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Peleja de Armando Fernandes e José Carneiro

Peleja de Armando Fernandes e José Carneiro

NOTA: Este é um cordel que mescla realidade e ficção.


José Carneiro, de Mamanguape.
Armando Fernandes, de Teixeira.

      Clique no ▶ para escutar o poema

Peleja de Armando Fernandes e José Carneiro


Eu sou Armando Fernandes,
Tenho a sina verdadeira,
Nasci na bela cidade,
Poética e hospitaleira,
Eu adotei o seu nome
E fiquei Nando Teixeira.

Fiz sonetos inda pequeno,
Deixados no esquecimento.
Eu trouxe o dom da música,
Sei tocar um instrumento,
Violão, sendo exato,
Dizem que tenho talento.

Em diferentes gincanas
Declamei minha poesia,
Homenagens aos mentores,
Relatos do dia a dia,
Muitos me incentivaram,
Motivando a fantasia.

Escrevi alguns poemas,
Deixei tudo registrado,
Procurei a prefeitura
Sonhando em ser publicado,
Mas o sonho de poeta
Ali fora sepultado.
1

É tanta burocracia,
Tempo perdido, então,
Eu desisti de viver
Do talento à profissão,
Foi quando Luiza Flores
Me deu uma sugestão.

Procure o professor,
Seu nome Francisco Diniz,
Talvez possa te ajudar,
Eu me senti mais feliz,
Pensei, vou realizar
A obra que tanto quis.

O professor, bom sujeito,
Em um discurso fiel,
Falou-me: - Meu camarada
Já estive em seu papel,
Hoje eu estou à frente
De um projeto de cordel.

Ele é realizado
Com música e poesia,
Venha e seja voluntário,
Declame, mostre alegria,
Em escolas de João Pessoa
Começa em poucos dias.
2

Versos do grande Amazan,
De Ivanildo Vila Nova,
Alunos e professores
Põem o meu talento em prova,
Tremi igual vara verde
Sem sustância quando nova.

O professor experiente
Sutilmente enalteceu:
- Olha, escreva um cordel,
Divulgue trabalho seu.
Foi quando o cordel, “Marias”
Noutro dia apareceu.

Fiz também por conta própria
O "Conversando com Deus"
Fechando a trilogia,
‘’MULHER”, com os encantos seus,
Meio torto e confuso,
Confiante só em Deus.

A Funjope abriu concurso,
Foi em jornal divulgado,
Francisco me inscreveu
Com um cordel digitado,
O cordel era "MULHER",
Fiquei em quinto colocado.
3

Isso foi em dois mil e sete,
Noutro ano me apresentei
Lá na Tenda do Cordel,
Onde toquei, declamei,
Até poeta de renome
Na viola acompanhei.

Foi o meu primeiro cachê
Desse meu dom de artista,
Foi quando ali conheci
José Carneiro repentista
Da cidade Mamanguape
Com outros dois cordelistas.

Uns dois meses adiante
Diniz me telefonou:
- Armando, José Carneiro,
Há pouco te convidou
Pra cê ir a Rio Tinto.
Disse a Francisco, eu vou.

Anotei o telefone
E apreensivo, talvez,
Liguei, confirmando a data.
- Será domingo, dia três,
Armando, traga a viola
E uns cordéis que você fez.
4

Decorei alguns cordéis
Com fé e boa atenção,
Cantava o que tinha escrito
Ao som do meu violão,
Eu achando que seria
Só mais uma apresentação.

Fui de moto a Rio Tinto
Por uma estrada esquisita,
Era a festa da padroeira
Por nome de Santa Rita,
O pátio estava enfeitado,
Coberto com muita fita.

O padre, o senhor Glaubo
A nós dois cumprimentou,
Levou-nos a um restaurante
E todo mundo jantou,
Foi quando José Carneiro
O seu plano a mim falou.

