Literatura de Cordel
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AMARRADO EM NADA
Autor: Valentim Martins Quaresma Neto
Capa: Leontino Quirino - Santa Helena-PB

CORDEL PREMIADO EM 7º LUGAR NO I Concurso de Literatura de Cordel DA BIBLIOTECA MUNICIPAL BELMONTE, DE SÃO PAULO, EM 2005.


Eu fui nascido e criado
Numa terra seca e dura,
Comendo feijão com pão
E angu com rapadura
Sentido a dor da pobreza
Com precisão e fraqueza
Que corroem as criaturas.

No lugar que me criei
Pouco de bonito tem,
Bonito só é o nome
E o seu povo também
Respirei daqueles ares
E apesar dos pesares
Eu o amo e quero bem.

Enfrentando até o trem,
Tirando leite em lajeiro
Trabalhando no sol quente
Pra ganhar pouco dinheiro
Valentim é só mais um
Caso bastante comum
No Nordeste brasileiro.
-1-

Olhando pra meu passado
Eu avisto o meu avô
Com uma enxada no ombro,
Tecelão, agricultor,
Máquina de fazer poesia,
Árvore que dava alegria
Que o sertão seco gerou.

Como era um lutador
Transmitiu-me esse legado
De ter força pra lutar
E nunca ficar calado
Frente a inveja e a cobiça
Diante das injustiças
Vendo alguém injustiçado.

Meu verso é uma fortaleza,
Filamentos culturais
Que está na veia materna
Vinda dos meus ancestrais,
Uma arma poderosa,
Simples, meiga, melindrosa,
Soltando tiros de paz.
-2-

Do sertão ao litoral
Minha escrita é assim
Meu ideal é humano
Do princípio ao fim,
Vivendo sempre sem cobre
Quem fizer mal a um pobre
Está fazendo a mim.

O meu nome é Valentim
Me chamam - Mestre Valente,
Não gosto de valentia,
Sou um cara consciente
E através da poesia
Toda hora a cada dia
Dou com a língua nos dentes.

Querem me deixar contente?
Procurem fazer justiça,
Lutem pela liberdade,
Não dêem valor a preguiça,
Quem sabe a verdade apronta!
Não desejem além da conta
E digam não a cobiça.
-3-

Sofro muito a cada dia
Ao ver meu povo enganado
Sem esboçar uma ação
Pra poder ser libertado
Com a corda no pescoço
Isso me dá um desgosto
E me deixa indignado.

A saúde vai embora,
O coração perde o compasso,
A lágrima desce no rosto
Eu sinto um grande fracasso,
Mas a força da poesia
Cobre-me de energia
Torna-me um "homem de aço".

Como bezerro sem mãe
Meu verso berra no mundo
Chega ao ouvido dos homens
Num milésimo de segundo
Num eco de liberdade
Atinge o campo, a cidade,
O morro e o vale profundo...
-4-

Meu povo ouve o meu verso,
Mas não reconhece a voz,
Parado, não vai a luta
Numa atitude atroz
É uma infelicidade
E as mesmas dificuldades
Sempre pairam sobre nós.

Parece com o elefante
Que vi no circo outro dia.
Demonstrava tanta força
Que outro ser não conseguia;
Um caminhão sustentava
E o carro acelerava
Mas do lugar não saía...

E as pessoas do circo
Fazendo o número final
Subiram em número de quinze
Em cima do animal
E ele no picadeiro
Passeou todo faceiro
Dando adeus ao pessoal.
-5-

Puxado por um cabresto
Foi entregue ao domador
Que conduziu o gigante
E depressa o amarrou
Em um toquinho pequeno
E o animal sereno,
Parado ali ficou.

Ao observar tudo aquilo
Fiquei querendo saber
Por que o bravo elefante
Estava sem se mover,
Amarrado em quase nada,
Com tanta força guardada
Não a usava por quê?

E na oportunidade
Perguntei ao domador
Cadê a força feroz
Que o animal demonstrou?
Porque ficou tão parado?
E para ser libertado
Nenhuma força botou!
-6-

Ele me disse: - amigo
Eu vou dizer-lhe a verdade
Amarrei esse elefante
Com cinco dias de idade,
Ele pulou sem parar
Batendo pra se soltar
E não teve capacidade.

Isso já faz quinze anos
E ele preso ai ficou,
O toco ainda é o mesmo,
Sou o mesmo domador.
Tem muita força guardada
Mas está amarado em nada
Porque nunca mais tentou...

Eu me lembrei do meu povo
Que eu conheço e quero bem
E sei que ainda novo
É amarrado também
Pobre e desavisado
Vive sempre encabrestado,
Não sabe a força que tem...
-7-

Cometendo os mesmos erros
Em época de eleição,
Aceitando a mesma pinga,
A feirinha e o tostão,
Indo ao mesmo comício
E no mesmo sacrifício,
Sem lei, sem casa, sem pão...

"No planeta em que vivemos
Cada pessoa é um grão
De areia cintilante,
Mas não é como a multidão
Que é uma bola de ouro,
Um valioso tesouro
Que é fruto da união"...

        Vale a pena meu amigo
    Agir com sinceridade,
       Lutar pelo bem comum
     E enfrentar a maldade
   Na defesa do sofrido,
       Ter força, ser destemido
   E ganhar a liberdade.
FIM
-8-

Valentim Martins Quaresma Neto
Umari - CE, setembro de 2004.
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