Literatura de Cordel
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Autor: Valentim Martins Quaresma Neto
Santa Helena - PB, 20/08/2005


O tempo é senhor de tudo,
A vida é um livro aberto
É fácil cometer erros,
O difícil é agir certo.
Olhe o lugar onde pisa
Quem sabe, escuta, analisa,
Enxerga o que está por perto.

O cão que late não morde
É um conhecido ditado...
Se for pra falar besteira
É melhor ficar calado.
Seguro morreu de velho,
No seu casebre vermelho
É vivo o Desconfiado.

Dois bicudos não se beijam
Dois bocas fundas, pior.
Era também um adágio
De vovô e de vovó.
É a água da neblina
Devagar, compacta e fina
Que deixa arrochado o nó.
1

É melhor andar sozinho
Do que mal acompanhado,
Prefiro escapar fedendo
A morrer bem perfumado
O mundo não tem ferrolho
Porque mato possui olho
E parede tem escutado.

O Nordeste velho e seco
Tem histórias pra contar,
Sabedoria do povo
E da cultura popular
Peripécias do sertão
A terra que Lampião
Gostava de governar.

No tempo que Virgulino
Governou essas quebradas
Com sua lei de momento
E sentenças improvisadas,
Tudo o que aconteceu
O povo não esqueceu
E existe até piadas.
2

Raimundo, meu bom irmão,
Amigo de toda hora,
Dedica parte do tempo
A jogar conversa fora...
Contar e ouvir piadas
Soltar bonitas risadas
E a gente gosta, adora!

A história de Zé Boato
Foi ele quem me contou:
Disse que era um rapaz pobre
Muito simples, lavrador,
Abanava com as mãos,
Falava dando empurrão,
Mas era um trabalhador.

Conversava sem parar,
Cuspia quem tava perto...
Se tomasse umas bicadas
Zé ficava mais esperto,
Falava mal do poder
Para todo mundo ver
E o seu discurso era certo...
3

Dava reposta pra tudo
E dizia toda hora
- Não tenho medo de nada
De lobisomem ou caipora,
Eu não abro nem pro trem
Carregado de xerém
Meto o ferro e vejo a tora...

Zé falava tudo isso,
Mas não se envolvia em briga,
No lugar onde morava
Ele não tinha uma intriga.
A mãe dizia: - É besteira
Tu vive falando asneiras,
Um dia Deus te castiga...

Não gostava nem um pouco
De falar em Lampião
Ficava enfurecido
Com o povo do sertão:
- Aqui só tem cabra frouxo
Eu tenho muito é desgosto
De viver nesse torrão.
4

E Zé estava bradando
Caminhando numa estrada
Falando em toda altura
Fazendo muita zoada:
-Aquele moleque é rim
Um dia ele leva fim,
O cabra num vala nada!

Percebeu que bem atrás
Chegava um cavaleiro,
Chapéu quebrado na testa
Em um cavalo baixeiro.
O Zé aumentou a voz
- O cuipado disso é nóis
qui num mata o forastero

Anda fazeno mafeito
Queimano as propiedade
Matano os pobe inocente,
Fazendo imoralidade
E pegando no aleio,
Isso é negóço feio
Farta de capacidade...
5

Todo povo do Nordeste
Divia se reuni
Pá pega aquele cão
Pá vê se ele ia sumi,
Eu mermo tinha a corage
De andá nessas brenhage
Lutá até consigui

E se nois pegasse ele
Dava uma surra cunveçada
Daquela qui o nêgo mija
E a calça fica melada
Eu mermo tinha o prazê
De vê o cabra tremê
Ca rôpa toda moiada...

Minino, ah se eu pegasse!
Na trunfa de Virgulino.
Só quiria ouvi a vóis
Do safado me pidino:
- Num me mate seu zezim
Homi tenha dó de mim
E o cacete caíno.
6

O caboclo do cavalo
Já foi ficando corado
Escorou-se no estribo
E falou um pouco alterado:
- Quem procura sempre acha
Vai cumeçá a disgraça,
Iscute! Cabra safado!

Sou Virgulino Ferrera,
Governadô do sertão
Acima de mim só Deus
Eu me chamo Lampião,
Se você é mermo homi
Eu quero sabê seu nome
E se é mermo valentão.

- Eu sou o finado Zé,
Besta de cai pá trais
Uma incumendo dum leso
Mais nasci leso demais
Bem qui minha mãe dizia
Que essa bextera um dia,
Ia mim tirá a pais...
7

- Se você é homi morto,
Eu num preciso matá,
Cave um buraco no chão
E cumece a se enterrá.
A minha cabeça arde
Quando eu topo cum covarde
Fico sem me agüentá.

Zé cavou a própria cova
Porque boatou demais
E Lampião encostado
Não deixou o homem em paz,
Depois que ele se enterrou
Foi que o bandido atirou
Mas não adiantava mais.

Quando estiver conversando
Veja o que vai dizer.
Se é bom para o outro
E também para você,
Língua é arma pesada
Que está sempre usada
Pra matar ou pra morrer.
FIM
-8-

Valentim Martins Quaresma Neto
Santa Helena-PB, 20/08/2005
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