Armando, estou sem parceiro
Pra fazer a cantoria,
Eu te ouvi tocar viola
Numa bela melodia,
Vamos ganhar o cachê,
Cantamos com harmonia.
5

Eu disse: - José Carneiro,
Isso é pra repentista,
Pra cantar sou sem talento,
Sou apenas cordelista.
E Carneiro: - Está na hora,
Eu sei que és um artista.

Em consciência pensei,
Eu tudo eu sou guerreiro,
Quem faz verso e declama
Faz o mesmo que o violeiro,
Tocar viola eu já sei,
Só vou daqui com o dinheiro.

Fiquei sentado em um banco
Com a viola afinada,
A minha era uma giannini,
Pequena, de cor encarnada,
Na nossa frente botaram
Uma bandeja forrada.

Depois o padre falou
Ao povo ali presente:
- Agora os repentistas
Irão mostrar no repente
As rimas puras e belas
Que existem na sua mente.
6

O poeta José Carneiro,
Por todos ali bem aceito,
Eu, na minha, cabisbaixo,
Analisando direito
Com a viola imprensando,
Ali, em cima do peito.

Padre Glaubo apresentou
O poeta José Carneiro,
- Esse mais jovem é o Armando
Um novato violeiro,
Eu, comigo, só pensando
Era na cor do dinheiro.

O padre Glaubo findou
A nossa apresentação,
Foi quando José Carneiro
Deu início a função,
O povo ali parou
Pra ouvir a improvisação.

José Carneiro
Cantemos com emoção
Nessa festança bonita
Em homenagem a Santa
Padroeira Santa Rita,
A beata Dona Francisca,
Terezinha e Benedita
7

Armando Fernandes
O meu coração palpita
Na caixa, dentro do peito,
Louvemos a Jesus Cristo,
Padre Glaubo, bom sujeito,
A padroeira da cidade
Pra qual o evento foi feito.

José Carneiro
Me sinto do mesmo jeito,
Bastante emocionado
Ver a cidade em festejo,
Na rua o pátio enfeitado,
Foi quando um rapaz botou
Na bandeja alguns trocados.

Armando Fernandes
Toquei no meu instrumento,
Na escala caprichei
Olhando para a bandeja,
Para Carneiro pisquei,
Fechei os olhos e o verso
No momento improvisei.

Poeta José Carneiro,
Agora estou animado,
Antes o prato estava limpo,
Agora está enfeitado,
Tire verso de improviso
Pra o prato ficar forrado.
8

José Carneiro
Eu só canto improvisado,
Não me ponha em desengano,
Eu faço em dez minutos
O que ocê não faz num ano,
Faço sextilha, galope
E martelo alagoano.

Armando Fernandes
Não se exalte meu amigo,
O que foi que aconteceu?
Você se diz veterano,
Mas por que se ofendeu?
Se sabe cantar, que cante,
Só não melhor do que eu.

José Carneiro
Todo mundo percebeu
A minha superioridade,
Pois você perto de mim,
Eu passo mais da metade,
Não irei te humilhar
Por ter pena e amizade.

Armando Fernandes
Para lhe falar a verdade,
Não vejo essa coragem,
Quer testar?, venha, insulte,
Já está falando bobagem,
Contemple o que quiser,
Capriche na sua triagem.
9

José Carneiro
Eu desenho as imagens
No meu subconsciente,
Os mistérios da natureza,
Lua fria, o sol quente,
O inverno, o verão,
O fruto e a semente.

Armando Fernandes
Sou um pássaro inocente
Cantando em frente à campina,
Bebendo o orvalho aparado
Na folha verde e fina,
Sou um sermão penetrante
Falando a graça divina.

José Carneiro
Com a viola nordestina
Eu nunca temi parada,
Cantei muito, sou veterano,
Em verso não temo a nada,
Nesse momento a bandeja
De dinheiro era enfeitada.

