Quadrilha Junina, cordel de Francisco Diniz.
Literatura de Cordel
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Literatura de Cordel - No 53
Autor: Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 06/07 de junho de 2006.

OBS.: ESTE CORDEL FOI PREMIADO, EM OUTUBRO DE 2006, COM O 1o. LUGAR
NO CONCURSO "NOVOS AUTORES PARAIBANOS", PROMOVIDO PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA.
MAS ATÉ HOJE NÃO RECEBI O PRÊMIO. OLHA QUANTO DESRESPEITO À CULTURA POPULAR.




Solenidade de premiação na UFPB do Concurso Novos Autores Paraibanos 2006/2007.


Salve, salve minha gente
Em cordel quero mostrar
A história de uma tradição
Que devemos preservar,
É a quadrilha matuta,
Um festejo popular.


Dançada no mês de junho
No Brasil e especialmente
Nos estados do Nordeste
Onde permanentemente
O povo se esforça para
Viver sempre alegremente.


A quadrilha é um misto
De teatro, música e dança
Onde aquilo que é cantado
A platéia embalança
E agrada do mais velho
À mais nova criança.


Baião, xote e xaxado,
Nosso forró pé-de-serra
São tocados por sanfona,
Só quem sabe é quem não erra,
O triângulo, a zabumba
Fazem o som da nossa terra.
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Uns dizem que foi na França,
Outros que na Inglaterra
Onde a quadrilha surgiu,
Mas aqui em nossa terra
Fora bem assimilada
Pelo homem do pé da serra,


Do sítio, vila, cidade
E a mulherada adorou,
Foi uma festividade
Que no Brasil se espalhou
E por resistir ao tempo
É sinal que tem valor.


Em 1808,
Fugindo de Portugal,
Navegando em caravela,
Chegou a Corte Real
Portuguesa ao Brasil,
Motivo, nada banal:


Napoleão Bonaparte
Ameaçou invadir
Portugal e quem tentasse
O comércio insistir
Com o povo da Inglaterra,
Era ordem a se cumprir.
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Dom João, rei de Portugal,
Manteve com a Inglaterra
O comércio, mas depois
Viu que ia dá em guerra,
Temendo Napoleão,
Aportou em nossa terra.


Com ele, além da corte,
Veio desenvolvimento,
A divulgação da arte,
Um certo investimento
Em cultura, educação
E festa a todo o momento,


Como as danças em palácios,
Lá da Europa trazidas,
Nos salões iam pessoas,
Só ricas e bem vestidas
Em seus trajes luxuosos,
Retratos de boas vidas.


Com o tempo o povo simples
Estas danças conheceu,
Mas não gostou do que viu
E por isso resolveu
Fazer uma adaptação,
Veja o que se sucedeu:
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A música lenta e suave
Foi logo modificada,
Entrou um ritmo mais forte,
Mais alegre e foi usada
Uma orquestra diferente
Da que era apresentada.


O piano deu lugar
À sanfona e também
À zabumba e ao triângulo,
Trio que sabemos, vem
Do nosso e bom forró,
Som bonito que entretém.


Foi o povo do interior,
O primeiro a dançar
A quadrilha desse jeito
E logo passou a usar
As roupas que eram então
Típicas do seu lugar.


Assim veio o chapéu de palha,
Vestido ou saia de chita,
A calça bem remendada,
Florada, mas bem bonita,
A camisa de xadrez,
Gravata e laço de fita.


A sandália currulepe,
Alpercata ou botina,
O lenço branco de seda,
Um toque de gente fina,
E também o xale de renda
No pescoço da menina.
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Outros tantos adereços
Enfeitam o povo a dançar
A quadrilha, que em pares
Passa a se apresentar
Festejando um casamento
E a colheita do lugar.


Celebra-se um casório
Que o noivo nunca quer,
Não importa se ele é feio,
Se ela uma bela mulher,
O noivo sem compromisso
No meio do arrasta-pé.


Geralmente o pai da noiva
É o coronel do salão,
É quem comanda a quadrilha
Festejando São João,
São Pedro e Santo Antônio,
O colher milho e feijão.


Monta-se o arraial
Repleto de bandeirinhas,
De balão, fita e palhas
De coqueiro, corda e linha,
Com palha de bananeira,
Soltam-se traque e chuvinha...


Soltam-se bombas e fogos,
Mas com o devido cuidado.
A fogueira já acesa
Aquece os namorados.
Faz-se adivinhação,
Come-se milho assado.
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Do matuto lá da roça
Mantém-se o linguajar:
Coroné, malino, sô,
Muié, paioça, trepá,
Traquino, besta, cagado,
Vixe Maria, lascar!


Enquanto a quadrilha ensaia
Sua apresentação
São preparadas comidas
Especiais à ocasião:
Pamonha, bolo, canjica,
Mungunzá, milho, baião.


Bebe-se pinga ou quentão,
É bom não exagerar,
Uma é suficiente,
Não é pra se embriagar
E em frente a fogueira
É fácil se encontrar...


Inda hoje as pessoas
Que uma tradição mantêm
Ao escolherem padrinhos
E as madrinhas também,
Pedem bençãos, cantam, rezam,
Pulam o fogo, dizem amém.
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É este o clima que envolve
Nossa quadrilha junina
Que no meio do pavilhão,
O coronel bem ensina
Os passos para a criança,
Pro adulto, jovem e à menina.


O idoso também dança,
Só quem não quer, fica fora,
Anavantur, Anarriê,
Balancê a toda hora
E no caminho da roça,
Meia volta e "vamo" embora!


E as duplas vão dançando,
As damas, os cavalheiros,
A noiva, o noivo, o padre,
A cigana, o seu parceiro,
Soldado, trabalhador
E a mulher do roceiro.


Tem criança, cangaceiro,
Tem príncipe e tem princesa,
Juiz, rainha do milho,
Sinhá-moça, camponesa,
Marinheiro e o coronel
Falando a la francesa.
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Forma-se uma grande roda,
O povo todo a gritar,
Olha a chuva, olha a cobra,
Vamos nos cumprimentar,
Fazer túnel e serrote
E o bom baião dançar.


Olha-se o balão subindo
E as estrelas do céu,
Agradecemos a Deus
Por não vivermos ao léu
E vez em quando se ouve
Um poeta de cordel.


Meu sonho é que a quadrilha
Nunca venha a se acabar,
Que haja festival, concursos,
Que todos possam dançar,
Mas com a preocupação
Pra não mais adulterar...


Os passos, as vestimentas,
A música que é tocada,
Pois tradição que se preza
Não gosta de ser mudada
E eu acho muito feia
Tradição estilizada.
-08-
FIM

Francisco Diniz
João Pessoa-PB, 06/07 de junho de 2006.

Veja aqui este cordel ilustrado por Leontino Quirino.

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