O mundo é um grande circo
Disse o poeta outro dia
Ensinou com essa frase
O que a gente sabia,
Pois somos muitos palhaços
Animando a burguesia...

Nossa vida é uma luta
Só para sobreviver
Tentando encontrar um meio
Para ter o que fazer
Acabamos sendo vítimas
Daqueles que têm poder

A astúcia dos humildes
Surge da necessidade,
De encontrar alimento,
Respeito e igualdade
Mas, as tramóias dos ricos
São repletas de maldade
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Pois, são sempre carregadas
De ganância e de ruindade...
Eles estão governando
País, estado e cidade
São eles os responsáveis
Pela triste realidade.

Vale tudo ou quase tudo
Na luta para viver...
Sem emprego, sem salário
O pobre tem que correr
Fazendo malabarismos
Para ter o que comer

Foi assim que um certo dia
Chegou em minha cidade
Um circo pequeno e pobre,
Sem luxo e sem vaidade
Pertinho da minha casa
Instalou a sua grade
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O material do circo
Era pouco ou quase nada:
Picadeiro ao relento,
Não existia empanada,
Era apenas bem cercado
E só havia uma entrada.

Qualquer pessoa que olhasse,
De longe via o quadrado
Não era um circo redondo
Era meio atrapalhado,
Mais parecia um curral
Feito de arame farpado...

Tinha quatro bailarinas,
Um palhaço, um trapezista,
O porteiro, que era o dono,
E mais um malabarista.
E assim era formado
O elenco de artistas.
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O dono do espetáculo
Andava sempre vexado
Pelo jeito se notava
Que vivia aperreado.
Sem dinheiro pra comida
Foi logo comprar fiado

Com duas pernas de pau
O Palhaço Vida Mansa
Foi fazendo a propaganda
Rodeado de criança.
Com sua voz engraçada
Chamou toda a vizinhança

Eu fiquei desesperado
A entrada era um cruzeiro
Papai não tinha um tostão
Mamãe não tinha dinheiro...
A família dava o duro
Para arranjar o grosseiro
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Bateu-me um desespero
Uma vontade de ir,
Mas meu pai deu-me uma ordem
-Se aquiete e vá dormir!
Você está proibido
De falar em circo aqui...

Nessa noite não dormi
Ao som das gargalhadas
Ouvindo a voz do palhaço
Na hora das palhaçadas
E o aplauso do povo
Foi até de madrugada.

Ao amanhecer o dia
Era aquele vai e vem...
O prefeito da cidade
Veio dá os parabéns.
-Vocês só são pobrezinhos
Mas, trabalham muito bem...
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E na primeira semana
Quase que não existia
Um lugar vago no circo
O povo comparecia
Sempre uma coisa nova
E nada se repetia,

Mas da segunda em diante
O repertório esgotou,
O povo deixou de ir
O circo se esvaziou
E o tempo das vacas gordas
Rapidamente passou...

E o meu amigo Silvio
Veio logo me avisar:
-Hoje é o último dia
Que o circo vai brincar
Nós que não fomos ainda
É hoje que vamos olhar.
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Não precisa de dinheiro
Basta saber trabalhar...
Cruzeiro ninguém tem mais,
Já vieram me contar
Que o Zé Osmar entrou
Só porque deu um preá.

Depressa uns cinco fojos
Nas veredas foram armados
Não demorou muito tempo
Tinha dez preás pelados
Só esperando o momento
Para serem transportados.

Pelas 19 horas
Marchei para a portaria
Já fazia mais de um mês
Que eu esperava aquele dia,
Estava muito animado
E cheio de alegria...
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Fui entregando e dizendo
Já estão todos tratados!
O porteiro perguntou:
- Os bichos estão salgados?
Eu disse: -toda certeza!
E meu muito obrigado.

E naquele mesmo dia
Os safados da cidade
Arquitetavam um plano
Feito com muita maldade,
Tudo em comum acordo
Com algumas "autoridades"...

O prefeito convidou
Parte dos aduladores,
O padre e o delegado,
Alguns dos seus assessores
E logo explicou o plano
Ao bando de malfeitores...
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Falou dando uma risada:
-Eu mando meu pessoal
Fazer uma confusão,
Uma araca, um quebra pau
E o dono daquele circo
Vai dormir no matagal...