Armando Fernandes
Notas de vinte e de dez,
A bandeja estava cheia,
Algumas de cinco e de dois
Davam para uma ceia,
Pelo dinheiro eu cantava
Até meia noite e meia.
10

Fiz então, mais alguns versos,
Eu me senti inspirado,
Disseram lá vai um tema,
Estava despreocupado,
Levantei mais a viola,
Caprichei no ponteado.

José Carneiro pensou
Que eu ia titubear,
Nas sextilhas saí bem,
Mas em tema iria penar,
Naquele momento eu
Qualquer coisa ia cantar.

Olhei o tema e pensei,
Esse aí é bom demais,
Fala de mãe e de amor,
São versos bons, geniais,
“É SÓ A MÃE QUE PERDOA
OS ERROS QUE O FILHO FAZ”.

José Carneiro, como sempre,
Na toada toma a vez,
Saiu cantando o tema
Que é de João Milanês,
Agora vai o improviso
Do jeito que ele fez:
11

José Carneiro
Mamãe é santa, é pura,
Mamãe que me dá consolo,
Me dá papa, me dá bolo,
Garapa de rapadura,
Mamãe, a linda figura,
Merece todo cartaz
Né santa, mas os sinais
Provam qu'é boa pessoa,
“É só a mãe que perdoa,
Os erros que o filho faz”.

Armando Fernandes
Mamãe minha protetora
Me dá abraço, carinho,
Me botou em lindo caminho,
Minha eterna professora,
Justa, fiel, defensora.
- Meu filho defenda a paz,
A briga é do Satanás,
A maldade Cristo enjoa,
“É só a mãe que perdoa,
Os erros que o filho faz”.

José Carneiro
Minha mãe está ausente,
Partiu deixando saudade,
Uma dor no peito invade,
Há queixas em minha mente,
Só quem perde a mãe sente
Que ela não volta mais,
Se eu pudesse voltar atrás
Não fazia coisa à toa,
“É só a mãe que perdoa,
Os erros que o filho faz”.
12

Armando Fernandes
Tinha um galo de campina,
Eu troquei por um carrinho,
Mamãe falou com jeitinho,
Filho, mamãe não combina,
Ficou comigo na esquina,
Quando avistei, fomos atrás,
Ela falou com o rapaz:
- Essa troca não foi boa.
“É só a mãe que perdoa,
Os erros que o filho faz”.

José Carneiro
Meu pai com o cinturão
Pronto para me açoitar
Querendo me castigar
A mim e ao meu irmão,
Mamãe comprou a questão:
- Não faça isso, Tomaz!
E assim reinou a paz,
Graças a Deus e à coroa,
“É só a mãe que perdoa,
Os erros que o filho faz”.

Armando Fernandes
Todos condenam, mas ela
Me escuta e compreende.
Se me bate, se arrepende
De me bater de chinela.
Eu a amo e a acho bela,
Guri não sabe o que faz,
Ruim que só Barrabás,
Que a Cristo amaldiçoa,
“É só a mãe que perdoa,
Os erros que o filho faz”.
13

O homem que deu o tema
Botou cinquenta reais,
Saí e me levantei,
Fiz pra Carneiro uns sinais
Para esvaziar a bandeja,
Que assim cabia mais.

Bebi água e voltei
Para findar a peleja,
U'a moça botou um papel
Com uma nota na bandeja,
Era um tema bem bonito,
Como o poeta deseja.

O tema em decassílabo,
De dez versos, a criação,
Carneiro fez ar de riso,
Como que eu perdia a questão,
Mas era o sistema usado
Do soneto a construção.

“Se te amar for pecado estou ciente,
Irei para o inferno satisfeito
”.
O velho Carneiro afoito
E sem mudar o seu jeito
Debulhou o tema dado,
Relato como foi feito.
14

José Carneiro
Eu por ser por demais apaixonado
Já nasci no intuito de amar,
Ao sentir uma mulher me abraçar
Já começo ficando arrepiado,
Se chegar uma dona ao meu lado
E então se encostar no meu peito,
Se fizer um convite, eu aceito,
Nem pergunto se já tem pretendente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.

