, seu crescimento com a nação.

Obs.: Este soneto foi desclassificado no concurso do Banco do Brasil.

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O Operário Padrão

Sem saber o porquê
Fui expulso do campo
Pra não perder o CANTO
DE FEIJÃO na panela
Corri para a cidade
Fui morar em favela.

Eu construí escolas.
Eu construí capela.
Capela São João.
Escola Poeta José.

Abri estradas...
Ergui chaminés...

Chaminés que nos tiram
Do ambiente a pureza.

Estradas que nos roubam
A riqueza
Do meu torrão.

Inventei ogivas nucleares...
Rasguei coração.
Fui pra guerra
Exterminar nação
...Por qual razão?...

Voltei maluco,
Sem compaixão.

Só não passo fome
Fome de porco
Porque minha filha
Vende seu corpo
Pro PATRÃO!

Obs.: Esta poesia participou de um concurso promovido pelo
Banco do Brasil, no ano de seu aniversário, 1989, em Santa Helena-PB.

Julgamento:
Prefeito Daciano deu nota 01,
Gerente do Banco do Brasil, Batista, deu nota 03,
Esposa do gerente deu nota 03,
Chiquinho do PT deu nota 03,
Os três amigos do Prefeito seguiram o prefeito.
Total......................13
Prêmio: Um litro de vinho.

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Para Raimundo Santa Helena

1-Eu me chamo Leontino
Oito letras tem meu nome.
Subindo nesta mangueira
Nenhuma manga eu como
Saboreio poesias
Com a Elaine, com Maria,
Reginalda e muitos homens.

2- Eu ouvi numa revista
A voz do senhor Raimundo
Santa Helena que eleva
Nossa gente a todo mundo
No poder do seu cordel
É nordestino fiel
De sentimento profundo.

3- Raimundo é cordelista
político sim, senhor
milita no PKB
Porque tem muito amor
Qualquer árvore é sede
Não há medida que mede
A força do seu valor.

4- A força do seu cordel
Já chegou ao Canadá,
Europa e Pólo Sul.
Só falta em Marte chegar.
Um E.T. muito valente
Encomendou mil repentes
P'ra seu filho estudar.

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Quatro acrósticos à namorada

Eu na praça
Não tem graça
Isolado com uma taça
Levo o coração a dor.
Do pensamento eu faço
Aspirar morango e flor.

Eu sinto saudade
Nos fins de semana
Imponho a minha mente
Lembrar que tu me amas
Distante, muito longe!
Ah passado! Que me chama!

Em menos de um segundo
Nos teus braços chegarei
Invocando teu perfume
Lisonjeador eu serei
Diante de ti somente
Adorando-te, bem sei.

Emoções que me abalam
Neste mundo sem fim
Invejando os que se amam
Lembro você junto a mim
Do aroma de alfazema
Assim, tão longe, é ruim.

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Quem dá mais?

- É urgente cidadão,
Me compra esta galinha.
Quero remediar minha filha
Que está tão doentinha!
- Perdão minha senhora,
Eu quero vender as minhas.

- Seu João queira comprar
Esta galinha pedrez,
É pra comprar meizinha
Pra minha filha Inês.
- Lamento não comprar,
Pois aqui já tenho seis.

Já bati de porta em porta,
Ninguém quis me ajudar.
Vou dar a Santa Helena
Para a minha filha salvar.
Foi um milagre mesmo.
Vi Inês a escramuçar.

À noite, fui pra novena,
Pagar a promessa feliz.
Depois, fui ver o leilão,
Bem em frente da matriz.
Vi a galinha subir
Após cinco cordunizes.

Quem dá mais? Quem dá mais?
Gritava o homem no leilão.
Dez?...Quinze?...Vinte?...Trinta?...
Quem arrematou foi o João.
Com o dinheiro da Galinha,
Eu comprava um caminhão.

Terminada a grande festa
Volto ao sítio Cajueiro.
Pela estrada ia pensando...
Quanto esbanjo de dinheiro!
Engraçado!... Faltou pra mim!
O que sobrou pro cavalheiro...

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Sucessão política

Entra ano,
Sai ano,
Dar-se ano,
Outra vez, não!

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Coisas da Ciência

Vem aí com rapidez,
As descobertas da ciência.
Seus inventos cortezes,
Dos homens de inteligência.

O homem criou a pólvora,
Rifles, fuzis e canhões,
Criou também a bomba
Que destrói muitas nações.

Gastam dinheiro com armas
Que matam os nossos irmãos.
Ó Deus, isto é uma desgraça!
Como teremos o perdão?

Vejo dinheiro perdido
No fabrico dos canhões,
Uns morrendo na guerra,
Outros morrendo sem o pão.

Como teremos a paz,
Se a guerra continua?
E como se salvará,
O povo de pele crua?

Obs.: 1º lugar na semana cultural do ano de 1978, em Santa Helena-PB. _________________________________________________


Braszileirando
Ano: 1989

Um Marimbondo maranhense ziniu no meu ouvido:
Zum...Zum...Zum!...
Falou de uma pátria gigante.
A oitava economia do planeta.
Recorde em produção de grãos!
Pecuária?! Ouro?! Aço?! Metais?
Indústria bélica? E aviação?!
Zum... Zão... Zum... Zão!!

