Literatura de Cordel

Autor: Valentim Martins Quaresma Neto
Santa Helena-PB, 14/07/2002



Quando Cristo andou no mundo
Algo bom aconteceu
Curou, salvou, transformou
Até a morte venceu
Pois, ao terceiro dia
Ressuscitou, não morreu...

O que é divino e sagrado
Originado do amor
Não morre, fica pra sempre
Na alegria e na dor,
Por isso, que o Patativa
Não morreu, nem se mudou.

Sua presença constante
No Sertão sempre estará
Onde houver amor e verso
E gente pobre a lutar
No coração sertanejo
Ele sempre vai estar
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Protegendo o povo simples
Com um saber divinal
Seu verso estará presente
Defendendo o social
Contra a ganância e a maldade
Que existe no Capital.

A sua presença física
Pode aqui não está,
Mas sua sabedoria
Não morreu, nem morrerá
É semente boa e fértil
Prontinha pra germinar.

A verdade é que a vida
Na terra é uma passagem
Todos carregam uma cruz
Dentro de suas bagagens
Alguns se imortalizam
Por ter amor e coragem...
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Foi assim que o Patativa
Já se imortalizou
Não cedeu as tentações
Do sistema infrator
Resistiu o quanto pôde
Por isso tem seu valor.

Lá na Serra de Santana
Nasceu trazendo alegria
Encantou o mundo inteiro
Com sua sabedoria...
Sem papel e sem diploma
Ficou Doutor em poesia.

Jesus sabendo de tudo
Resolveu lhe convidar
Para um recital no céu,
Ele não pode faltar
Um convite desse tipo
Não dá para recusar...
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E no dia oito de julho
Do ano dois mil e dois
O Patativa voou
Não deixou para depois
O sertanejo chorou
Porque o poeta foi.

Saiu cantando com os anjos
Na hora da despedida
Uma melodia simples
Que é bastante conhecida
Como o povo estava triste
Ele cantou "triste partida"

Com sua voz rouca e simples
Ao lado de São Miguel
O poeta em poesia
Pediu para entrar no céu
Não houve burocracia,
Nem ele assinou papel.
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Quando entrou no paraíso
Um sertanejo gritou:
- Vai avisar a Jesus
Que seu Antônio chegou!
São Jorge no seu cavalo
Rapidamente montou.

Saiu correndo apressado
E não demorou a voltar
Veio junto com un cortejo
Dá gosto só em falar:
Um comboio de vaqueiros
Todos eles a aboiar.

Jesus veio no jumento
Seu animal natural
Estava muito feliz
Com o cerimonial
Patativa ficou pasmo
Com o cortejo divinal.
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Seu pensamento poético
Demorou a entender,
Mas sua sensibilidade
Logo o fez compreender
Aquela recepção
Veio pra lhe comover.

Todos os cavalos mortos
Nas secas que assolaram
O Nordeste brasileiro
A sua frente desfilaram;
Os sertanejos montados
Ali cantaram e rezaram.

O pelotão dos jumentos
Veio logo mais atrás;
Jesus com seu estandarte
Numa mensagem de paz
Dizia pra Patativa:
Seja bem-vindo rapaz...
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O poeta comovido
Disse-lhe: - muito obrigado.
E nesse exato momento
Foi atendendo a um chamado
De São José Operário
Que estava do seu lado.

O santo bem educado
Olhou pra ele e falou:
- Pode ficar a vontade,
É por aqui, por favor!
Logo uma porta se abriu
E o Patativa entrou.

A casa estava enfeitada,
E houve um aplauso total
Muitas cores tremulando
No salão celestial
Todos ficaram em silêncio
Para ouvir o recital.
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E uma voz de criança
Disse: - Eu sou sua fã
Vivo servindo a Jesus
No período da manhã
E o poeta quase caiu
Quando viu que era Nanã.

A voz de Manuel Bandeira
Bradou compondo a mesa
E convidou Patativa
Por questão de gentileza
E foi chamando os demais
Com alegria e beleza:

- Leandro Gomes de Barros
Se aproxime por favor;
Poeta Manoel Caboclo
Amigo bom de valor;
Convido o Cego Aderaldo
Que agora mesmo chegou;
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Quero convidar agora
Expedito Sebastião,
Poeta do Juazeiro,
É da mesma região
Onde nasceu Patativa
O professor do sertão.

