Literatura de Cordel



O UNIVERSO DA QUADRA
Autor: Valentim Martins Quaresma Neto
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O mundo não é quadrado
Porque Galileu não quis.
São os loucos ideais
Que fazem o mundo feliz
Sei que tudo é permitido
Por Deus, o grande Juiz.

Se o mundo fosse uma quadra
Nele deveria ter
Uma trave e uma cesta,
Uma rede, pode crer!
Não para você dormir,
Mas pra ganhar e perder.

No ganha e perde da vida
Nós precisamos viver,
Ter casa para morar,
Educação e lazer,
Respeitar as diferenças,
Tolerar para conviver
1

O mundo não é quadrado
A quadra não é o mundo
Deus fez o mundo redondo
Com o seu amor profundo
A quadra só deixa a gente
Feliz por alguns segundos.

No universo quadrado
Da quadra da minha escola
Vou jogar bola com fome
Vou sentir fome de bola
Vou ficar mais animado
Quando pegar na sacola...

O meu mundo é uma bola
Dessa quadra eu sou freguês
Vou marcar pontos difíceis
Vou fazer cestas de três,
Também vou chutar a crise
Essa é a minha vez...
2

Vou sorrir e vou chorar
Ter raiva e diversão,
Vou reclamar do juiz,
Vou vibrar com o coração,
Correr de braços abertos
Ver meu time campeão.

A quadra estará presente
Na minha educação
Na pelada à tardinha
E quando houver reunião
Eu farei uma poesia
E direi com emoção:

Benditas mãos dos pedreiros
Dos mestres e dos serventes
Que edificaram essa casa
Pra dar abrigo pra gente
Vocês são abençoados
E devem seguir em frente...
3

Encenarei uma peça
Retratando minha lida
Ela servirá de palco
Para uma equipe aguerrida
Emocionar a platéia
E dar mais sentido a vida.

Pisarei nos quatros cantos
Tentando me divertir
Prepararei meu espírito
Pra entrar e pra sair
Só deixo de estar nela
No momento de dormir...

Essa quadra camarada
Abriga uma gente boa:
Negrinhos de pés descalços,
Dançando e dizendo loas
E jogando a capoeira
Que chega a perninha voa.
4

Dessa escola, meu amigo
A quadra é o coração,
Pois ela é o espaço
De lazer e união.
Vôlei, futsal, basquete
Palestra e reunião.

Você pode perguntar:
E quando não existia
A quadra dessa escola,
Sem coração se vivia?
E para a escola ser viva
Como tudo acontecia?

Não esqueça companheiro
Que isso aqui é Sertão
E tudo nesse lugar
Vai na garra e na paixão,
Pois o sertanejo faz
Das tripas o coração...
5

Já dizia meu avô
Bom de visão e de tato
Cabra que arrancou toco
Quebrou milho e limpou mato
-Quando não se tem cachorro
Pode-se caçar com um gato.

As caças não são as mesmas,
Mas vale a intenção
Principalmente se elas
Forem coisas do sertão
Mesmo nas dificuldades
Alimentam a paixão.

A saga do nordestino
Não é fácil de entender
Sua vida é um problema
Difícil de resolver,
Mas o sertanejo sabe
Que é preciso viver.
6

Pra viver ele faz tudo
Tira leite de lajeiro.
Riso estampado no rosto
Trabalho o tempo inteiro
Produz o pão, multiplica
E vai passando sem dinheiro.

Isso sempre aconteceu
E existe no dia-a-dia
Driblamos dificuldades
Com muita diplomacia
Porque temos fome e sede
De paz e sabedoria.

E essa quadra é o espaço
Para aluno e professor
Gingar, jogar, ter idéia,
Acreditar no amor
Esquecer a turbulência
E amenizar a dor.
7

É assim que se constrói
Um município ou nação
Acreditando nos simples,
Excluídos sem razão
A gente faz a história
E transmite educação.

Por isso não há palavras
Que possam agradecer
A todos que ajudaram
Tal construção a se erguer
Nosso muito obrigado
É o que temos a dizer!

Ao nobre trabalhador
Nossa terna gratidão...
E aqui eu faço o convite
Ame mais o meu sertão
E sinta a força e a poesia
De quem mora nesse chão.
8
FIM
Valentim Martins Quaresma Neto,
Umari-CE, março de 2002.
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