Relato do fim de um amor


Literatura de Cordel

Autor: Francisco Diniz
Santa Rita-PB, 01 de abril de 2003
Revisão métrica: 25/12/2007

Trechos deste cordel (de cor verde) foram musicados em 2011. Clique aqui para escutar.


Certo dia um amigo fui encontrar,
Que estava por demais amargurado,
Ele disse que vivia nesse estado
Porque via seu romance acabar
E pediu pr'um cordel eu inventar
Falando da sua desilusão.
Dias depois um ataque do coração
O impediu de ver o que escrevi
E o que passo a contar foi o que ouvi
Do amigo com muita emoção:

- Eu que sonho com o amor, com a canção,
Que me faça a tristeza esquecer,
Que permita acabar com o padecer,
Travestido em horrenda solidão,
Desejo reviver grande paixão
Ser querido e também mui desejado,
Pois é bom ser bem visto, admirado,
Ter carinho e chamado de meu bem
E se longe, a certeza que alguém
Tem saudade e espera como amado.
1

Pois não há sensação mais agradável
Do que ter uma pessoa que te adora,
Que acorda com um sorriso na aurora
E pouco se esforça pra ser amável,
Carrega uma expressão sempre louvável
De doçura, desejo e alegria.
Quando o barco navega em calmaria,
Demonstra possuir compreensão,
Caso enfrente o imprevisto de um tufão,
Que lhe roube o sossego e a economia.


Eu me sinto quase um moribundo
Porque ousas dizer não ter o amor,
Não vês nada aqui além da dor,
Mergulhas num egoísmo profundo
Negas o meu existir neste mundo
Fazes assim um sonho perecer
Deste que sofre e em cada dia ver
O quanto é maltratado um sentimento
Visto que já não há um só momento
Que demonstras afeto e bem querer.
2

Quem sou eu, sempre em dificuldade,
A não repudiar tal situação,
Reagir com a devida indignação
Contra toda esta infelicidade.
Assaltas riso, paz e a vontade
De viver intensamente o amor,
Não demito por justa causa a dor,
Que infesta de mágoa, um coração,
Percebo que é debalde a paixão
Insisto em viver o desamor.


Por que conscientemente vou calar,
Sendo tratado como inimigo,
Se até hoje tenho sido um amigo?
Suporto o mau humor, o não amar,
Quase sempre estou a enfrentar
O olhar com desprezo, indiferença
Sou uma simples e banal presença
E para as aparências bem manter
Sufoquei imensamente o meu querer
Em nome da esperança e da crença.
3

Medito, não explico este tormento
O porquê de não provocar o desejo
Da minha amada não tenho um beijo,
Um olhar com carinho, um cumprimento
De bom dia, boa noite e eu lamento:
Não foi esse o amor feito pra mim,
Desconfio que ele está chegando ao fim
Posto que ela não me vê como um bem
Tempo passa, dia vai, o outro vem
E o que era bom já não é assim.

Fui feliz quando o amor me arrebatava,
Com volúpia ela assim retribuía,
Ao falar ela sempre me ouvia
E não sei se bem eu a escutava,
Se entendia o que ela enxergava,
Se fazia o que devia fazer,
Se buscava após todo amanhecer
Desfazer as incompreensões banais,
No mundo não só há cartões postais,
É difícil o dom de compreender.
4

Não dispondo dessa compreensão,
Não é fácil simplesmente aceitar,
Ver o carinho dela assim se acabar,
Também não dispor de sua paixão.
Ela por mim não sente atração
Já não posso apreciar sua beleza,
Seu corpo é tal uma fortaleza
Uma aproximação não me permite,
Que piora inda mais minha artrite
E deixa meu corpo sem a leveza.

As vezes quando tento dar-lhe um beijo
Ou o seu rosto acariciar
Em resposta ela faz é se virar
Demonstrando a ausência do desejo
Tempo passa, nada muda e eu nunca vejo
Transparecer nela o mínimo amor,
Adormeço suportando uma dor,
Pois à noite ela ao se recolher,
Boa noite tem sequer a dizer
E não posso outra coisa lhe propor.
5

Aceito isso por acreditar
Que apesar de tudo há fidelidade
Sigo numa alarmante saudade
Que algumas vezes fico a chorar
Sinto, mas a quem devo reclamar?
Pois o amor é difícil questão,
Não é falta de reivindicação
Que o desalento se desfaz ou muda
Caso fosse eu teria toda a ajuda
Pr'acalentar, abrandar o coração.

O sentimento não correspondido,
Abarca o mundo, implode o coração,
Pois quem amo tem por mim aversão
Esqueceu-se do que fora vivido
Ando triste, infeliz e abatido,
Penso que nojo venho a causar.
Sinto falta de poder lhe abraçar,
De andar de mãos dadas simplesmente,
Contemplar o luar de antigamente
Não perder o desejo de sonhar.
6

Eu acho que mereço ter o amor,
Mas sinto perto a separação
Que é angústia, amargura, solidão,
E saudade, eu direi: - foi o que ficou,
Que por certo trará tristeza e dor,
Porém tenho certeza isso passa,
Pois se o vento carrega a fumaça
Que restou do fogo que não há mais,
O tempo é aliado e contumaz
E ajuda aquilo que fracassa.

Mas penso que o tempo ainda irá trazer
Momentos onde reine a alegria,
Onde eu viverei em harmonia
Com alguém que me veja com prazer
E que possa feliz então dizer,
Que sou aquele que enfeita a sua vida,
Sou o afeto, o porto, a guarida
E dia-dia mostra que me ama,
Não por ter a riqueza ou mesmo fama,
Mas por ter alma pura e enriquecida...

7

Que sabe por demais valorizar
O silêncio, a virtude, a natureza,
O caráter, o ingênuo, a beleza
Que há na chuva, no sol ou no luar.
Sendo assim, por que vivo a lamentar,
Sofrer por amor que não me quer bem,
Que desfaz do sentimento também
Causa-me dor, grande infelicidade?
Mas não reclamarei mais de saudade,
De passado, presente ou do que vem.

Ao contrário, irei agradecer
Por Deus ter algum tempo permitido
Que nosso amor ganhasse sentido,
Direção, alegria e bem querer,
Mas o cansaço veio a me vencer
Não insistirei mais em exortar
A você para proporcionar
O amor que um dia eu sonhei,
Peço desculpas porque incomodei
E vou atrás de outra para amar.
FIM
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Francisco Diniz
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