Chamo os poetas românticos
Que morreram de amor
Convido Carlos Drumond
Poeta e professor;
E o Augusto dos Anjos
Que é um homem de valor;

João Cabral de Melo Neto,
De "Morte e Vida Severina",
Venha nos prestigiar
E chame aí as meninas
Traga Cecília Meireles
E dona Cora Coralina.
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Jesus disse pra São Jorge:
- Faça-me um favorzinho
Chame Gregório de Matos
E Expedito Sobrinho,
Inácio da Catingueira,
Eles ficaram sozinhos...

Camões e Castro Alves
Vieram escondidinhos
Pelo meio da platéia
Entraram apertadinhos
Queriam ver Patativa
Cantar como um passarinho.

Mas Patativa viu tudo
E a Manuel comunicou:
Chame Luis de Camões
E Castro, meu professor,
Ele defende o escravo
E eu, o trabalhador...
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Gregório de Matos Guerra
Disse com sua voz fina:
- Manuel, chame as mulheres,
Só vejo duas meninas!
Estou sentindo a ausência
Da meiguice feminina.

Cale a boca, Boca Ruim!
Disse bandeira sorrindo:
- Mal chegaste ao salão
E estás me advertindo!
Pediu silêncio a platéia
E mandou soar o sino...

- A mesa está composta
Agora vamos ouvir
Patativa do Assaré
Poeta do Cariri
Para dizer em poesia
O que está fazendo aqui.
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Patativa disse assim:
Vim atender a um chamado
De Cristo, Rei dos Judeus
Por ele fui convidado.
Por tudo que ele me fez
Quero dar-lhe o obrigado.

Eu nasci no Ceará
Numa seca região
Onde com dificuldade
Vive a população
Sem condições de trabalho
E sem ter educação.

Meia dúzia de pessoas
Detém toda a riqueza.
Quando estive por lá
Vivi no meio da pobreza
Senti e já sei de perto
O que é fome e fraqueza.
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O abandono é geral
Não se vê a caridade;
O povo vive intranqüilo
No campo e na cidade,
Carestia e violência
Maltratam a sociedade.

Minha escola foi a roça
E a batalha diária,
Vivi cultivando a terra
Trabalhando na pecuária.
O Brasil só vai ter paz
Se fizer Reforma Agrária.

Conheço como ninguém
A terra que me gerou,
Trabalhei e fiz poesia,
Vivi como agricultor.
Falta água no Nordeste
Para a gente ter valor.
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O céu quase veio a baixo
Com os gritos dos nordestinos
Velhos, moças e rapazes,
Mulheres, homens, meninos
Cantaram batendo palmas
O mais bonito dos hinos.

"Quando olhei a terra ardente
Igual fogueira de São João"
Eu perguntei ao presidente
Por que não faz a irrigação?
Eu perguntei ao presidente
Por que não quer a irrigação??

Bandeira pediu silêncio
A platéia obedeceu.
Patativa muito simples
Ao povo agradeceu
Dizendo: - Eu estou surpreso
Como o céu me recebeu!
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E do meio do povão
Jorge Amado, o escritor
Pediu ao Patativa
Por amizade e favor
Pra recitar as poesias
De "Espinho e Fulô"

E Mário Lago mandou
Dias Gomes perguntar
Se ele havia decorado
E se podia cantar
As poesias do livro
"Cante Lá Que Eu Canto Cá".

Patativa disse sim
E agradeceu as presenças
Foi recitando as poesias
Com amor e paciência
Quando completou as mil,
Ele disse: - Tomem ciência.
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Todo esse meu trabalho
Que eu fiz para o Sertão
Foi por amor à cultura
Do homem da região
E eu peço aos professores
Que façam a divulgação.

Façam grupos de leitura
Do Oiapoque ao Chuí.
Minha vida é um exemplo
Para quem quiser seguir
Aprendi a ler sozinho
Por isso, estou aqui.

Fui muito bem recebido
Gostei demais do lugar
Não esqueci o Sertão
Mas, não quero mais voltar
Esse lugar é sagrado
É aqui que eu vou ficar...
16

FIM


Valentim Martins Quaresma Neto, 14/07/2002.
Santa Helena-Paraíba/Brasil.
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