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Em 20/01/2012 20:12, ggxavier < ggxavier@bol.com.br > escreveu: Assunto: puizia

Prezados poetas,
Estou remetendo uma estória rimada que, a critério de vocês, poderá ser analisada e, se julgada merecedora, publicada em seu site;
Geraldo

Re: puizia
De: Francisco Diniz
Para:ggxavier
Assunto: Re: puizia Data:21/01/2012 00:12

Prezado amigo Geraldo,
Muito bom o seu cordel.
Publicarei seu trabalho,
Digno de um menestrel,
Porém preciso falar,
Só quando você mandar
Informações a granel...

De onde és, pra onde vais,
Qual o seu nome inteiro,
A data de nascimento,
Se és valente ou ordeiro,
Telefone, celular,
Mas conta pra eu pagar
Pode esquecer ligeiro.

Re: puizia
De: ggxavier@bol.com.br
Para: Francisco Diniz literaturadecordel@bol.com.br
Re: puizia Data:21/01/2012 07:40

Francisco,

Sou Geraldo Xavier de Oliveira, natural de Itabaiana (PB), nasci em 14/03/1951. Resido atualmente em Vitória da Conquista (BA). Aos 57 anos - e depois de três cursos abandonados - me formei em História. Minha monografia foi sobre o folheto como fonte historiográfica. Além de conviver com a poesia popular desde criança, trabalhei numa tipografia (do jornal A Folha), onde lidei diretamente com muitos poetas populares. Tenho um romance - Um olhar para trás - que venceu o prêmio Zélia Saldanha (2001), da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Atualmente faço parte da Academia Conquistense de Letras e da Academia Poçoense de Letras e Artes. Minha área preferida é a ficção, o romance; mas, nos momentos de folga e quando o assunto é palpitante, tento fazer versos, como esses:

O Ispêio

Zequinha de Filomena,
marido de Manuela,
foi um dia para a fêra
comprá as coisa prá ela.
Entre as coisa a sê comprada
tinha a mardiçoada,
a bendita da gamela.

A gamela inté foi fáci
di incontrá prá patroa.
Uma gamelona grande
pariceno uma canoa,
mai maió do qui beju,
toda feita im mulungu,
qui é madêra das boa.

Gamela, prá quem num sabe
li digo nesse momento:
é adonde os povo bota
a cumida, os alimento.
Sem sê de barro ou de frande
é uma vazia grande
onde os poico come dento.

Dêxa a gamela prá lá,
vamo falá de Zequinha
qui tinha ido prá fêra
prá fazê umas comprinha.
Só prá dona Manuela,
duas fita amarela
e um brinco prá mãezinha.
1

Tinha qui comprá tomém
prá sua mãe um nuvelo
de linha "corrente" branca
e prá dona Consuelo
ele tinha qui comprá
pelo meno um adidá
de ólho par' os cabelo.

Chumbo prá caçá lambu,
meio quilo de toicim,
uma caxinha de grampo,
uma dúiza de afinim,
a goma de tapioca
levá prá dona Maroca
um quilo de mudubim.

Já depôi das compra feita,
de comprá tudo da fêra,
Zequinha ficô na praça
fazeno ar de lezêra
e parô numa barraca.
Foi quano tossiu a vaca,
foi quano ele fez bestêra.

Na barraca, bem surtida,
qui tinha tudo im premeio
foi qu'ele viu uma coisa
qui tinha um lado vremeio
e o outo era brioso:
um obijeto formoso
qui os povo chamava ispêio.

Ele comprô o negoço
e ficô adimirado
num cansava de oiá
pru obijeto cumprado
e cada vez dava um ai,
pôi si alembrava do pai
qui há munto era finado.
2

Chegano im casa iscondeu
dento di sua maleta
prá num dá outo à muié,
nem fazê munta gazeta.
Sabia qui Manuela,
se visse, quiria o dela,
a coisa ia ficá preta.

E, todo dia, ele ia
oiá bem iscundidim.
Abria a mala e ficava
oiano no iscurim,
o coração dano ai.
Dizia: Papai! Papai!
E bejava o ispeim.

Inté qui um dia a muié
passô a discunfiá.
– Pru qui era qui Zequinha,
na hora di alevantá,
pensano qu'ela drumia,
pegava a mala e abria
e ficava a muimurá?

Apruveitano qui um dia
ele foi par' o roçado,
abriu a maleta e viu
o obijeto guardado.
Quano si viu no ispêio,
seus óio ficou vremeio
e cuage abuticado.

Gritô, chamano: – Mamãe!
Venha vê a disgracêra,
qu' o traste di meu marido
trouxe um dia da fêra!
Ô meu Deus, ô qui disgraça
mai hoje o dia num passa
qui eu faço uma bestêra.
3

– Vô preguntá pru safado
quano vortá da labuta.
Hoje aqui vai tê sangue.
Hoje aqui vai tê luta.
Vô preguntá: – Ô marido,
pruquê tu trai iscundido
o retrato dessa puta?

Ele vai tê qui isplicá
tudo tintim pu tintim.
Mi isplicá a disfeita
qui ele fez para mim.
Pruquê, mamãe, no momento
acho qui meu casamento
parece qui foi ao fim.

A véia, tomém chorosa,
oiava a cara da fia,
agarrada no ispêio,
gritando: Jesus, Maria!
Inté qui num supetão,
pulou e tumô da mão
da fia, a quinquiaria.

