Literatura de Cordel

Autor: Valentim Martins Quaresma Neto


Caros amigos leitores,
Mulheres deste sertão,
Peço licença a vocês
E também a atenção
Pra falar de um casamento
Que houve no Riachão.

Riachão é um lugar
Do Estado da Bahia,
No século antepassado
Nesse lugar existia
Uma negrinha comum
Que chamava-se Maria.

Nesse tempo o negro era
Cruelmente escravizado
Vivia no cativeiro
Trabalhando acorrentado
Se falasse em fugir
Logo era espancado.
01

Maria sempre calada
Positiva e leal,
Mas se fosse insultada
Transformava-se total
Era mulher forte e brava
Por detrás do avental.

Pela região morava
Um tocador de rabeca:
Branco, loiro e bonito
Que atendia por Zeca
Tocava seu instrumento,
Também jogava peteca.

No pátio do Riachão
O povo se reunia
Para brincar com petecas,
A tarde, todos os dias
Foi lá que o jovem Zeca
Se apaixonou por Maria.

Namoraram oito meses:
No Domingo Zeca ia
Conversava a tarde inteira
Com Chico, pai de Maria
Que só via a amada
Na porta quando saía.
02

Ao fim desse período
Zeca resolveu casar
E comunicou a Chico
Que logo foi preparar
Barracas e pavilhão
Pra festa realizar

Na Igreja do Bonfim
Foi marcado o casamento
De Zeca com a Maria,
Como é o mandamento
E chegou o grande dia
De fazer o juramento.

Casavam no mesmo dia,
Mariquinha com Zé Pedro,
Ela uma galeguinha
E ele um pobre negro,
Também queriam unir-se
Pra viver e ter sossego.
03

O padre, um homem alto
Chamava-se Jamelão,
Pregava em alto e bom som
As palavras do sermão
Com muita fé e bondade
Fazia a celebração.

Na hora dos casamentos
Chamou aqueles casais,
Começou a explicar
As exigências gerais
Pra manter a união
Cada dia mais e mais...

E falou para o público
Já nas palavras finais:
- Quem tiver algo contrário
A união desses casais
Fale agora por favor
Ou não fale nunca mais.
04

Ao lado do seu vigário,
Estava o sacristão,
Um cabra bem sarará
Que logo subiu a mão
-Desse jeito não dá certo
Tá errado, Jamelão!

Sou branco e não gosto nada
Desse pessoal de cor,
Estudei Filosofia
Sou um ótimo professor
Se isso aí não der certo
O culpado é o senhor.

Siga logo o meu conselho
Já que está com a mão na massa,
Case aí esses dois brancos,
Pessoas de boa raça,
Depois se o senhor quiser
Case os pretos, essas desgraças.

Maria se levantou
Num pulo reto com o pé
No peito do sacristão
Que ele virou canapé
-Eu te mostro amarelão
O que é uma mulher.
05

Jesus o Pai Poderoso
Não me tem como desgraça,
Amor, verdade e fé
Ele pregou foi na praça
É o Deus de qualquer tribo,
É Senhor de qualquer raça.

Estou aqui nessa missa
Pelo amor e pela fé
O mesmo amor que pregou
O homem de Nazaré.
Só não vou viver com Zeca
Se ele não me quiser.

Os outros três envolvidos
Nada tinham a dizer,
Esperavam por alguém
Pra poder lhes defender,
Todos entregues a sorte
Deixavam acontecer.
06

A missa tumultuada
E a maior confusão,
A madrinha de Maria
Com o guarda-chuva na mão,
Perguntando a todo mundo
-Você viu o sacristão?


O sacristão escapou
Debaixo de uma cadeira,
Dizendo consigo mesmo
-Fiz uma grande besteira...
Foi pela porta do fundo
Quase morre da carreira.

O barulho na Igreja,
O padre preocupado.
Maria pediu desculpa
Por não haver suportado
Os insultos agravantes
Daquele excomungado.

O padre desculpou tudo,
Disse: - agora vão em paz,
A união do casal
É o próprio casal que faz.
O povo saiu depressa
Pra montar nos animais...
07

De volta ao Riachão
Poeira e alegria
Andavam muito felizes
E o assunto era Maria
Que ficara consagrada
A partir daquele dia.

De um alto o cortejo
Avistou o barracão:
Viva os noivos minha gente!
Lá também tem pavilhão
Diziam as testemunhas
Na maior satisfação.

Aqui finda o casamento
De Maria, a guerreira
Que com força e coragem
Defendeu sua bandeira
E viveu em paz com Zeca
Feliz e a vida inteira.

FIM
08

Valentim Martins Quaresma Neto
Santa Helena - PB, 12/10/1990
.................................................................................
Site na internet: www.projetocordel.com.br
E-mail: literaturadecordel@bol.com.br
   Oi - 83 8862-8587   /   Tim - 83 9927-1412