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Capa 1: Cecília, Clarice e Juliana.                     Capa 2: Leontino Quirino.

Literatura de Cordel

Autor:
Valentim Martins Quaresma Neto
Santa Helena - PB, junho de 2001/janeiro de 2004.


Veja como iniciou
A história do meu povo
Santa Helena, meu lugar,
Um município bem novo
Cuja sua trajetória
Entre derrotas e glórias
É marcada a ferro e fogo.

No ano de vinte e cinco
Era simplesmente mata
Com um pequeno riacho
Correndo pela cascata,
E um terreno arenoso,
Perto de um alto vistoso
Terra boa e barata.

Por volta de vinte e seis
Joaquim Alves, um lavrador
Chegou nessa região
E logo se instalou,
Fez uma boa plantação
De algodão e feijão
E o roçado prosperou.

Como o fantasma da seca
Naquele ano não veio,
Joaquim chamou a família
Catou e botou no seio
Trinta quartas de feijão,
Cem arroubas de algodão
O armazém ficou cheio.
1

O homem admirado
Com aquela produção
Disse pra sua mulher,
Chorando de emoção:
- Eu era um retirante
Feito um judeu errante
Agora não sou mais não.

Vou criar minha família
É aqui nesse torrão,
Vou construir uma casa
Fazer nova plantação
E meu lugar é aqui
Nunca mais eu vou sair
Desse Canto de Feijão.

Ainda no mesmo ano,
Começou a construção
De uma Estrada de Ferro
De Fortaleza a São João
E a criação do lugar
Depressa pôde tomar
Uma grande impulsão.

Gonçalo Vitoriano
Foi o segundo a chegar
Raimundo Luís da Silva
Ali também veio morar
E os cassacos da estrada,
Na missão e na jornada
Começaram a acampar.
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Casas foram construídas
E o lugarejo aumentando,
Construíram a estação
Ruas foram-se formando
Terrenos pra construções
De casas e barracões
Joaquim Alves foi doando.

Fizeram uma igrejinha,
Um depósito e um mercado
E o povo estava feliz
Trabalhando no roçado
Ou vendendo pão e cocada
Nos trens da nova Estrada
Pra ganhar algum trocado.

Logo Raimundo Luís
Que era recém-chegado
Cabra forte do Sertão
Passou a ser delegado
Para dar a segurança
E o povo ter confiança
E ficar mais sossegado.

Ouviu-se um tiroteio
E a rotina foi quebrada
O lugarejo acordou
Numa tremenda zoada
Foi Lampião que chegou
Trazendo medo e pavor,
A vila foi assaltada.
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Era o ano vinte e sete,
Lampião rei do cangaço
Com sua corja cruel,
Apareceu no pedaço
E botou para quebrar
Assaltou o meu lugar,
Promoveu grande fracasso.

O bando entrou nas casas
Fazendo a devastação,
Humilhando os moradores,
Roubando a população,
Deixando um rastro de sangue
Promovendo um bang-bang
Pelo Canto de Feijão.

Demonstrando seu instinto
De terror e crueldade,
Matou Raimundo Luís
Sem dó e nem piedade,
Vitimou um lavrador,
Um pobre agricultor
E fechou toda a cidade.

Abriu fogo na Igreja,
Depredou a estação,
Atirou na caixa d’água
Uma bala de canhão,
Incendiou o mercado
E botou fogo, de malvado
Num armazém de algodão.
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E o lugar sitiado
Não pôde se defender
O povo encurralado
E vendo a hora morrer,
Pois foi pego a traição,
Não houve outra solução
O remédio foi correr.

O povo corria louco,
Sem rumo, sem direção
Escondendo-se nas brenhas,
Nas cavernas do sertão
E até os cabras machos
Tremendo, falando baixo
Com medo de Lampião.

O avô de Antônio Piqui
Estava na diversão
E passou a noite inteira
Dançando xote e baião
Quando foi dar um cochilo
Acordou-se pelos tiros
Do bando de Lampião.

E saiu para o terreiro
Fazendo uma indagação:
- Para que tanto festejo?
Para que tanto rojão?
Eu sei que não vale a pena,
Se ali não tem novena
Nem é noite de São João,
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Eu vou saber o que é!
E para que tanta explosão...
Entrou na rua correndo
Avistou um cidadão
Que vinha se arrastando
E foi logo perguntando:
- É festa ou renovação?

- "Que festa coisa nenhuma!
Corra logo meu irmão...
Essa zoada é de tiro
Do bando de Lampião
Mataro um pobe coitado
E até mermo o delegado
Tá baleado no chão.

Quem não correu levou bala,
Quem ficou foi humilhado,
Morreu um trabaiador
E mataro o delegado
Veja se você escapa
Que eu tô caindo na lapa,
Vou aqui todo melado".

Zé Piqui ouvindo aquilo
Ficou foi alto do chão
E foi fazendo o retorno,
Voando feito avião...
Mas, na esquina do mercado
Aquele pobre coitado
Barrou em lampião.
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Bateu e caiu pra trás,
Já foi querendo chorar,
Fazendo grande alarido
E começou a gritar:
- "Não me mate Lampião!
Tenha pena capitão!
Tenho filhos pra criá"

-"Parece qui tava em farra
Tá bem trajado e lambido,
Cum chêro de puta pobe
Ou de muié sem marido,
Tu olha por onde corre
Proquê se não você morre
Com um tiro no ouvido!"

Virgulino aberturou-lhe
E o pobre tremendo o queixo.
- "O sinhô fuma sujeito?
- Fumo não, é um deslêxo
Apenas tomo café
Mais se o sinhô quisé
Ainda hoje mermo eu dêxo."

-"Meu revóve num atira
Em cabra dessa frochura
Você num vale uma bala,
É mole de dá gastura
Eu vô mandá Pé de Vento
Lhe dá um insinamento
E levá pra serputura:
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Pé de Vento, venha aqui!
Ajeite esse cara lisa,
Tire ai desse sujeito:
Calça, sapato e camisa,
Sorte o homi pra corrê
Se você podé detê
Pode matá duma pisa!".

Zé estava meio mole
Mas quando livre se viu.
Deu uma rasgada no chão,
Fez finca-pé e partiu
Entrou no mato fechado
Só ouviu-se o estalado
Chega a poeira subiu...

Lampião olhou e disse:
- “Cum essa, vamo simbora!
Arriba rapaziada!
Agora chegou a hora,
Jararaca, Bem-te-vi,
Já tá na hora de ir
Chame o zome para fora”.

O rei do cangaço foi
Com seu patuá de glórias
O povo ainda lembra
Porque sabe e tem memória.
Mesmo estando errado
Deixou seu nome gravado
Nos anais de nossa história.
8-
Fim
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