E quano a véia s' oiô
no ispêio, qui ispanto,
ficô tremeno na hora
pariceno inté quebranto.
Caiu pru cima da fia,
quebrô a mão e bacia
e as dua caíro im pranto.

– Minha fia, qui disgraça!
O qui tem acunticido?
Eu vô tê qui cunvessá
cum o tá di teu marido.
Imagine ele trazê
dessa feia de morrê
esse retrato iscundido!
4

– Minha fia, seu casoro
acho qui num tem futuro,
todo seu amô pru ele
foi jogado no munturo,
s' acaba de li trocá
pru outa qui é iguá
um maracujá maduro!

– Fia minha, mi adiscurpe
o qui tô li ispilicano.
Essa qui ele arranjô,
mi diga qui é ingano.
Cuma é qu' ele trocô
você, pru esse istupô
mai feia qui Cuca Gano?

Quano Zequinha chegô
a muié fechô a porta,
arrancano a tramela
e a véia, cum a mão torta,
batero intão do rapai
e só num batero mai
pruquê tavam cuage morta.

Zequinha só apanhava
sem sabê quá a rezão.
Era pau, chicote e rêio
no lombo do cidadão
inté qu'ele num guentô,
caiu, se isburrachô,
sistabacano no chão.

Quano Zequinha acordô,
consiguiu o zói abri,
a véia, d' ispêi na mão
e a fia sem si ri
dissero: – Agora é luta
mai a foto dessa puta
você vai tê qu' inguli.
5

Zequinha só pidiu água
rispirano feito fole,
pôi o ispêio na boca,
pensano qui era mole,
cum o zói isbugaiado
e a véia de oiá irado
dizia: – Vai, cabra, ingole!

Ele tentô inguli
mai o bicho num dicia.
Ele oiava prá muié
e a véia insistia,
cum o sembrante amuado:
– Ói aqui, cabra safado,
arrespeite minha fia!

– Agora você vai vê
uma muié de valô.
Trate de inguli tudo,
sem recei e sem temô.
O castigo qui sofrê
é pouco prá aprendê
a num sê namoradô!

Zequinha si ajueiô,
fez o siná, se benzeu,
pidiu pru todos os santo,
São Filipe e São Tadeu.
Cuage ia sufocano
cum mãe e fia impurrano
inté qui o bicho deceu.

Se inguli num foi fáci
imagine a saída.
Zequinha ficô desdia
cum a barriga criscida.
Cuage toda vizinhança
cada vez qui via a pança,
li chamava de parida.
6

Inté qu' um dia, o coitado
precisô fazê aquilo.
Atrepô num cajuêro,
no mêi do mato, tranquilo.
Rezô prá todos os santo,
era choro, reza e pranto
sem ninguém prá acudi-lo.

Puracaso ia passano
ali pru pert' um vaquêro,
qui ia atrás dum bizerro
fura-cêica e baguncêro
e, ao uvi os gemido
assuntô o sucedido,
a causa do disispêro.

Dibaxo do cajuêro
ele uviu o gemido
e quano oiô lá prá cima,
ficô munto istarricido,
meio bobo, meio mudo:
Era um vaquêro cum tudo,
só qui meio invertido.

Como tava mei iscuro
ele acendeu um facho,
alumiô o qui viu,
ficô cum cara de tacho.
E aí vêi um istalo:
er'um vaquêro, a cavalo,
de cabeça para baxo.

Ficô oiano prá cima
inté qui uviu um gemido.
Gritô: – Aima, apareça,
qui eu tô é privinido.
Foi quano Zequinha disse:
– Home, dêxe de tolice,
é eu qui tô intupido.
7

O vaquêro oiô di novo,
fitano a coisa no meio.
Oiô, tornô a oiá,
chêi de medo e receio,
já qui pru seu disispêro
ele, um pobre vaquêro,
num sabia o qu'era ispêio.

Mai, mêrmo assim, arriscô
o seu parpite, na hora:
– Cumpade, tu tá lascado
pelo qui eu vi agora.
O qui tá atravessado
é um vaquêro amuntado,
inganchado nas ispora!

– Ispiano bem mió,
oiano bem para a peça
posso li dizê agora
sem tê medo, sem tê pressa
e sem querê magoá-lo:
tô de ôio no cavalo
qui é qui me interessa.

– Óia aqui, meu camarada,
essa coisa cuma é,
o vaquêro, no teu rabo
parece qui tá im pé.
Si isprema inté rangi,
qui si o cavalo saí,
pago o preço qui quizé!
8
FIM

Geraldo Xavier de Oliveira
ggxavier@bol.com.br
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Em 21/01/2012 16:09, Francisco Diniz literaturadecordel@bol.com.br escreveu:
Prezado Poeta Geraldo,
Este Ispêio é fantástico. Se você autorizar posso expô-lo também em nosso site. Aliás, no show que irei fazer logo mais a noite poderei, com sua permissão obviamente, lê-lo. É uma obra prima. Sugiro que você, se ainda não o fez, comece a decorá-lo para realizar apresentações por aí a fora.

Att..
Francisco Diniz
Oi - 83 8862-8587
Tim - 83 9927-1412
www.projetocordel.com.br


Re: puizia
De: ggxavier
Para: Francisco Diniz
Assunto: Re: puizia Data:21/01/2012 19:11

Francisco,
Pode publicar e apresentá-lo.
Geraldo.