O SONHO DE UM NOVO TEMPO, cordel de Francisco Diniz.
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O SONHO DE UM NOVO TEMPO
O Relato da Trajetória de Luta de um Grupo de Amigos nas Eleições de 1996 em Santa Helena - PB.

Autor:
Francisco Diniz

Colaboração: Leontino Quirino da Silva
Santa Helena - PB, 07.01.2004
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1 - Político sério é difícil
Mas corrupto tem demais
Que engana, que promete
Na verdade nada faz
Em benefício do povo
E só pensa em roubar mais.

2 - Não vou falar do contumaz
Mas de uma política diferente
Que pregava honestidade,
Respeito a nossa gente
Queria que o ser humano
Vivesse independente,

3 - Que fosse bem consciente,
Que soubesse escolher
Bem os seus representantes
E vivia a defender
Educação e justiça
E o cumprimento do dever.

4 - Buscávamos sim o poder
Para de fato ajudar
Ao homem trabalhador
Que vivia a penar
Por isso que um certo dia
Pensei em me candidatar.

5 - Após muito meditar
Avisei pra minha mulher
Ela logo retrucou:
- Quem você pensa que é?
Você já viu povo votar
Num coitado, Zé Mané?
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6 - Nós vamos se Deus quiser
E se o povo desejar
Mudaremos o destino
Dos pobres do meu lugar
Assim eu lhe respondi
E comecei a aprontar...

7 - As coisas para mudar
De volta pra minha terra
Deixei trabalho e projetos
Para enfrentar a guerra
Que era alertar o povo
Desde a rua até a serra.

8 - Assim saí da capital
E retornei ao Sertão
Carregado de sonhos
Para enfrentar a pressão
De uma vida onde havia
Pouca remuneração.

9 - Trouxe uns poucos recursos
Montei uma serigrafia
Os meus pais me ajudavam
E muito mais todo dia
Minha querida companheira,
Minha maior alegria.

10 - Ela que nunca aceitara
O meu louco ideal
Nem muito se envolveu
Com a questão social
Mas sempre me acompanhou
Nessa luta desigual.
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11 - Lauro com quase 3 anos
Foi quando Matheus nasceu
Por conta dos compromissos
Ele também não recebeu
A atenção que devia
Isso me entristeceu.

12 - Reunimos em nossa terra
Um grupo de companheiros
Para partilhar idéias
Foi o trabalho primeiro
Depois o planejamento
Pro município inteiro:

13 - Valorizar o roceiro,
Lutar pelo educador,
Pelo meio ambiente
E agir sem destemor
Contra a corrupção
Em tempos de frio ou calor.

14 - Pregar sempre o amor,
Atuar com transparência
Mostrando as contas públicas
Mês a mês com eficiência
Na praça central da cidade
Pra acabar com a indecência

15 - Que se via com permanência
Na ação de antigos gestores
Que usavam o que era do povo
Igualmente a predadores
Pensando somente em si
E esquecendo os sofredores.
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16 - A todos trabalhadores
O plano fora mostrado
Na praça, associação,
Pra jovem, aposentado,
Igreja, rua, escola,
Para pobre e abastado.

17 - Em todo lugar visitado
Levava-se a cultura
Apresentada por criança
Também por gente madura
Num trabalho comunitário
Mostrando uma propositura.

18 - Onde a candidatura
Era as vezes comentada
Durante exposição
De sanfona e falada
No teatro e poesia
Numa bela caminhada.

19 - A vereda foi traçada
Dois anos nessa peleja
Em sítios e em distritos
Se hoje a gente verseja
Sobre a luta que passou
Ainda há quem apedreja

20 - A nossa lida mas, veja:
Só porque somos carentes
Da condição financeira
E até mesmo parentes
Zombaram da nossa cara
Por trás e até na frente.
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21 - Isso evidentemente
Era muita ignorância
De um povo acostumado
A só dar a confiança
A político que compra voto
E vivia de festança.

22 - Contra toda essa lambança,
Contra a corrupção
Saímos de porta em porta
Chamando a população
Para ao menos refletir
Uma outra opção.

23 - As vezes o cidadão
Chegava com uma história
Que desprezava a nossa
Coerente oratória
E o que passo a relatar
É o que me vem à memória:

24 - - "Deixa chegar a política?"
Diz com raiva o cidadão
"Quando o político vier
Na porta apertando a mão
Na minha casa eu direi
Cadê o dinheiro patrão?

25 - O senhor preste atenção
O sistema é voraz
Candidato para mim
Tanto fez ou tanto faz
Só que meu voto é caro
Vendo por dois mil reais."
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26 - Já um vereador que conheço
Diz: - "Olha eu queria ser
Honesto, mas nosso povo
Vem até a mim se vender
Batendo na minha porta
Que mais eu posso fazer?

