Literatura de Cordel

Um Vaqueiro no Seminário

Autor: Valentim Martins Quaresma Neto
Santa Helena - PB, fevereiro de 2005


Quero escrever pra vocês
O que ouvi dos meus pais,
Contaram-me uma história
Achei bonita demais
Foi na era de cinqüenta
Já beirando a de sessenta
A meio século atrás.

Um coronel conhecido
Rico, criador de gado
Era pai de cinco filhos
E queria vê-los formados,
Ele não sabia ler
E nem também escrever,
Pois nunca tinha estudado.

Esse Brasil sem estudo
Não sabe o que já perdeu
O coronel nasceu pobre,
Por isso não aprendeu
A dominar a leitura
Sua grande formatura
Foi o crânio que Deus lhe deu.
-1-

Recebendo a produção
Da gente trabalhadora
Quando estava pesando
Os produtos da lavoura
Causava admiração
Somava com precisão
Igual a calculadora.

Um dia disse a mulher:
- Vou fazê economia,
Vou ajudá a meus fio
E eu tem fé em Deus qui um dia
Vão ficá tudo dotô
Ingenhero, professô
Vão mim dá muita aligria.

Dificilmente acontece
Como a gente planeja
A vida é um mistério,
Uma saga, uma peleja,
Com flores ou com espinhos
Cada um segue o caminho
Que escolheu ou que deseja
-2-

A escola não foi o forte
Dos filhos do coronel
Não teve doutor formado,
Nem padre, nem bacharel,
Mas um entrou na história
Dos folhetos da memória
Foi o seu filho Joel.

E o velho distribuiu
Um filho em cada lugar:
Heleno no Pernambuco,
Geraldo no Ceará,
Tota vai pro Piauí,
Joé num pode saí,
Daciano no Pará.

Joé é homi da lida
Num precisa de estudá,
Já nasceu sabendo tudo
Num tem do que se quexá
Vai vivê nessas quebrada
No nó de sua laçada
Tenho gosto de puxá.
-3-

Sua esposa Felisbela
Começou logo a chorar,
O coronel percebeu
E ligeiro foi perguntar
O que estava acontecendo
E ela foi respondendo:
- Joel tem que estudar

Meu filho vai ser um padre,
Disse beijando o rosário:
-Vivi a vida sonhando
Que ele seria um vigário...
E logo no outro dia
O Joel sem alegria
Viajou pro seminário.

O tempo no internato
Demorava a passar,
Joel lembrava do gado
No roçado a pastar...
Do açude, do bebedouro,
E da castanha do touro,
E da corda de laçar...
-4-

Na vida do seminário
De leitura e oração
Joel não se concentrava
Pensava no alazão,
Na espora e no chicote,
Bezerro dando pinote,
Vaca comendo ração...

Os padres davam as aulas
Sobre o mundo cristão:
Falavam do rei Davi,
Na Bíblia, em Salomão
E Joel ali sentado
Com o pensamento voltado
Pra perneira e pro gibão...

Um dia o padre João
Estava lecionando,
Era ao entardecer
E ele estava falando
Das plantas tão naturais
Citou alguns animais
E a aula foi acabando
-5-

Quando notou que Joel
Baixinho estava aboiando,
Chamando o nome das reses
E o aboio aumentando.
A turma ficou parada,
Disparou numa risada
E Joel continuando.

Passou mais de doze horas
Aboiando sem parar
O padre João se cansou
De pedir e de rogar
A turma chorou e riu,
Até o bispo pediu
E ele rouco de aboiar...

Nessa hora apareceu
O alegre coronel
Parou o carro de boi
E perguntou por Joel.
O padre João comovido
Disse muito agradecido:
- Obrigado Deus do céu.
-6-

Não sei o que aconteceu,
Joel mudou de repente
Com os dedos nos ouvidos
Não atende mais a gente,
Ia mandar um portador
Avisar ao senhor
Pra saber o que ele sente...

O vigário aperreado
Disse coçando a cabeça:
- Seu Zé faça alguma coisa
Antes que ele enlouqueça
O pobre desse menino
Faz zoada igual ao sino
Pode ser que lhe obedeça...

- Eu já sabia de tudo
Acabe esse disispero
O gado me avisou,
Hoje cedo no terrero
Isso aí a cuipa é dela
Bextera de Filisbela
Esse minino é vaquero
-7-

Quando ele nasceu os dente,
Montava mió qui eu
Pra laçá só temo ele,
Nunca um laço perdeu
E pra derrubá baibatão
Iguá a ele padre João
No sertão nunca nasceu.

Vamo pra casa Joé
Óqui seu chapé de couro
Vá tirá leite das vaca
E butá ração pu touro
E seu cavalo melado
Já está pronto, selado
Ande! vamo meu tesôro!

Joel parou de aboiar
E recebeu o chapéu
Disse: - Desculpe meu pai
Eu sei que não fui fiel,
Mas na minha oração
Vou incluir padre João
E nós vamos os dois pro céu.
FIM
-8-

Valentim Martins Quaresma Neto
Santa Helena - PB, fevereiro de 2005

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