Literatura de Cordel
Autores:
Valentim Quaresma
Francisco Diniz

Numa escola nordestina
Onde o sol sempre brilhou,
Aconteceu um diálogo
Entre o aluno e o professor
E o poeta viu tudo,
Escreveu e registrou.

Sete horas da manhã
A campaínha tocava,
Todos muito animados
A turma toda entrava
E um negrinho tristemente
Parado, ali ficava.

Num canto desconfiado
Era difícil falar,
Se acaso fosse abordado
Não queria se expressar
E suas respostas eram
Curtas e no singular

E na hora do recreio
O menino ia embora
Com os seus livros do lado,
Com ar de quem fácil chora,
Andava desconfiado,
Saía antes da hora.

Até que um dia seu mestre
Correu e o acompanhou,
Com um tom bem cauteloso,
Baixinho lhe perguntou:
- O que falta em sua vida?
E o menino explicou:

-Só vejo o povo falando
Muito mal da minha raça,
Fico sempre em minha casa,
Não quero sair na praça
Por isso que minha vida
É triste e não tem graça.

Para afastar meu tormento
Abro meu livro e vou ler
E a história só registra
O que eu não quero saber,
O branco é vitorioso,
O negro só faz perder...

E eu não agüento mais
Essa história de senzala,
Me dá um nó na garganta
Eu fico quase sem fala...
Por isso, que no recreio
Estou saindo da sala.

O professor fez careta
Uma lágrima desceu no rosto.
Pedrico, que era o negrinho
Pôs a mão em seu pescoço,
Disse: - professor não chore
Que o branco não tem desgosto

O mestre disse: - Pedrico,
Tu precisas aprender
Um pouco mais da história
Para poder perceber
Que nenhum livro daqueles
Foi escrito por você.

O branco dominador
Foi quem contou a história,
Em cima de tua cor,
Vieram essas "vitórias",
Sem o negro, o tal branco
Não tinha nenhuma glória.

Pedrico correu ligeiro
Foi agarrando a sacola,
Disse: Professor eu quero
Voltar já para escola
Vou aprender a escrever
Para contar minha história...

E contar a sua história,
Disse-lhe o professor:
É reconhecer vitórias
De sangue, coragem e dor
Que superaram a palmatória
Enchendo um povo de glória
Mas, que a escola não contou.

A maior de todas elas
Chamamos de resistência
Que sobrevive ao tempo
E apesar da violência
Onde houver luta dos negros
A lembramos com freqüência.

Ao falar de resistência
Lembramos do rei Zumbi,
De Mandela, de Dandara...
É tanta gente que se
Por acaso eu esquecer
Perdoe se eu não escrever
Alguém importante aqui.

Mestre Bimba em capoeira;
Um eterno rei no futebol;
Pixinguinha em nossa música
Ao tocar em Fá ou Sol
Promovendo uma bela acústica
Em sustenido ou bemol.

Os corredores do Quênia
Os lutadores de boxe.
O que lhe digo aqui hoje
Não é fantasia, nem trote.
Negro sempre é destaque
Em tudo quanto é esporte.

Um Machado de Assis
Nobre na literatura
Emílio, Gilberto Gil,
Símbolos, uma armadura,
Autênticos repredentantes
Da nossa vasta cultura.

Tem o Milton Nascimento,
Djavan e Alcione,
Benedita, Gonzagão,
Gente que não se faz clone
Seja um rei do baião,
Martinho ou Dona Ivone.

No samba que faz escola
Lá no Rio de Janeiro
Tem Paulinho da Viola
Que encanta qualquer terreiro
E na música regional
Do sertão à capital
Temos Jackson do Pandeiro.

Lá pros lados do estrangeiro
Muita gente é capaz
Gandhi, Martin Luther King
Bispo Tutu, sempre audaz
E tantos que sem o marketing
Morreram pregando a paz.

No reggae, um Bob Marley,
Naomi na passarela,
Uma Piná no carnaval
Não há negra mais bela
E pra enfeitar a televisão
Uma Pitanga na novela.

O negro é importante
Não se pode negar isto
Só gostaria de lembrar
Por Deus, ele é bem quisto
E se alguém duvidar
Hoje a ciência veio comprovar
Que é negro Jesus Cristo.

Diante desses exemplos
O aluno perguntou:
-E por que o preconceito
Meu querido professor,
Se conhecemos tanta gente
Importante da minha cor?

-A verdade é que o problema
Respondeu o professor:
-De uma maneira geral
O negro não conquistou
A riqueza, o capital
Pra ser tratado como igual
Por branco, político ou doutor.

Para isso acontecer
Muita luta ainda é preciso
O negro tem que estudar,
Que se amar feito Narciso
E em grupo se organizar
Para ampliar o seu sorriso.

O negro tem que aprender
A agir, esta é a lição.
Tem que exigir os seus direitos
Fazer cumprir a legislação
De que hoje está eleito,
Não escravo, mas cidadão.

Pois as leis estão aí
São elas que dão o poder
E são frutos de uma luta
Que não finda ao entardecer
Mas segue em hora e lugar
Quando se denunciar
O que não dá para esquecer.

E não dá para esquecer
O abandono, a injustiça,
A intolerância, o descaso,
Ser chamado de preguiça,
O preconceito, o acaso
E que há gente em paladiça.

Há que se lutar em busca
Da plena cidadania
Que significa salário,
Digno e não uma mincharia,
Ter saúde, educação,
Ser chamado de irmão
No escritório ou olaria.

O aluno ao ouvir isso
Disse: - “fessor” tem razão
O negro só vai ser visto
Com respeito e cidadão
Ao começar ganhar dinheiro,
Denunciar o que não está direito
E ter uma boa educação.

Pra essas coisas conquistar
E alcançar grande vitória,
Negro precisa lutar,
Valorizar a sua memória
E uma boa escolha ao votar
É um bom passo pra começar
A construir uma nova história.
FIM

Santa Helena-PB, 2001
João Pessoa-PB, 05/02/2002
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