Se a gente não fizer isso
O circo não vai sair
Isso ai é um latejo
Ninguém pode mais dormir
Vamos formar uma briga
Para expulsa-lo daqui.

Perguntou ao delegado
- E o senhor o que acha?
O polícia respondeu
Um tanto quanto sem graça:
- Me dê cinqüenta cruzeiros
Pra eu tomar de cachaça.
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O prefeito levantou-se
E o dinheiro entregou,
Mas disse ao delegado:
- Quero avisar que o senhor
Vai fazer o que eu mandar
E seja lá o que for.

Não prenda ninguém dos nossos
E depois da confusão
Intime quatorze pobres
Deixe nove na prisão
Que eu apareço mais tarde
E faço a "libertação..."

O padre se levantou
Disse: - Já está na hora
De fazer alguma coisa
Para o circo ir embora.
Que Deus abençoe a todos.
Eu os espero lá fora.
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A turma de salafrários
Deu os acertos finais.
O prefeito advertiu
Numa ameaça sagaz:
- Se alguém abrir o bico
Já sabe o que a gente faz!

Saíram pela cidade
Numa algazarra total
Gritando, tomando pinga
Fazendo gesto imoral
E dizendo em toda altura
Vamos quebrar o curral.

Marcou 21 horas
O relógio da matriz,
O circo até tinha gente
O dono estava feliz
Sem saber que aquele dia
Ia deixar cicatriz.
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- Caro e respeitável público!
Momento de emoção
Vem alegrar esse povo
Com sua apresentação
O homem que engole fogo
O melhor desse sertão.

Entrou o pobre artista
Com a lamparina na mão,
A boca cheia de gás
Olhando só para o chão,
Cuspiu o líquido inflamável
E apareceu um clarão...

A partir desse momento
A peleja começou,
Ouvi um tiro pro alto
Foi a corja que chegou
Pra fazer a confusão
Que o prefeito mandou.
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E a turma de bandidos
Passou pela portaria
Sem pagar nenhum ingresso
Como o porteiro queria
Gritando: - circo ruim
Hoje chegou o teu dia!

Começou a gritaria
Pontapé e empurrão
O povo levou nos peitos
Estacas e até mourão
Passei entre dois arames
Sem levar um arranhão.

O povo apavorado
Lutando pra se salvar
E a canalha procurando
Objetos pra brigar
E foram logo avistando
A corda cheia de preá.
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Na hora que o trapezista
Andava bem no arame
Virou refém indefeso
Dos filhotes das madames
Mandaram um preá no peito
E derrubaram o infame.

Bateu uma preazada
Na cara de João Ferreira
Quando ele ia escapando
Em uma baita carreira,
João ficou desacordado
Até a segunda-feira.

Eu tive pena dum gordo
Que se chamava Faustão.
Esse rapaz imprensado
No meio da confusão...
Da roupa não sobrou nada
Nem cueca nem calção.
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Era um nu, outro vestido,
Um entrando, outro saindo
Um calado, outro gritando
Um brigando outro assistindo
Um parado outro correndo
Um chorando outro sorrindo.

Quando a polícia chegou
Batia sem piedade
Os alcoólatras e os pobres,
Os mais simples da cidade
Foram moídos de peia
Pernoitar por trás das grades.

Foram presos nesse dia:
Cascatinha e Bem-te-vi,
Sapinho e Zé Cambirimba,
Também Paulo de Nadi,
Pilantra e Arregaçado
Zé da Medalha e Jupi.
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Um preso disse ao prefeito:
- Meu padrinho, meu Doutor
Eu fui preso sem dever
E você quem me salvou,
Enquanto vida eu tiver
Eu vou votar no senhor...

E o pessoal do circo
Foi parar no hospital.
E meu pai foi intimado
Pelo velho Oficial
No circo não sofri nada
Mas em casa me dei mal.

Nunca mais fui a um circo
Essa foi a despedida,
Mas eu sei que sou palhaço
De cara bem colorida...
E vejo por outro ângulo
O grande circo da vida.
16
Fim

Valentim Martins Quaresma Neto
Santa Helena - PB

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