Literatura de Cordel



Este cordel obteve o 1o lugar no FESTAL 2001 no Estado do Ceará

Perfil de um Estudante

Senhor Deus pai soberano
Na alegria e na dor
Que me colocou na terra
Pra cultivar o amor
E assim seguir a risca
As ordens do criador

Quero pedir ao senhor
Que me dê inspiração
Para contar minha história
Do fundo do coração
Utilizando o cordel
Força máxima do sertão

No dia que eu nasci
Receberam-me com amor
Todos tinham esperança
De me vêem vencedor
Minha mãe sempre dizia
Esse aqui vai ser doutor...

1

Depois chegou a idade
Sorrindo fui a escola
E lá não me senti bem
Briguei, rasguei a sacola.
E mamãe sempre mandando:
- Vá pra escola agora!

Uma me empurrou pra frente
Outra me empurrou pra traz
A família e a escola
São complicadas demais...
E eu fui ficando zangado,
Inquieto, sem ter paz...

Chegou minha adolescência
Eu comecei a sonhar,
Fui lutando a cada dia
Para me realizar
Fantasias, ilusões
Eu fui tendo sem parar

2

O professor na escola
Chamou minha atenção
Disse-me: - Estude garoto!
Você é um cidadão
Vais aprender na escola
A ter uma profissão,

Mas eu sou é do Nordeste
Das quebradas do sertão
Sobrevivo do cultivo
Do milho, arroz e feijão.
De vez em quando tem seca
Pode faltar até pão.

Mesmo assim me esforçando
E ouvindo meu professor,
Descobri tem algo errado,
Isso me causa uma dor.
Eu me queixo do sistema
Assassino e opressor.

3

Mas eu nunca tive medo
De alma ou assombração
Logo encontrei a arma
Pra lutar contra o dragão
Livros, sonho e paciência
E amor à educação

Numa escola turbulenta,
Meio desorganizada
Lá estou mesmo no meio
Enfrentando a jornada
Quase sem agüentar mais
Porque a luta é pesada.

Prova do vestibular
Outros cursos, o ENEM.
Estou dentro faço tudo,
Não passo, não me dou bem
Fico muito magoado
E sofro como ninguém...

4

E minha maior tristeza
É poder observar
Que a universidade pública
Com a qual vivo a sonhar
Está cheia de alunos
Da escola particular

Eu sou da escola pública
Não posso e não vou pagar
Minha história estou contando
Somente para lembrar
Que esse direito é meu
E ninguém pode roubar

Tenho medo de meu sonho
Nunca se realizar
Tenho visto tanta gente
Sofrer, correr, estudar...
E ficar decepcionado
Com o velho vestibular.

5

Alguma coisa foi feita,
Mas eu acho que foi pouco
E ainda falta muito
Pra esse sistema louco
Entender que pobre é gente
Vivendo em grande sufoco.

Pobre não deseja luxo
Na sua simplicidade
O que ele mais deseja
É ter oportunidade
De estudar e trabalhar,
Conquistar a liberdade...

Por isso quero deixar
Aqui uma sugestão
Para aqueles que dirigem
A nossa educação
O povo exige respeito,
Amor, consideração...

6

A educação como está
Quem for analisar chora
O que ela está precisando
Eu vou lhe dizer agora
É incluir todos os pobres
Sem deixar nenhum de fora

E ainda, ajudar a gente
De uma forma segura
Reconhecer o valor
De nossa imensa cultura
Nós é quem somos poder
E a gente ninguém segura

Só um povo consciente
De sua própria história
Pode lutar pra vencer
E conquistar essa glória:
Poder ler e escrever
Utilizando a memória

7

Como palavra de mãe
É boa e não cai no chão
Ainda não sou Doutor,
Mas continuo em ação.
Já aprendi na escola
A amar e a ser cidadão

Quem aprende essas virtudes
Sua vida está segura
Aprender com a liberdade
Preservar a natura
E a respeitar a vida
É a maior formatura

Nada a mais a declarar
Ao amigo leitor
Só quero fazer justiça
Ao que minha mãe falou
Serei um doutor poeta
Ou um poeta doutor.

8

FIM

Autor: Cícero Pereira da Silva, Umari-Ceará
Professor Orientador: Valentim Martins Quaresma Neto, Santa Helena-PB
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