Armando Fernandes
Apesar de amar o Deus divino,
Entender a sua grande lição,
Por Jesus eu ter tanta devoção
E me ajudar a entender o meu destino,
Mas me sinto igualmente a um menino
Na quentura e conforto do seu peito,
Pode até vir o céu que eu rejeito,
Com você eu deixo de ser um crente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.

José Carneiro
Quando vejo uma mulher passeando
E ao me ver faz um charme e fica rindo,
Passo a passo começo lhe seguindo,
Pra bem perto vou me aproximando,
Jogo um charme e fico conversando,
Digo logo que sou um bom sujeito
E se ela gostar desse meu jeito
É mais uma pra minha cama quente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.
15

Armando Fernandes
Eu te amo, te quero, te venero,
Meu amor por você é indestrutível,
Esse amor que sinto é visível,
Deus Jeová me perdoe, eu espero,
Tu és o prazer que eu tanto quero,
Outro amor, fora o teu, eu não aceito,
Trocaria o céu lindo e perfeito
Por você amorosa, linda e quente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.

José Carneiro
Não descarto uma mulher carinhosa
Sendo ela gorda ou magricela,
Ela pode ser feia ou ser bela,
Se comigo quiser dar uma prosa
Eu a chamo de flor, cravo e rosa.
Da política do amor entro no pleito,
Se ela me quiser serei eleito
Pra ser o seu amor eternamente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.

Armando Fernandes
Quem ama loucamente é quem diz:
Siga sem medo ao desconhecido.
Quando a dama procura um marido
No enlace para ser bem feliz.
Não quero carinho de meretriz,
Proposta indecente eu a rejeito,
Quando Deus abençoa tudo é perfeito
E eu confio em Deus Pai Onipotente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.
16

José Carneiro
Para amar nunca me faltou vontade,
A demora é alguém aparecer
Que me beije e me ame com prazer
E eu sinta que tudo é verdade,
Não serei mais um ébrio na cidade,
Viverei sem mudar esse meu jeito,
Qualquer rabo de saia eu aceito,
Fico bom se acaso estiver doente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.

Armando Fernandes
Eu procuro o amor e a ternura,
Eu procuro respeito e união,
Companheirismo, carinho, atenção,
Desejo, afeto e a candura
E troca de afetos sem censura
No segredo e conforto do meu leito,
No escuro tudo pode, e é perfeito,
Tudo pode surgir daí pra frente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.

José Carneiro
Creio que não é pecado amar,
O amor representa união
E quando ele toca no coração
Qualquer um pode se apaixonar,
Sou feliz quando tenho a quem beijar
E esse beijo mostra qualquer efeito,
No embalo logo me aproveito,
Malho forte enquanto o ferro está quente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.
17

Armando Fernandes
Ainda sou romântico, apaixonado
Do tipo que ainda manda flores
E escrevo poemas pra os amores,
Gosto de estar sempre abraçado
No silêncio da noite deslumbrado,
Encostar minha face no seu peito,
Se minha dama quiser desse jeito
Serei seu Amando eternamente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.

José Carneiro
Os carinhos de uma linda mulher
Quando são para mim oferecidos
Não importam os gritos e gemidos
Eu farei tudo quanto ela quiser,
Quando ela me ama e me quer,
Aí, sim, o amor surte efeito,
Para mim não existe beco estreito,
Chuva grosa, sereno, sol ardente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.

Armando Fernandes
Todo homem que vive apaixonado
Fica frágil do jeito de uma flor,
Eu só assim me entrego ao amor,
Me maltrato da perda do passado,
Cicatrizes no peito magoado
Por destrato de amor que foi desfeito,
Cada ausência da jura causa efeito,
Me consome e perturba a minha mente,
Se te amar for pecado estou ciente,
Eu irei para o inferno satisfeito.
18

O povo aplaudiu o verso
Profundo e metrificado,
Foi quando o padre pediu
Um martelo agalopado,
José Carneiro começou,
Num estilo mais moderado.

