Diversas Poesias

Tributo a Paulo Freire

Sentimento Poético

O Matuto Solteirão

O Pedido






Tributo a Paulo Freire


P
or enxergar a vida
Além de um horizonte,
Unir e fazer História
Levar o saber adiante
Onde poucos têm tal glória
      [Paulo Freire foi brilhante.



Fazendo a educação
Raiz da cidadania,
Elemento principal
Invento e sabedoria.
Rei do saber construtivo,
Eterno elemento vivo.
      [de paz, amor e alegria

Valentim Martins Quaresma Neto, em 01/01/2001

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Sentimento Poético

O poeta veio ao mundo
Para sentir, para crer.
Construir com as palavras
Edifícios de prazer.
Sentir o que o outro não sente
Mentir o que outro não mente
Vê o que o outro não vê.

O gato tem sete fôlego
O poeta tem setenta
Se faltar respiração
O poeta cria, inventa
Não morre asfixiado,
Pode até correr de lado
Ou andar em marcha lenta.

Pois quando está inspirado
Viaja com a poesia
Cheira o perfume da flor
Encontra a alegria,
A paz, o sonho, o amor
E tudo é fantasia.

Como é bom ser um poeta
Sereno, em paz, tranqüilo.
Tratando no dia-a-dia
Disso, daquele ou daquilo.
Cada poeta faz verso
Demonstrando seu estilo.

Valentim Martins Quaresma Neto 01/01/2001

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O Matuto Solteirão

JOSÉ PACHECO

Um rapaz do meu sertão
Por demais analfabeto,
Vivia sempre na roça
Com pouca gente por perto
Sua maior convivência
Era com animais e com insetos.

Nunca tinha ido à missa
Precisava se casar
E era necessário
Primeiro se confessar
Ele disse: - agora sim,
Sei que vou me enroscar.

Disse a mãe do tal caboclo
- Manuel eu vou te ensinar
Ouça a missa direitinho
Depois vai-te confessar
Olhe, não faça besteira
Para o povo não mangar.

Deixe o povo está na frente
Fique sempre por detrás
Tudo quanto ele fizer
Tu repara e também faz
- Senhora sim, minha mãe
Respondeu o tal rapaz.

O povo daquele tempo
Usava um camisão
Com a ciloura somente
Paletó, camisa não
Nesses trajes foi à missa
O matuto solteirão.

Assim entrou na igreja
Olhando pra todo lado
O povo logo falou
- Esse homem tá assombrado
Com um chapéu na cabeça
Como quem tá no roçado.

Chegou um rapaz decente
Sentou-se numa cadeira
O matuto perguntou
Com sua fala brejeira
- Sua mãe também lhe disse
Para não dizer besteira?

O rapaz não respondeu
O que o tal perguntou,
Porque naquele momento
A missa principiou.
O moço puxou um lenço
Sobre o chão se ajoelhou.

O matuto que não tinha
Um lenço também levado
E era para fazer
Como a mãe tinha mandado
Olhou para todos os cantos
Ficou muito aperreado.

Ali tirou a ciloura
Sobre o chão se encolheu
De frente ao pessoal
De joelho se benzeu
Uns diziam para os outros
Esse homem enlouqueceu?

Uma mulher disse a outra
- Comadre olha que armada!
Um menino por detrás
Sacudiu-lha uma palmada,
Ele deu numa mulher
Que estava à frente sentada.

A mulher levantou-se e disse:
- Você é doido rapaz?
O rapaz lhe disse: - Dona
O erro vem por detrás
E mesmo eu só vim aqui
Fazer o que os outros "faz".

Veste a roupa cafajeste!
O sacristão lhe mandou.
Ele disse então: - seu moço
Meu lenço em casa ficou
E eu tenho que fazer
Como mamãe me ensinou.

Depois da missa acabada
Foi aos pés do capelão
Ele disse: - Seu vigário
Me ouça de confissão
O padre disse: - Se acuse
Ele disse: - Eu não sei não.

- Ou filho, você não lembra
De ter ofendido a Deus?
- Será que tu não sabes
Contar os pecados teus?
- Tu já mataste alguém?
Ou será que és ateu!

- Eu nunca matei ninguém
Também nunca fui malvado
Apenas fiz uma coisa
Não sei se isso é pecado
Eu e quatro companheiros
Num dia santificado.

Nós "andava" pelo mato
Tirando imbira e cipó
Eu, compadre Fava Cega,
Com o compadre João Coió,
O Chico do pé quebrado
E compadre Zé Queixó

Nos "tava" tudo com fome
Quando saímos do mato
Comemos três melancias
No campo de Zé mulato
Todas três "tava madura"
Eu comi que fiquei chato.

Vou contar outro pecado
E quem fez foi eu "sozim"
A porca de minha mãe
Estava de "bacurim"
Eu joguei uma pedrada
Quebrei o pé "dum poiquim".

Mais do que esses pecados
Eu não me lembro se fiz
O padre lhe respondeu:
- Você até que é feliz
A reza da confissão
Vamos ver se você diz.

- A reza eu não aprendi
Porque me faltou lembrança
Mas aprendi outras coisas
Que tem a mesma importância.
O padre disse: - Na reza
Pode ter a semelhança.

- Eu aprendi muitas coisas
Bem melhor do que rezar
Como bem fazer badoque,
Fazer flecha e atirar,
Fazer pau de uma cangalha
Tirar abelha e caçar.

Aprendi fazer balaio
Quixó, mundi, arapuca
Corda de cabresto grande
Facho de matar mutuca
Dou apito pelas ventas
Que a língua dança a manzuca.

Aprendi fazer esteira
E fazer chapéu de palha
Cabresto até de imbira
Laço de pegar jandáia
Rede que nem piabinha
Não escapole da malha

- Te levanta e vai embora
Disse o padre ao rapaz
Pois tu vens com essas bobagens
Que não são celestiais
Isso são independentes
Das condições divinais...

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O PEDIDO
Valentim Quaresma e Francisco Diniz

Esta poesia foi transformada em música, cantada por Ceiça Farias, que participou do Festival da Música Brasileira promovido pela Rede Globo em 2000.
Para ouvi-la, clique aqui.

Clique aqui para escutar a interpretação de Francisco Diniz, em 2004.

Veja O Pedido em cifra para acompanhar no violão.
































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