Acreditei e delirei!
Liguei a televisão... Festa!
Carnaval! Lança Per(fumo)!
Foot(bola)! Goool(zado)!...

Eram milhões no delírio global!
Vozes da mídia... Confundiam-me!
E na rua?
Multidões caminham, cantam, protestam e, com faixas, re(clamam):
- "A dívida externa foi paga com vidas de crianças pobres."
- "Reforma urbana para garantir moradia."
- "Terra pra quem trabalha a terra."
- "Abaixo a inflação."

Sinto fome de justiça para os crimes de COLLORinho branco.

Consultei a enciclopédia da vida
E encontrei um Brasil paupérrimo!
O qüinquagésimo nono lugar em pobreza secular.
Refleti... Refleti... Dois Brasis?! Z ou S?
Brasil deriva de brasa. Para sermos brasas, precisamos ficar vermelhos.
Fiquei vermelho. E na agitação, meu grito e nossos gritos:
- Acorda Brasil!... Estão tirando o ouro de teu berço esplêndido!...
- Levanta Brasil!!! Estão COLLORcando Z no seu nome!...

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DADAISMO

Eu sou ninguém,
Ninguém sou eu.

Na Índia, eu sou pária indiano;
Moro nas pedras do sertão paraibano.

Jogo pedras para cima, uma há de ser minha.

Todos de branco ou outra cor
Foram ao aniversário do ano novo
Fiquei só, no velório
Do meu velho amigo!
2003 / 2004

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Meninos

Leontiev e Raíza
Eu sou vós e vós sois eu
Ou o Deus nos concedeu?
Na noite em que a brisa
Tão suave, e a Enilda
Imitando o beija-flor
No hospital aflorou
O "TIEV" e a Raíza.

Ler, brincar, chorar e rir.
Este menino está por aqui
Ouvindo, cantando a música
Não estou nem aí " To nem aí!
Tou nem aí. Quero banho
Imenso banho
E vocês vão ter que ir.
Vão ter que ir... vão ter que ir...
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Basto, Sebasto
Grande criatura
Não tens partitura
Mas sabes tocar.
Algumas baladas
Em um violão,
Adentrar corações
Com seu simples cantar.
Cantando "Emoções"
Vendo o mais longe
Sem ter a visão
Do Cristo-utopia
Para que um dia
Haja paz pra nação.
(Leontino Quirino da Silva).
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Baía,
Maria,
Nascera em que dia?
A oito de março,
Trazendo alegria.
Tu tens a bravura
De outras mulheres
Artesãs, camponesas
Ou operárias.
Tu és sertaneja
De cabeça ideal
Coração de doçura
Simplicidade universal.
(Leontino Quirino da Silva)
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As Pombas
(Leontino Quirino da Silva)
A serra é linda,
A de cor azul.
Não fico calado.
Subo ao Bargado
E vejo que a serra
É de outra cor.
É cinzenta, é verde
É caatinga, é "mina"
É sólida e desliza
Água, água cristalina.
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Regionalizando
(Leontino Quirino da Silva)
Não há quatro pontos.
Há uma linha circular.
Quero olhar o horizonte ao Norte:
Da Bertioga segue um cordão para o Leste:
Vejo São Gonçalo prosando com Santa Terezinha.
Quero ver a outra linha. A do Leste:
Vejo São José da Bonita a esquerda de Santa Helena.
Olho para o Sul: Não tem cordão.
Com ele amarraram São Sebastião.
E para Oeste?
São Vicente Ferré mostra o Boqueirão.
Ah! Aquele azul se mistura
Ao verde que me tiraram.
Ainda vejo as águas de Nair!
Obrigado São Francisco.
Das Pombas, Majestosas Pombas.

Tu não viste nada especial?
Não desanime. Só os poetas vêem
O que eu também não vi.


Por que o Cordel não morre?
1a. Resp. Porque está enraizado como a árvore baobá.

2º. Resp. Porque somos a Diáspora bíblica. Estamos espalhados pelo mundo, cultivando elementos básicos do cordel e sonhando em voltar a terra prometida ( Mais um "São Saruê").

Francisco ou Valentim
Ambos estão no espaço
Denunciando as "feras"
Desde o tempo do cangaço.
Injustiças sociais
E até site's banais
Protestam batendo o maço.

O ciberespaço tem
Tomado nosso Planeta
E cidadãos virtuais
Perderam suas canetas.
Navegam sem ter navios
Correm por cima de fios
Ver anjo tocar trombeta.

Francisco na internet
Expõe lindos cordéis
Valentim em Umari
Leva recital p'ro céu
Dar vivas a "Patativa"
E mais outros menestréis.

Jesus fugindo do Templo
Discutiu com os doutores
Valentim foi para a UVA
Mostrou os nossos valores
Da cultura popular
E dos seus grandes amores.

Zé Nilton, Pedro Ferreira
São repentistas de fato
Enfrentam os desafios
Há mais no anonimato
Sei que tem, vou descobrir
Depois eu faço um relato.

Vejam só que absurdo:
Contar estrelas de dia
O sol brilhar muito à noite
Sadam chefiar a CIA
Bush comendo beiju
Com Bin Laden e companhia.

Leontino Quirino da Silva
Santa Helena-PB.

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