José Carneiro
Esse menino é danado,
Pensa que é dono do mundo,
Acha ele que é profundo,
Vive num sonho enganado,
Padre Glaubo foi malvado,
Quis ver eu lhe açoitar,
Não quero me exaltar
Nas costas desse inocente,
“COMIGO O ROJÃO É QUENTE,
CANTE QUEM SOUBER CANTAR”.

Armando Fernandes
Apesar de ser novato
No ramo da cantoria,
Entendo e sei poesia,
Sou ligeiro igual um gato,
Nado mais do que um pato,
Rápido que só um jaguar,
Dou frutos igual um pomar,
Crio tudo sem semente,
“COMIGO O ROJÃO É QUENTE,
CANTE QUEM SOUBER CANTAR”.
19

José Carneiro
Eu já cantei com Diniz,
Com Raimundo Caetano,
Antônio Valeriano,
Nenhum se saiu feliz,
Hoje muita gente diz
Que sou fera ao improvisar,
Não preciso decorar,
Tenho tudo em minha mente,
“COMIGO O ROJÃO É QUENTE,
CANTE QUEM SOUBER CANTAR”.

Armando Fernandes
Na força, eu sou Sansão,
Beethoven, na maestria,
Sou Camões, na poesia,
Na espada, eu sou Roldão,
No forró, sou Gonzagão,
No brega, sou Baltazar,
Em guerra, sou Alencar,
Quer testar? Venha e me enfrente,
“COMIGO O ROJÃO É QUENTE,
CANTE QUEM SOUBER CANTAR”.

José Carneiro
Eu canto conforme queira,
Enfrento todo empecilho,
Ninguém apaga o meu brilho,
Ultrapasso qualquer barreira,
Comigo é dessa maneira,
Só vai se me aguentar,
Poeta pra me enfrentar
Precisa ser mui valente,
“COMIGO O ROJÃO É QUENTE,
CANTE QUEM SOUBER CANTAR”.
20

Armando Fernandes
Só vi em ti pabulagem,
Não passa de um gabola,
Diz que é fera na viola,
Diz que luta e tem coragem,
Em tudo levou vantagem
Até em mim tropeçar,
Sou espinha pra lhe engasgar,
Ruim que só dor de dente,
“COMIGO O ROJÃO É QUENTE,
CANTE QUEM SOUBER CANTAR”.

O padre aplaudiu rindo,
- O gordinho é danado!
Mas o desafio pedido
É o martelo agalopado
Pra terminar a cantoria
E levar o meu trocado.

Pra ganhar o combinado
Do contrato que foi posto,
O padre Glaubo exigiu
Que martelo fosse exposto,
Hostil e agalopado,
E assim teria gosto.

O momento era aquele,
Carneiro já combinou,
Nesse momento, fui eu
Quem o martelo começou,
Vou deixar aqui registrado
Como a peleja findou.
21

Armando Fernandes
Padre Glaubo pediu um agalopado,
José Carneiro mudou logo o roteiro
E provando que sou bom violeiro
Aqui estou cantando improvisado,
Um dos dois vai tombar é machucado,
Sou carrasco quando estou cantando,
Duvidou, me insultou, findou penando
Com o peso dos versos em cantoria,
Eu esgoto por vez sua poesia,
Sem sentir eu estou lhe machucando.

José Carneiro
Vou topar a contenda com Armando,
O poeta que mora em Santa Rita,
Dizem que é jovem da voz bonita
E cantando está sempre no comando,
Eu, comigo, fiquei aqui pensando
A parada sinistra e mui severa,
Se tem um predador que me espera,
Uma força maior me estimula,
Muito antes que a fera me engula
Vou cortar a cabeça dessa fera.

