Banda Cabaçal Os Marias

Santa Helena – Paraíba

A Banda Cabaçal “Os Marias” do Sítio Umarizeiro, município de Santa Helena-PB, mantém uma tradição de tocar nas festas religiosas da cidade e sítios da região desde 1936. A história vem sendo repassada de pai para filho, irmãos e parentes do patriarca Pedro Maria, que tinha a preocupação de ensinar o pífano e os instrumentos de percussão: a caixa e a zabumba. A banda usa também o triângulo e o ganzá. Como o trabalho musical é em família as mulheres e crianças fazem o coral.

Os Marias se apresentam especialmente nas festas de Nossa senhora da Conceição, de São José, São João e de Santa Helena. Durante os dias de festas há todo um ritual. A família se junta para preparar o terreiro de dança e a alimentação para os convidados. Todos se organizam em procissão, usam carroças e animais com caçuás para carregar os alimentos doados durante o acompanhamento, que é o momento onde o grupo sai cantando da casa do pifeiro até um determinado lugar.  Muitas vezes na própria missa a banda toca e canta os hinos religiosos. Durante a noite acontece a festa dançante.

Atualmente a banda cabaçal Os Marias é composto de João Maria, no pífano; Francisco, na caixa; Raimundo na zabumba; Til no triângulo; Diassis e Heleno no ganzá.

A banda Os Marias tem resistido ao tempo e enfrenta, como todo artista da cultura popular no Brasil, sobreviver com os escassos apoios dos organismos oficiais da cultura.

Santa Helena-PB, 2002.


 

Entrevista de Francisco Diniz sobre a Banda Cabaçal, Os Marias, de Santa Helena-PB.
Para Raquel Pinheiro Dias, em 16 de setembro de 2013.

1° Fale um pouco sobre pífanos.
Trabalho conhecido também como banda cabaçal. É um grupo de músicos populares do interior do Nordeste brasileiro geralmente composto de dois pífanos (ou pifes), uma caixa (ou tarol),  zabumba, ganzá, triângulo, e em alguns lugares usam-se pratos(aqueles usados em bandas marciais). É a música do povo simples, com pouco poder aquisitivo, e que por isso, confeccionava seus próprios instrumentos e animava, desde o início, festas religiosas, mas também profanas.

2° Qual foi seu envolvimento com os pífanos?
Através de Leontino Quirino e Valentim Quaresma, meus parceiros desde 1995, quando nos debates sobre cultura, em Santa Helena-PB conhecemos João Maria, recentemente falecido, e seus familiares que tinham um trabalho muito antigo, mas que estava desativado. Conseguimos convencê-los a retomarem os ensaios e começamos a fazer apresentações juntamente com o trabalho de cordel.

O que levou você se envolver com os grupos de pífano?
Quando li a monografia de Valentim, que está em nosso site www.projetocordel.com.br vi um depoimento de Diassis Maria, quando estudante, demonstrando tristeza por não ver mais o envolvimento dos seus familiares com a banda de pífanos. E aí fiquei interessado em ajudar a resgatar esse trabalho.

Nesse projeto foi apenas você que se envolveu ou teve ajuda de outros componentes?
Leontino Quirino e Valentim Quaresma foram os que mais ajudaram, além da própria família Maria.

Os objetivos foram alcançados?
Em parte, e por um pequeno período, pois devido à distância não tive condições de acompanhar as atividades de ensaio. Infelizmente alguns componentes enfrentavam o alcoolismo e era muito difícil organizar os encontros, os ensaios. Coisa que Valentim e Leontino não conseguiram e nem mesmo João Cléber, como secretário de educação, apesar de ter tentado. No ano de 2008 consegui um cachê aqui em João Pessoa para o grupo se apresentar na festa do São João da prefeitura, mas o grupo não veio.

Qual foi seu interesse em trabalhar com os pífanos?
Ajudar a resgatar esta cultura belíssima, mas ignorada pelo seu povo, além de desconhecida da grande maioria.

Quais grupos foram apresentados e para onde foram?
Juntamente com o nosso trabalho de cordel fomos com os Marias à festa de São Sebastião, em Ipaumirim-CE e apresentação na praça em Santa Helena, fomos à UFPB, em Cajazeiras, à Universidade de São Francisco (a de Vera) e o objetivo era mobilizar as crianças e jovens dos Marias para não deixar morrer essa tradição. Foi replantada a semente, mas faltou o cultivo contínuo, a perseverança dos mais importantes nessa luta, os Marias.

Você gostou de ter trabalhado com os pifeiros?
Muito. Conseguimos até organizar uma indumentária branca para os integrantes. O nosso trabalho era poético, coisa de sonhadores. Não tínhamos apoio financeiro e o que fazíamos era vender cordéis e com o dinheiro arrecadado pagávamos o transporte e dividíamos o que sobrava com os músicos. Quando a venda dos cordéis era insuficiente nós fazíamos uma cota e pagávamos as despesas.
Sinto saudades, pois criei um vínculo afetivo com os Marias, mas confesso que também fiquei desestimulado. Das últimas vezes que fui à Santa Helena não consegui reunir os integrantes para ensaios. A desculpa era a mesma, o principal integrante, o pifeiro João estava doente, esta bebendo, e agora ele se foi. Sinto, pois muito foi perdido, mas é sempre assim: quando o querer não existe ou é muito pequeno pouco a gente pode fazer.

Francisco Diniz
www.projetocordel.com.br