27 - O que tenho a dizer
É, entre faça o favor!
Deixa o seu título aqui
Tome cá o seu valor
Mas depois que eu for eleito
Esqueça onde estou".

28 - A gente sempre lutou
Contra essas atitudes
Queríamos mostrar ao povo
Que havia melhor virtude
Honestidade ainda existe
É a maior vicissitude.

29 - Vivíamos a visitar
Por todo o município
E no Del Rey do meu pai
Que ajudou desde o princípio
Em asfalto ou na terra
Enfrentando precipício.

30 - Íamos de bicicleta
Ou numa C-10 alugada
Com os tocadores em cima
E também uma criançada
Fazer apresentação
Com a turma toda irmanada.
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31 - A cultura era mostrada:
Dança, música, poesia,
Teatro e até capoeira
Na mais plena harmonia
Pra falar de uma proposta
Com coragem e ousadia.

32 - Baía lá no Pé Branco,
Raimundo nas Melancias,
Roberto na Várzea da Ema
E no Retiro todo dia
Estava lá Josimar
Fazendo o que podia,

33 - Valentim era a alegria
Na Bonita e em todo canto;
Leontino na cidade
Pregava que o acalanto
E que a saída era a escola
Pra salvar todos os Santos:

34 - Zé de Eva na Rua Nova
E depois veio se juntar
Gercicléia ao nosso grupo
Pra também colaborar
E difundir o ideal
Difícil de conquistar.

35 - No pingo de meio dia
Na casa de um cidadão
No sítio do Catolé
Queríamos sua atenção,
Um copo d'água, um assento
Para falarmos então
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36 - Da nossa proposição
Mas o homem nem mandou
Sequer a gente entrar
E ainda comentou
-" Vocês são um bando de doidos
O prefeito me falou!

37 - Escutem o conselho que dou
Desistam dessa loucura
A política por aqui
Já faz tempo que perdura
Quando não é um, é outro
Parem já de aventura!"

38 - No sítio da Rua Nova
Na casa de um senhor
Conhecido por "Tôzinho"
Nós pedimos por favor
Pra escutar nossas idéias
E o que queríamos propor.

39 - Ele muito se esforçou
E calado nos ouvia
Mas quando nós terminamos
Prontamente ele dizia
Que o candidato bom
Era aquele que vivia

40 - A fazer o que podia
Pra ganhar a eleição
Dando dinheiro ao povo,
Remédio, farinha, feijão
E passava a debochar
Do que falamos então.
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41 - O que mais se escutava
Era difícil engolir
Na cidade ou no campo
A mensagem a reluzir
Deixava a gente sem jeito
Era constante se ouvir:

42 - - "eu não vendo o meu voto.
Meu voto é de compadre fulano
A ele devo favor
Eu sou fiel, não engano
Eu nunca posso escolher
Um Zé Ninguém ou Beltrano".

43 - Lá numa localidade
Havia grande rejeição
A um certo candidato
E toda população
Casa por casa dizia
Nesse eu não voto não.

44 - Mas antes da eleição
Com a ajuda de um bicheiro
Que morava na cidade
Lá do Rio de Janeiro
Andava o tal candidato
Distribuindo dinheiro.

45 - Perto de Várzea da Ema
Na casa de uma mulher
Ela pegou-me num braço
E disse: - "Você é que é
O candidato a prefeito,
Faça o favor se puder?!"
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46 - Ao chegar no meio da sala
Olhando pra cima apontou
- "Tá vendo o meu telhado
E a situação como estou?
A casa pode cair
Ainda ninguém ajudou!"

47 - Começamos a falar
Sobre a corrupção
Que não trocávamos voto
Por material de construção,
Que sentíamos o problema
Mas não era nossa função.

48 - Ao conhecer a pobreza
Do povo sem esperança
Entendemos o porquê
Existe a desconfiança
Na promessa de corrupto
Que se veste de bonança.

49 - Nós não prometemos nada
De algum valor financeiro
Porém nos comprometemos
De usar bem o dinheiro
Gastando dignamente
Com os pobres, o tempo inteiro.

50 - Muitos queriam a proposta
Porém nela não votavam
Pois não tínhamos dinheiro;
Alguns se envergonhavam
Porque fizemos denúncias
Que tantos podres mostravam.
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51 - Outros diziam ter pena;
Uns: Eu voto escondido;
Amigos indiferentes
De mim haviam fugido
Com medo de ameaças
E de serem perseguidos;

52 - Diversos familiares
Até ficaram intrigados
Não entendiam a luta
Lembro de muitos irados
Temendo perder o emprego
Como assalariados.

53 - Os colegas de jornada
Enfrentaram dificuldades
Pressão no trabalho e família
E por toda a cidade
Pouca gente entendia
Que existia liberdade.

