Literatura de Cordel


A Volta da Asa Branca
Foi quem uniu nossos pais
Com o violão no ombro
Vicente era um rapaz
Quis tocar e foi tocado
Pelo que o amor faz...

Nosso pai era solteiro
Metido a tocador
No som forte da paixão
E nas batidas do amor...
Foi encontrar uns acordes
E veja o que ele encontrou

"Terezinha de Jesus
Mulher firme e sem engano.
Em cinqüenta e dois a safra
Não atrapalhou os planos
Os dois jovens se uniram,
E casaram no fim do ano..."
1

Há meio século atrás,
Começaram a jornada
Com muita dificuldade
Pra seguir a caminhada
Tempos bons, tempos difíceis
Entre secas e invernadas.

São dezenove mil dias
Trabalho foi o assunto
Nosso pai vendeu, comprou
De carro velho a presunto
Vaca, couro e sapato
Ele vendeu tudo junto...

Botou e levou taboca
Foi enganado e enganou
Abriu e fechou comércio
Vendeu, comprou e trocou
E quando nada dava certo
Ia ser agricultor...
2

Deu o sangue, trabalhou
Enriqueceu muita gente
Arrancou toco e brocou
Sempre na linha de frente
Nunca um patrão lhe pagou
Pelo trabalho decente...

Teve sempre uma mania
De ser rico sem poder...
Não deu valor ao dinheiro
Que ele fez por merecer,
Confiou e foi traído
Mas não soube aprender...

Nosso pai vendeu e comprou
Coisas que você duvida
Trabalhar, correr, andar
Tem sido assim sua vida.
Mamãe não é mercadora
Sua sentença é comprida..
3

Vicente, um comerciante,
Político e agricultor.
Teresa, a dona do lar
Que nunca o pé arredou
E só Deus sabe o tanto
Que esse casal trabalhou...

Do mais velho, Zé Martins
A mais nova, Piedade
Fiquem certos de uma coisa
Com toda sinceridade
Nossos pais pra nos criar
Tiveram dificuldades.

Sofreram as dores que hoje
Nós estamos a sofrer
Pois, já somos pais e mães
E não podemos querer
Que os nossos filhos nos façam
Na velhice padecer.
4

Nossa vida é uma roça
Quando o inverno está chegando
Somos os trabalhadores
O tempo todo plantando
E a semente escolhida
Logo estará germinando

Mais tarde vem a colheita
Daquilo que foi plantado
Uns já vão colher felizes
Outros vão ficar zangados
Talvez não lembre a semente,
Muito menos o passado.

Nossa mãe saía a pé
Com panela e caldeirão
Arrumados na cabeça
Quentes que só um vulcão,
Ia deixar o almoço
A uma dúzia de peão
5

Andava uma légua e meia
Nas estradas do sertão
Voltava muito cansada,
Mas tinha disposição
Trazia um feixe de lenha
Pra cozinhar o feijão...

Hoje ela está aqui
Pra colher o que plantou:
Trabalho, dedicação
Foi assim que ensinou,
Se você não entendeu
Algo errado já plantou...

Nosso pai vendia tecido,
Quando éramos pequenos,
Em um malote vermelho
Parece que estou vendo:
- Deus seja a tua guia!
Mamãe na porta dizendo...
6

No vermelhão do malote
Uma mancha escura e preta
Do suor de nosso pai
Onde botava a cabeça.
Pra erguer aquele peso
Sempre fazia careta...

Ia e voltava a pé
Na hora que desse certo
Não reclamava do peso
Porque sempre foi esperto
Andava falando só,
Pois não tinha ninguém perto.

Papai além do trabalho
Plantou outras coisas mais,
Mesmo depois de casado
Não deixou de ser rapaz
Foi às festas e bebeu
Isso lhe puxou pra trás...
7

Escolhamos a semente:
A festa ou a mancha preta
Nossa velhice será
O momento da colheita,
Ou vamos colher sorrindo,
Ou vamos fazer caretas...

Na lida de todo dia
Cada um tem sua cruz
Semente selecionada
Por nosso senhor Jesus
Pegue e leve seu madeiro
Se quiser colher a luz...

Meu verso voa direto
Como uma flecha certeira
E atinge o coração
Da família brasileira
Dizendo ame seu pai
Pra que seu filho lhe queira...
8
FIM
Valentim Martins Quaresma Neto,
Santa Helena-PB, novembro de 2002.

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