Armando Fernandes
Eu sou brando, mas viro uma pantera
Se for pra defender meus ideais.
Mato, morro e provoco funerais,
Mudo o clima de toda atmosfera,
A rotação do mundo acelera,
Minha força aumenta cem por cento,
Piedade, bondade jogo ao vento,
Perco logo o controle e o sentido,
Sou foice pra poeta enxerido,
Malcriado, metido e rabugento.
22

José Carneiro
Me disseram que esse elemento
É chegado a uma malandragem,
Ele vem através da pabulagem,
Já lhe chamam velhaco, avarento.
Pra comprar o seu próprio alimento,
Quem vendeu, fica a se lamentar,
Na farmácia lhe chamam de azar,
Ele compra e vai se esconder,
Quem vendeu fiado que receber,
Ele compra e esquece de pagar.

Armando Fernandes
Ele gosta de jogo de azar
No submundo mantém freguesia,
O crime, meretriz por companhia,
Esse doido nasceu para enrolar,
Joga, bebe, aprendeu a trambicar,
Arrumar contenda e confusão,
Ele cospe, vomita no balcão,
Leva tapa por cima do nariz,
O dia que ele está mais feliz
É quando vai passear de camburão.

José Carneiro
Muita gente avistava uma visão
Indo de Santa Rita pra Bayeux,
As mulheres temiam só porque
Poderia ser um bicho-papão,
Um alguém parou uma condução
E o bicho papão se escondeu,
Em um cerco o bicho apareceu,
Mas alguém desvendou esse mister,
Era Armando trajado de mulher
Procurando o amante que perdeu.
23

Armando Fernandes
De uma pisa o amigo endoideceu
Foi cantar um carioca, um negão,
Sem pensar soltou-lhe logo a mão,
De uma bordoada carneiro esmoreceu,
Noutro dia um galego apareceu
E carneiro ficou apaixonado,
Se trajou de boneca e animado,
Fez convite ao galego, ele aceitou,
No escuro o galego o desonrou
Ainda hoje ele o tem por namorado.

José Carneiro
O Armando está desmantelado,
O Armando encrenca com o povo,
Dos ricaços ele é o baba ovo,
Puxa saco do doutor delegado,
Troca a roupa e sai todo perfumado,
Sai sorrindo e dizendo estou cheirando,
Quem está perto sai logo se afastando,
Cospe fósforo com nojo do rapaz,
Perfume da ticaca cheira mais
Do que este que Armando está usando.

Armando Fernandes
Os meus dedos no pinho sai solando,
Tenho saber, destreza, habilidade,
Mi'a virtude maior é a humildade,
Deixo saudade onde vou passando,
Gente grande sempre me observando,
Pois meus versos são feitos com respeito,
Não aceito um matuto do seu jeito
Se achar que é grande, pois não é,
És gabola, um falsário, um Mané!
Quer desmanchar o que eu já tenho feito.
24

José Carneiro
Pra ser bom repentista não tem jeito,
Você nunca vai ser bom repentista
Você, sim, tem a cara de fascista,
Viciado, malandro, mau sujeito,
Mas me sinto feliz e satisfeito,
Creio que já está chegando a hora
De calar minha voz, minha sonora,
O poeta um do outro é irmão,
Paro o pinho, termino a discussão,
Dou um forte abraço e vou embora.

Armando Fernandes
Esperei esse ano, o mês e a hora,
Finalmente essa briga aconteceu,
Ofendi e você me ofendeu,
Vão falar da contenda mundo afora,
Minhas ofensas sua alma devora,
Suas ofensas titilam em minha mente,
São dois irmãos da arte do repente
Numa luta ferrenha sem intriga,
Por hoje, eu termino essa briga,
Se quiser peia chame novamente.
25

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Feito com Mobirise - Sistemas: Francisco Diniz.  Adaptado de Cesar Szpak Celke e de NodeStudio


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