54 - Por isso que a gente estava
Pregando a transformação
Por isso que a gente estava
Querendo ver nosso chão
Entender que quem é pobre
Pode tomar decisão.

55 - Havia descontentamento
Com as lideranças locais
Não existia sindicato
Dos empregos municipais
Poucos se importavam
Com as causas sociais.
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56 - Mas o povo tinha medo,
Medo de se organizar
Principalmente quem estava
Na prefeitura a atuar
Isso causava revolta
Era difícil aceitar.

57 - Como era revoltante
Alguns detendo o poder
Cheios de privilégios
E tantos a padecer
Vítimas da corrupção
Sem ninguém pra os defender.

58 - Pensando nesses descasos
Passamos a conversar
Com todas comunidades
No intento de mostrar
Uma forma coerente
Para administrar.

59 - Usando da simbologia
Mudas distribuímos
Como um sinal de mudança
Acácias nós dividimos
Com quem quisesse plantar
Muitas sombras conseguimos.

60 - Devido ao nosso trabalho
De conscientização
Enfrentamos preconceito,
Sofremos perseguição,
Ameaças, indiretas
Que causaram aflição.
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61 - Um sujeito certa vez
Tentou nos intimidar
Marcamos reunião
Para do assunto tratar
Roberto mandou dizer
Vão vocês que eu vou rezar.

62 - Desde o início da campanha
Valentim fez uma poesia
Chamada Baião de Dois
Refletindo o que existia
Dois políticos se alternando
No poder era o que se via.

63 - O poema tinha objetivo
Somente de ajudar
A alertar o nosso povo
Que era preciso mudar
Para uma nova opção
Que estávamos a mostrar.

64 - O tiro pela culatra
Foi como ele saiu
E ao invés de ajudar
Piorou, pois o que se ouviu:
Que a nossa proposição
Foi negócio que faliu.

65 - Após ser anunciado
Como foi a votação
Fizeram uma passeata
E Mané com um caldeirão
Jogava nas casas da gente
Cozido de arroz e feijão.
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66 - Minha mãe disse: - "Eu não disse
Que isso era loucura!"
A minha sogra falou
De uma forma muito dura:
- "Ainda vai ser candidato?"
Era grande a minha agrura.

67 - Depois do pleito sofremos
Muita perseguição
Minha irmã perdeu o emprego
E vários outros cidadãos
Que estavam do nosso lado
Viveram a decepção.

68 - Poucos se envolveram
Realmente com a nossa luta
Aqui quero agradecer
Quem acreditou na labuta
E emprestou a sua voz
Na rua, no mato ou na gruta.

69 - Enaldo foi o primeiro
Que a causa abraçou
João Kléber não desistiu
Todo tempo ajudou
"Tatá da Obrigação"
Nunca se envergonhou,

70 - Bem como os meus irmãos
E outros menos conhecidos
Mas muitos dos meus parentes
Muito mal agradecidos
Com raiva até zombavam
Do que havíamos defendido.
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71 - Nós fizemos nossa parte
Nas portas ou no carro de som
Divulgamos uma idéia
Foi um tempo muito bom
Nunca guardamos rancor
De Dadá ou de Bombom,

72 - Muito menos das pessoas
Que na eleição nos reprovaram.
Só 175
Santa-helenenses votaram
Em nós em 96
Esses muito confiaram.

73 - A História se repetiu
Os ricos ganham o poder
E o que fizeram de novo
Eu nem preciso dizer
O povo sendo oprimido
Tendo pouco o que fazer.

74 - Talvez inda seja preciso
Mesmo muita água rolar
Pra maioria do povo
Não se vender ao votar
E em político humilde
E honesto acreditar.

75 - E enquanto esse tempo
Não chegar, vamos sonhando
Sem desistir dessa luta
Estaremos sempre tentando
Conscientizar nossa gente
De quem vive explorando.
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76 - Em nossa sociedade
Valoriza-se o Ter
Vale muito quem tem mais
Pouco importa o Ser
Quem é honesto mas, pobre
O povo não quer saber.

77 - Mas isso é compreensível
É uma questão de cultura
Lutamos pra que o tempo
Traga a desenvoltura
Onde o povo seja educado
E tenha outra envergadura.

78 - Ou seja, que saiba dar
Importância a valores
Como honra, dignidade
E despreze usurpadores
Que usam o poder do dinheiro
Para agir como atores.

79 - Plantamos em solo árido
Mesmo assim foi importante
Pois o cultivo de outrora
Poderá vingar adiante
Assim pensa o sertanejo
Otimista a todo instante.

80 - Foi como um risco n'água
Assim Valentim bem diz
E apesar do sofrimento
A luta me fez feliz
E agradeço a quem votou
Neste aqui, Nenen Diniz.
FIM - 16

Francisco Diniz
Santa Helena-PB, 07 de janeiro de 2004
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